Sonhei-me empresário.

Empresário bem sucedido.

Quer dizer, roupinha da moda

À medida

Carro por encomenda

Namorada boazona e tal

Casa de cidade, de campo, de praia

Iate, helicóptero.

Não sou daqueles que andam de jacto privado

Porque jactância, para mim, só em público.

Sonhei que o cúmulo das minhas celebrações,

Entre mordomos, criadas, criados, jardineiros, motoristas e cozinheiros,

O cúmulo é o leilão das cuecas.

Bem, eu explico:

Fiquei rico a vender cuecas.

Cuecas de homem, de senhora, cuecas lgbti, cuecas em geral,

Cuecas em particular.

Fiz milhões em shorts de poliéster com a marca Put In,

Vendidos em países africanos afetados pela desinteria.

Acrescentei biliões com calcinhas de algodão doce

Da marca Chupa Mos,

Dispensadas na Hungria, na Dinamarca e no Vaticano.

Juntei mais uns acres de dinheiro

Em cuecas de seda com braguilha e botões modelo avô

Fornecimento exclusivo para o soba da Coreia.

Inventei slips biodegradáveis e outros biodesagradáveis.

Não há ninguém que passe sem cuecas, quer dizer,

Há quem ande com o rabo ao léu,

Mas cueca é mais que substantivo. É verbo.

Todos cuecamos, mais tarde ou mais cedo.

E de tal forma e feitio que não há elástico que resista.

Eu juntei barcos, carros e namoradas,

Montado num Império de nylon e algodão equatorial, com uma pitada de sedas e elasteno, quando foi caso disso.

Até arranjei alguns amigos pelo caminho, em lojas de vestuário, em balneários e festas catitas.

Penso um destes dias tirar o dinheiro das contas da Suíça, do Luxemburgo,

Da Irlanda, das Ilhas Caimão e colocar tudo nas Ilhas Virgens e na Ilha de Bikini.

Forrar as virgens e os bikinis do dinheiro das cuecas!

Depois faço uma fundação para apoiar quem não tem o que vestir.

Com o leilão das cuecas prime!

O arranque da Fundação Cuecão.

Em memória de todos e todas e mais x que transportaram o que podiam na intimidade da sua roupa interior.

Já imaginei até um slogan:

Fundação Cuecão: tudo para todos, do gigante ao anão.

Imaginem o impacto visual disto.

Eu por mim só uso cueca fio dental.

É mais arejado.

Mas respeito tudo, desde o short à ceroila.

E que comprem, comprem bem.

Porque comprar e cuecar, é sempre a somar.

Ah, como é bom o mercado de roupa interior!

Se tiver paciência, ainda vou fazer umas fábricas de soutiens,

Lá para o Vietname, Cambodja ou coisa assim.

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier
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