Todos os regimes, mais à esquerda ou mais à direita, têm um programa estético porque todos os líderes, mais ou menos incautos, compreendem o poder da cultura e da arte na criação de sentidos de pertença e da vinculação de identidades e valores coletivos. Ao longo da História, foram vários os momentos em que a Arte foi instrumento de comunicação com as massas, de fidelização de ideias e normativas e o espaço público, fundamentalmente urbano porque de maior densidade populacional, foi sendo o palco desta construção coletiva, deste princípio de eternidade, desta temeridade que atravessa os dias. Há lugares que se tornaram museus ao ar livre e que contam, na presença das suas obras de arte em espaço público, mais ou menos contemporâneas, mais ou menos comemorativas, mais ou menos monumentais, perenes ou efémeras. Os Medici, por exemplo, souberam compreender que o mecenato cultural, o apoio aos artistas e a criação de um ambiente propício à criatividade e ao pensamento, eram indicadores de afirmação de poder económico e político. A prática segue-se e os museus estão repletos de coleções de privados, ao mesmo tempo que os territórios têm museus e instituições que são repositórios de muitas estórias de êxito tornadas devolução à comunidade.

A relação entre espaço público e obra de arte não é, nem nunca foi, contudo, pacífica. Não há obra que não tenha uma estória de desamor coletivo associada, ainda que com o passar do tempo a maioria seja apropriada por quem habita os lugares, como parte dos dias, como sintoma das horas e das estações. Nesta relação de contrários, que se conhece e sobre a qual se vai lendo a cada nova encomenda e investida, a cada nova agregação artística contemporânea que os territórios ganham, interessa que o pensamento por trás das escolhas seja o da liberdade e da democracia, de respeito pelos artistas e destes pelos contextos de implementação e, sobretudo, com perspetivas apolíticas, sem engajamentos e sem tendências, na compreensão de que o eterno se interessará sempre pelo estético puro, belo ou não, e que regimentar teve um tempo que já não é o nosso (assim desejamos, pelo menos). Não obstante, a linha é ténue pois na escolha de determinado autor, na definição de uma temática ou de um lugar há sempre uma intenção política, um ato de comunicação para as massas.

Desde muito cedo, na minha carreira, que tive oportunidade de estabelecer diálogos, através da programação, educação e mediação cultural, entre o espaço público e a criação artística em vários contextos institucionais e em vários pontos do país. Concretamente, desde a minha chegada ao dstgroup e à zet gallery que esse diálogo passou a ser mais interventivo e de ação material sobre o espaço público. Em outubro de 2017, inaugurou-se na Universidade do Minho (campus de Gualtar, Braga) a primeira obra de espaço público em cujo processo de conceção, desenvolvimento e implementação participei, ou seja, em cujo processo de curadoria participei. O desafio era diferente dos que conhecia, de outra escala e envolveu, situação que muito me agradou, contacto e colaboração estreita com profissionais externos ao meio artístico e essenciais para tornar tal empreitada possível. A obra de arte em espaço público estabelece uma relação de saberes com muitas áreas e pode ser verdadeiramente indutora de uma verdadeira economia circular do conhecimento em que a mobiliação de competência serve um propósito coletivo.

O caminho fez-se e as empreitadas multiplicaram-se, criando uma consciência de que, como em outros exercícios de comunicação entre arte (artistas), públicos e instituições, o espaço público carece da curadoria e dos seus cuidados e pressupostos. É urgente e necessário legislar, regulamentar, para lá dos ciclos políticos, práticas de implementação de obras de arte em espaço público, fundadas em objetivos que sirvam os territórios e os seus cidadãos. No mesmo sentido, é necessário proteger a preservação e manutenção da obra de arte, como o artista a imaginou e projetou, através de manuais concretos, assinados pelas partes e que garantam que, meses depois, tudo o vento tenha levado, que a água da fonte não tenha sido mantida limpa ou que não se tenha prevenido a fácil diluição de um grafiti fora do lugar. É urgente que se estabeleça que a obra de arte tem um perímetro de segurança, um diâmetro dentro do qual não podem acontecer outras manifestações ou apropriações. A obra de arte não é um encosto ou um cabide, a não ser que o artista assim o tenha previsto. Merece a atenção de deus que se venera. O poder local é essencial no estabelecimento destas regras e há já alguns municípios a definir programas de intervenção artística em espaço público, a tomá-los como bandeira e prioridade. Os exemplos são muitíssimos e as vantagens inerentes mais que muitas.

Dizer que, no apuramento destas metodologias, temos de saber que nem tudo é arte urbana e que o género tem enquadramento geográfico e cronológico, temos de distinguir obra de arte pública de obra de arte em espaço público e começar a utilizar os conceitos e o campo lexical da cultura com o mesmo respeito a que nos referimos quando lemos o receituário de um medicamento. Tudo tem uma especificidade e uma importância, não sendo comparável nem passível de ser priorizado.

A curadoria da obra de arte em espaço público, enquanto subdisciplina da curadoria, é um caminho possível, uma prática habitável. As cidades são os novos museus, num tempo de reabilitações e de negação da necessidade de mais elefantes brancos. Os museus e os centros culturais comunicarão cada vez mais com a rua, num exercício de democratização do acesso à arte que seja um convite para fruição mais internas e interiores. As autarquias deverão ter grupos de trabalho plurais para pensar o espaço público e o papel que as obras de arte nele ocupam, para lá dos programas eleitorais e das promessas de infinito. E, por fim, os artistas, sublimes utópicos, sonhadores imortais, merecem a cidade como palco, o aplauso do vento, a emoção em lágrimas do mar. Merecem e não temem o confronto inicial que rejeitará as suas novas criações, certos que em tempos de desafios confinados, a rua será sempre a Liberdade.

-Sobre Helena Mendes Pereira-

É curadora e investigadora em práticas artísticas e culturais contemporâneas. Amiúde, aventura-se pela dramaturgia e colabora, como produtora, em projetos ligados à música e ao teatro, onde tem muitas das suas raízes profissionais. É licenciada em História da Arte (FLUP); frequentou a especialização em Museologia (FLUP), a pós-graduação em Gestão das Artes (UCP); é mestre em Comunicação, Arte e Cultura (ICS-UMinho) e doutoranda em Ciências da Comunicação, com uma tese sobre a Curadoria enquanto processo de comunicação da Arte Contemporânea. Atualmente, é diretora geral e curadora da zet gallery (Braga) e integra a equipa da Fundação Bienal de Arte de Cerveira como curadora, tendo sido com esta entidade que iniciou o seu percurso profissional no verão de 2007. Integra, desde o ano letivo de 2018/2019 o corpo docente da Universidade do Minho como assistente convidada. É formadora sénior e consultora nas áreas da gestão e programação cultural. Com mais de 12 anos de experiência profissional é autora de mais de 80 projetos de curadoria, tendo já trabalhado com mais de 200 artistas, nacionais e internacionais, onde se incluem nomes como Paula Rego (n.1935), Cruzeiro Seixas (n.1920), José Rodrigues (1936-2016), Jaime Isidoro (1924-2009), Pedro Tudela (n.1962), Miguel d’Alte (1954-2007), Silvestre Pestana (n.1949), Jaime Silva (n.1947), Vhils (n.1987), Joana Vasconcelos (n.1971), Helena Almeida (1934-2018), entre tantos outros. É membro fundados da Astronauta, associação cultural com sede e Guimarães e em 2019 publicou o seu primeiro livro de prosa poética, intitulado “Pequenos Delitos do Coração”.

Texto de Helena Mendes Pereira
Fotografia de Lauren Maganete
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