O espetáculo de dança Num Vale Do Aqui vai estar pela primeira vez em Lisboa, no Teatro Ibérico, de 27 a 29 de setembro. É uma criação de Daniel Matos, diretor artístico e coreógrafo, que se mostrou perentório na recusa da apropriação da obra pelo seu criador – “a obra é livre e nunca está acabada”.

Num vale do Aqui é uma produção da estrutura cultural CAMA – associação cultural fundada este ano, com a direção artística de Daniel Matos em conjunto com Joana Flor Duarte. É uma estrutura cultural que pretende possibilitar a exploração de práticas e linguagens próprias, tornando-se um lugar de experimentação artística, com espaço para todos.

Segundo Daniel Matos, Num Vale Do Aqui é um espetáculo de dança forte que procura explorar a ideia de pertença nas relações humanas – a paixão, o querer possuir o outro, a ânsia visceral de encontrar um lugar dentro do outro, o querer cristalizar o outro dentro do que se é, buscando uma eternidade impossível. Este espetáculo é marcado pelo contacto, por vezes arriscado, e pela repetição. “É muito humana a insistência. Insiste-se muito na procura de um lugar no outro. Tenho a ideia de encontrar esse lugar e ficar lá, confortável, como num casulo. Sabe-se que sensações dessas são efémeras, acabam. Então, voltamos a procurar e a insistir” – durante a entrevista a Daniel, diretor artístico do espetáculo, percebe-se que a ideia de procura é extensível a muitas dimensões, nomeadamente ao conceito “obscuro” de felicidade. “Talvez a permanência não seja a vocação do homem. Talvez nem sejamos donos do nosso próprio corpo”, Daniel instiga a reflexão.

Tendo este turbilhão de ideias como mote, é inevitável que Num Vale Do Aqui seja intenso, com uma forte interação entre intérpretes, “é um trabalho muito exigente, tanto emocionalmente como fisicamente”, conta Daniel. “Cada bailarino está lá, presente, para a ausência do outro. Isto significa que tem de haver uma escuta muito grande, sob pena de o espetáculo se tornar fisicamente perigoso. A confiança é essencial.”

No processo de criação deste espetáculo, o coreógrafo e diretor artístico procurou “escavar os corpos ao máximo de forma a encontrar sítios”. Para Daniel, trata-se sempre de uma viagem em equipa, “investigamos juntos e, muitas vezes, os intérpretes estão simplesmente a experimentar e eu, ali a ver, contemplo muito os intérpretes”, revela. “Há ensaios que se resumem a isso: os bailarinos entram noutra dimensão que só é possível porque há entrega – eles são de uma generosidade incrível”. Os interpretes que vão participar em Num Vale Do Aqui (Teatro Ibérico, Lisboa) são Adriana Xavier, Hugo Mendes, Lia Vohlgemuth, Mélanie Ferreira e Rodrigo Teixeira.

Daniel Matos, natural de Lagos, descobriu muito cedo que se queria dedicar à dança. Com 14 anos, decidiu substituir a ginástica por aulas de dança numa academia – isto sem que os pais soubessem. As aulas eram exigentes e tornavam o dia a dia de Daniel um verdadeiro rodopio. Nessa altura, chegou mesmo a desviar o dinheiro dos almoços para pagar aulas de dança – tinha de ser, a vontade era mais forte. Quando revelou aos pais que afinal não era a ginástica que lhe ocupava o tempo, teve uma resposta compreensiva. O nível de dedicação refletia a importância da dança.

O seu percurso revela uma franca abertura a outras formas de expressão artística – tem estado envolvido em projetos de teatro, artes visuais e multimédia, literatura, performance e, claro, dança. Para Daniel, importa conhecer diferentes “formas de fazer” e integrá-las de forma a poder superar-se na criação artística. Ainda enquanto vivia em Lagos, desenvolveu uma forte relação com a Associação Teatro Experimental de Lagos que lhe deu mais bagagem do meio artístico.

Licenciado pela Escola Superior de Dança de Lisboa, encontra-se a frequentar o Mestrado em Artes Cénicas da FCSH-UNL e, com apenas 23 anos, tem vários projetos em mãos. “Há uns tempos tinha a ideia de que não queria dançar mais”, revela Daniel, “mas têm surgido trabalhos para mim enquanto intérprete e tenho-os apreciado, estou a gostar por vários motivos”. Daniel Matos foi um dos intérpretes do espetáculo The Scarlet Letter, criação de Angélica Liddell, artista espanhola que apresenta regularmente a sua obra em Portugal e que se carateriza por explorar o lado obscuro da condição humana. The Scarlet Letter será apresentado novamente em 2020, no Porto.

Num Vale Do Aqui começou a germinar em 2016. A primeira versão surge com a duração de 15 minutos e teve uma receção entusiástica por parte do público – maioritariamente do meio académico, uma vez que se tratava do projeto final de Daniel Matos na Escola Superior de Dança de Lisboa. Mais tarde, surgiu a ideia de transformar o protótipo num espetáculo de uma hora, “as soluções foram surgindo porque a obra assim o pedia”.

A estreia deu-se em 2018, em Lagos, no âmbito das comemorações do Dia Mundial da Dança. Porém, o evento foi marcado por um acidente: uma das intérpretes, Mélanie Ferreira, lesionou-se gravemente num joelho. O coreógrafo revela que ninguém deu por nada durante esse espetáculo porque a bailarina continuou a dançar. Só no final, arrefecidos ânimo e corpo, é que a equipa se deu conta do sucedido – Mélanie foi levada pelos serviços de urgência, tinha fraturado a articulação.

Depois dessa estreia conturbada, Daniel queria apresentar Num Vale Do Aqui novamente, mas com o requisito incontornável de Mélanie participar. A recuperação da bailarina levou o seu tempo, com duas cirurgias implicadas, mas a espera fazia todo o sentido. O espetáculo voltou a Lagos em Junho de 2019.

Daniel já está a trabalhar no próximo projeto, VÄRA, que começou a brotar da partilha que surgiu durante os ensaios de Num Vale Do Aqui. Desta vez, o coreógrafo pretende explorar o choro como meio primordial de sedução do outro. O nome do espetáculo baseia-se na passagem da obra de Homero, Odisseia, em que a feiticeira Circe transforma homens em porcos. Daniel diz ainda que lhe interessa muito explorar o feminino mas que, para tudo isto, precisa de obter apoios: “Não é justo não poder pagar de forma justa aos intérpretes. Esta realidade é extensível a todas as artes. Trabalha-se intensamente, e os artistas devem ser pagos de forma digna, tal como em qualquer outra profissão.”

Daniel tem a cabeça “a mil”, diz que sonha com imagens. Dorme com um caderno ao lado, de forma a registar os esboços daquilo que lhe surgiu em sonhos. Tudo é incorporado no processo criativo, “inspiram-me os intérpretes com quem trabalho, as pessoas, os lugares, as pequenas coisas. Importa-me aquilo que é comum entre seres humanos, as questões que estão lá no fundo”, revela. “Interessa-me pesquisar sem preconceitos e sem hierarquias, estabelecer relações com diferentes artistas e formar uma rede de crescimento comum, com entreajuda, que é fundamental.”

O diretor artístico e coreógrafo de Num Vale Do Aqui vê-se como um artista emergente que se quer manter assim mesmo: “Quero ser emergente para sempre, na medida em que não concebo que o meu percurso estagne em determinado registo. Tudo tem de ser possível em cada momento, há que manter a abertura. Não me agrada a perspetiva de ser definido com um determinado estilo.”

Em termos visuais, o espetáculo de dança Num Vale do Aqui pode ser considerado minimalista, muito centrado na força dos corpos, com forte componente emocional. A repetição é marcante. “A luz cor-de-rosa é vertida sobre os corpos seminus”, conta-nos o diretor artístico. “A composição musical é de Nelson Nunes que, partindo de uma estrutura minimalista repetitiva, reforça esse conceito de repetição. Tudo se relaciona com a aquela procura incessante que está na essência do ser humano”. Um dos objetivos do espetáculo é conseguir-se a imersão do espetador, “um estar presente que é abandonar-se na obra”, conclui Daniel Matos.

 

Texto de Maria Costa
Fotografia de Fátima Vargas

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