Desde setembro, o festival Cogito tem apresentado, em Oeiras, uma série de eventos, masterclasses, ferramentas e desafios para toda a família sobre o mote “ideias que transformam”. O humanismo tecnológico é o principal tema em debate: será que a tecnologia nos está a transformar em melhores ou piores pessoas?

“Penso, logo existo.” É isto que o festival Cogito quer fazer: pôr-nos a pensar sobre a nossa relação com a tecnologia e desenvolver as nossas ideias. Todas as quartas-feiras e quintas-feiras, pelas 21h30, o Facebook do festival e o Palácio Flor de Murta são palco de uma troca de ideias. Entre Conversas Criativas, Laboratórios Cidadãos ou Masterclasses, os temas desafiam-nos a pensar em questões como “A arte com ou sem máquina” (com Gonçalo M. Tavares, no dia 21 de outubro), “Estamos a caminho de uma sociedade pós-humana?” (com Carlos Fiolhais, no dia 28 de outubro), “Poderá a tecnologia acabar com todas as doenças?” (com Paula Alves, no dia 18 de novembro), ou “O que é um ato criativo” (com Catarina Pombo Nabais, no dia 25 de novembro).

A criatividade é o eixo central desta edição, por isso, todas as sextas-feiras, também no Facebook do festival, a criatividade é ensinada e partilhada. Este ano as empresas têm destaque no festival com o início de uma rubrica especial para as empresas do concelho, o Laboratório da Criatividade, (às terças-feiras), na qual é dada formação em criatividade e consultoria em inovação, para responder à questão, “como resolver os problemas de forma diferente?”, e o Pitch Elevator, um novo projeto, no qual há, como o próprio nome indica, a apresentação rápida de uma ideia, num elevador – “O espaço é apertado, mas as ideias são grandes. Entrevistas a inovadores dentro de elevadores.”

Em entrevista ao Gerador, o curador do festival, Rui Pereira, contou-nos quais as novidades deste ano, como a programação está construída para funcionar como um todo e como a criatividade pode e deve ser entendida, tendo em vista a melhoria da nossa sociedade: “A pensar é que resolvemos os problemas, mas com um pensamento transformador, não um pensamento académico redutor.”

Gerador (G.) – O que é isto do “humanismo tecnológico”?

Rui Pereira (R. P.) – O humanismo tecnológico é um conceito transversal aos oitenta eventos que o Cogito vai fazer este ano e que pretende refletir sobre uma questão muito simples: “Será que a tecnologia nos está a tornar melhores pessoas ou, pelo contrário, está a transformar-nos em piores pessoas?” É uma questão que está a ser respondida, sobre a qual eu deduzo que não há uma resposta clara e convincente, mas tem como grande propósito por as pessoas a pensar. Isto porque a tecnologia é como as outras ferramentas, apenas uma ferramenta. O que importa é o uso que lhe damos, e, portanto, a Internet é, provavelmente, uma das melhores invenções da humanidade, se a usarmos num bom sentido, claro.

G. – O Cogito já está a acontecer desde o início de setembro, como foi pensada esta programação que tem como mote, “Ideias que transformam”?

R. P. – O Cogito começou no dia 1 de setembro e vai até ao final de novembro, portanto, serão três meses de programação. Temos as masterclasses, que vão até ao final da programação, temos sempre uma conversa às quartas-feiras, pelas 21h30 (online) e também às quintas (online e presencial), onde estamos a criar círculos virtuosos de conhecimento, isto é, aprendemos uns com os outros e também com as entidades, para promover a capacidade de aprender da sociedade moderna em que, no ponto de chegada, estamos melhor do que no ponto de partida. Temos também uma dimensão de formação presencial para instituições do concelho de Oeiras, às terças-feiras, sobre criatividade e inovação. E online para quem quiser, na Academia Cogito. O festival tem também um conjunto de outros eventos já pontuais, que acontecem todas as semanas, os eventos fora da caixa. Por exemplo, a maratona criativa, na zona histórica de Oeiras, é um desafio para toda a família, uma aula de criatividade muito divertida, onde vão aprender o que é a criatividade enquanto completam alguns desafios. Convém explicar que o nosso programa, e a criatividade, não é só para artistas e publicitários, todos nós somos criativos, e sobretudo a sociedade do século XXI obriga-nos a ser criativos. Portugal está numa fase em que o desafio da nossa economia, já não é trabalhar mais, mas sim melhor, e isso quer dizer: pensar melhor, com mais identidade, de uma forma que mais ninguém tem, para termos uma capacidade competitiva (a todos os níveis) que nos coloque dentro de uma Europa, e não à sua beira. Por isso, a criatividade é o grande ponto do Cogito – Ideias que Transformam, e vamos à procura de pessoas que têm ideias, mas que também as desenvolvem. Temos ainda o Pitch Elevator, pois queremos dar destaque à inovação empresarial, à capacidade de pensar diferente e resolver problemas de forma diferente. Este tema tem que ver com Oeiras ter o nível de formação mais elevado do país e por isso, é importante que esse conhecimento seja produtivo e esteja ao serviço da sociedade.

G. – O festival surgiu em 2017, esta é a 5.ª temporada, os temas que têm trazido são mais urgentes do que nunca?

R. P. – Sem dúvida! Tem sido importante para criar uma sociedade mais consciente e para fazer uma coisa importante, que é um pensamento transversal, não só um setorial que acha que biologia é biologia e nada mais interessa. Interessa tudo e as áreas precisam umas das outras. E o próprio processo criativo, para acontecer, é importante que junte pessoas com formação diferente para pensar o problema porque há mais probabilidade de haver uma nova abordagem das coisas, uma vez que o método científico é igual ao processo criativo. Ou seja, temos de entender qual é o problema, que ideias o resolvem e daí perceber quais funcionam – Problema, hipótese e solução. Trabalhar a criatividade é devolver aos cidadãos a sua capacidade de ter pensamento científico.

G. – Como é que a criatividade pode ser ensinada?

R. P. – É uma teoria muito simples. A criatividade pode ensinar-se porque é uma técnica de pensar, como andar de bicicleta, tocar piano ou aprender inglês e, se é uma técnica pode ser ensinada e desenvolvida. O que acontece é que não há uma prática de ensino da criatividade, então os criativos são pessoas que desenvolveram as suas técnicas de forma intuitiva. O que fazemos nas nossas aulas é pensar na forma como pensamos.  Por exemplo, olhamos para um desporto, e o que fazemos é procurar coisas que sejam diferentes do normal (esta é a primeira fase), depois vamos ter muitas ideias porque quando tenho muita quantidade de opções há uma maior probabilidade de ter mais respostas. A outra forma mais visível de perceber é ver diferente, pensar diferente para fazer diferente, ou seja, ver é ver a realidade, compreender o que queremos resolver.

G. – Foi por isso que estenderam a programação e o tema para as artes?

R. P. – As artes são das áreas onde as pessoas menos percebem como pensam de forma criativa, ou seja, têm uma intuição muito apurada, mas não conseguem raciocinar. E esta é a parte interessante do Cogito. Aquilo que é muito claro ao longo das nossas conversas é que o cérebro humano não é um computador, mas funciona como um computador biológico, e que nós humanos somos cada vez mais – e é cada vez mais claro para nós – sistemas de informação, para sobreviver e viver melhor. Portanto, nós começámos por perceber que as coisas não aparecem do acaso, tudo o que acontece tem uma certa razão. Começámos a olhar para um conjunto de conceitos muito vagos (a alma, o gosto) e estamos numa fase em que os começámos a compreender, e a criatividade está nesse patamar. Estamos numa fase em que ainda não os perceberam completamente, mas todos podem ser criativos, com as técnicas podemos ser criativos quando é preciso e não só quando acontece, e isso é o mais importante. A criatividade em si engloba vinte e uma competências que são as competências que diria que, são a escola do futuro. Para mim, é claro que a escola do futuro deve ser de pessoas e não de profissionais, e a criatividade em si engloba toda esta capacidade, de observação, curiosidade, análise numérica, raciocínio lógico, entre outras valências. Mas, na criatividade, é precisa muita resiliência também!

G. – No Dia Oeiras 27, falou-se sobre as cidades. O que é que os cidadãos podem fazer, no seu dia a dia, para contribuir para a evolução da sociedade?

R. P. – Podem perceber como a cidade de Oeiras vai evoluir, e como a cultura e o conhecimento ajudam Oeiras a evoluir. Na política, a forma de desenvolvimento tem sido através do hardware – fazer estradas, construir hospitais, comprar computadores –, e está na altura de, para sermos verdadeiramente europeus, apostarmos a sério no software of the mind, ou seja, a forma como se organizam, e um país pode ser entendido como um desafio à nossa capacidade de organização. Neste caso vemos um concelho que está a apostar fortemente na capacidade de motivação, acesso ao conhecimento, criatividade e a fazer com que a cidade se comece a construir de baixo para cima, e isto é extremamente importante e seria muito importante para o país que estes modelos começassem a vingar porque este é o futuro. A atual classe dirigente ainda não está preparada para este novo futuro, mas temos de começar a fazer esse trabalho e espero que as próximas gerações possam estar normalizadas com este processo. A pensar é que resolvemos os problemas, mas com um pensamento transformador, não um pensamento académico redutor.

G. – No final do mês, o Fórum Oeiras 27 é uma oportunidade para as pessoas apresentarem as suas ideias. Que conselhos dá a quem quer apresentar a sua?

R. P. – Temos um modelo muito giro que se divide em cinco fases e que fazem o festival:  ler ideias do mundo, ouvir ideias, aprender a ter ideias, desenvolvê-las e apresentá-las, ter a capacidade de “parir” as ideias para o mundo. Nesta última fase, as pessoas vão ter entre cinco a dez minutos para apresentar uma ideia que transforma. Queremos entender qual o problema, qual a ideia que transforma, e aí, sim, temos então uma sociedade de cidadãos. É muito importante perdermos este medo institucional, as pessoas têm de ter a noção de que, se quiserem, sem formação, conseguem também ser ouvidas. Claro que quem tem formação está mais bem preparado, mas não impede nada, o Bill Gates não tem licenciatura, o Thomas Edison saiu da escola com sete ou oito anos porque estava sempre inquieto, as pessoas devem estudar a vida toda, isso é que é importante, estudar nas escolas, mas também através da leitura, de conversas com pessoas que sabem sobre esse assunto. Há a teoria de que se queres aprender verdadeiramente, encontra-te com alguém, todas as semanas, que saiba sobre determinado assunto, e o Cogito é um espaço deste género, onde há conhecimento, e onde os cidadãos podem participar em todas as nossas conversas.

Texto de Patrícia Nogueira
Fotografia disponível via Freepik

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