Se há certeza absoluta no nosso panorama musical é que a música portuguesa levou um banho de amor próprio como não se via há muito. E nós gostamos. Gostamos tanto que pedimos à Patrícia que fosse falar com algumas das pessoas que estão a marcar a música portuguesa, hoje. Do fado, à electrónica: ela conta-nos o que os faz criar e para onde vão.

O fado é nosso, é português. Dizemos com orgulho e um respeito conservador. Aquele fado cantado em calças com dois vincos, de mãos nos bolsos, cabeça inclinada para trás e um bigode farto a acompanhar uns olhos cerrados, continua a ser bem português. No entanto, o fado agora é outro. É cantado por um homem que trocou as calças por um vestido curto, uma barba com três dias e cabelo colorido. Com a mesma alma e vontade no peito, com o mesmo querer, com a mesma força.

Agora despido de preconceitos e de rótulos. Estes são os Fado Bicha. Quando questionados, diz-nos o João Caçador que “o objectivo é de criar rotura, dar que pensar”. Lila Fadista acrescenta que “mais importante do que criar controvérsia, é criar visibilidade por uma causa”. Afinal ninguém é inocente e sabe que é inevitável não olhar duas vezes e comentar por cima do ombro, quando algo é diferente. E é por esse motivo que continuam a cantar e a tocar, o João desdobra-se em mil músicos diferentes para criar mais corpo a cada música, a cada fado. A Lila encontra-se entre o fado e o sentimento de cada letra.

Conheceram-se de forma informal, até porque “nestas coisas nada é empresarial, as coisas acontecem espontaneamente”, diz-nos João. Fizeram um ensaio juntos e aqui estão até hoje e para durar. O Fado Bichacomeçou com a vontade de Lila cantar fado. Não estudou música, mas adorava ouvir e cantar. Sentia que não havia espaço para si, precisava de ser ele próprio a cantar. “As pessoas ficam inquietas porque têm sempre de saber se é homem ou mulher e quando olham e não sabem o que é, torna-se uma fonte de repulsa”.

Foi tirar rótulos e escrever sobre liberdade, foi criar mais aceitação e cantar para toda a sociedade. Têm vontade de chegar ao maior número de pessoas e aproximá-las. É o grande objectivo do Fado Bicha. Aproximar as pessoas pelo fado, pelo que cantam e por tudo o que mostram ser possível, é quebrar barreiras. Para Lila Fadista o Fado Bicha foi inicialmente para experimentação pessoal, conhecer-se a si próprio. Darem-se a conhecer é também dar a oportunidade de outros se conhecerem a si próprios.

Já Bleid (Mariana Freitas) nunca olhou às barreiras musicais. Desde sempre ouviu música que “não tinha uma nada a ver com a outra”. Sempre foi curiosa sobre todas as músicas e géneros musicais fora do espectro comum, isso levou-a a querer criar música que nunca tivesse ouvido. A música experimental continuará a estar sempre em primeiro, segundo e terceiro lugar. Questionada sobre o momento certo para arriscar numa carreira dedicada só à música, Bleid diz que o pensamento foi mais “gostava de encaminhar a minha vida de modo a ter mais tempo para a música” e assim foi acontecendo, com a naturalidade de quem pretende daqui a dez anos continuar a misturar estilos e apresentar novas abordagens através da música que cria. Sem complicações e floreados responde-nos que o melhor elogio que já ouviu sobre a sua música foi: “Não criarem ruído adicional por cima da minha música. Acho que isso é o elogio máximo à criação de qualquer pessoa, ouvirem”.

Bleid

Ser ouvido pelo maior número de pessoas seja pela sua música, seja pela música que partilha com outros autores, é também a ambição de Luís Fernandes, desde que isso não comprometa ou adultere o projecto de criação. Fazer parcerias com outros autores para Luís Fernandes não é nenhuma novidade. “Nem sempre é um desafio, mas é, normalmente, algo que gosto muito de fazer”.

O músico afirma que o facto de não depender exclusivamente da sua actividade como músico lhe permite fazer música quando e onde lhe apetece: “Paradoxalmente essa postura trouxe-me cada vez mais oportunidades como músico”. Pode ser irónico, mas fazer o que gostamos e descobrirmos qual o nosso lugar ou estar no lugar onde queremos estar parece ser a estratégia dos novos autores que se têm vindo a apropriar de um lugar para si na indústria da música em Portugal. Para Luís Fernandes que comparativamente há uns anos “é a quase uma fixação em encontrar uma linguagem e uma metodologia de composição própria e cada vez mais depurada”. Mas sempre à procura de novos desafios, mas não muito longe dos estilos musicais que actualmente aborda.

Luís Fernandes

Entre novos autores tínhamos de falar com Conan Osiris, também ele se tem destacado na música nacional, de uma forma descomplicada. Era impossível virar os ouvidos à música e a cara às actuações de Conan. Quando falamos com ele, rapidamente percebemos que tudo o que vemos e ouvimos é mesmo genuíno: “Eu tento ir arquitectando o caminho sem almejar objectivos específicos. As coisas vão-se gerando organicamente, é a única forma de manter a paixão acesa”. Ao final do terceiro disco, já muitas pessoas o reconhecem pela música que cria. Sobre parcerias para o futuro, Conanacredita que o mais importante não é com quem, mas sim que o foco está na música em si: “O instrumental é muito importante para mim, é como uma cama”. Conanconta-nos mesmo que nunca olhou para a música como uma profissão: “Nunca pensei nesse momento como falésia até porque sempre trabalhei para isso. Mesmo em puto quando gravava músicas inventadas no gravador de k7, já era construção. Arrisquemos primeiro em ter a liberdade de ser com toda a plenitude, as partes profissionais vêm depois”.

Conan Osiris

São estes os novos autores e músicos que de que vos quero falar, é esta gente que a gente tem ouvido. Melhor do que ouvir é sentir, durante todo o tempo em que vos escrevo ouvi-os a todos e em repeat. Isto é gente diferente sem ser diferente, é uma nova geração que nos deixa a porta aberta para os ouvirmos. Defendem o poder de se descobrirem na música que fazem e de nos descobrirmos enquanto os ouvimos. É gente que queria fazer música e hoje faz. Isto é música que a gente queria ouvir e agora ouve. Tudo isto é música, ó gente!

Texto de Patrícia C. Vicente, escritora de sábados
Fotos de Carla Rosado, João Viegas, Ricardo Brito e João Reis Moreira
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