O meu desejo poético é que as pessoas pudessem, de facto, repensar as suas vidas depois desta guerra.

Seria bonito ver o mundo a ser mais macio, as pessoas a serem como almofadas umas das outras, absorver as pancadas que cada um de nós dá, e não tem muitas vezes onde cair.  Da mesma forma efusiva que bateram palmas à janelas em prol de um grupo que foi o mais falado nesta pandemia -
foi uma almofada bonita.

Mas, do pouco que tenho percebido, parece-me que as pessoas estão com pressa em voltar à "normalidade".

Na Madeira, decretaram o fim do isolamento social, e lá estavam as filas intermináveis de carros para ir aos centros comerciais. É óbvio que já ninguém aguenta isto, por muito paciente que seja!

Curiosamente, o meu isolamento social não diferiu muito da minha vida normal, de todos os dias, enquanto músico o meu trabalho é compôr, escrever, meter sentimentos em palavras. E com este isolamento aproveitei-o para criar.

E com tanto tempo em mãos e Internet q.b, digeri, como se fossem bolachas, aulas de masterclass em composição e coisas relacionadas com música, algo que, numa outra altura não iria fazer, por falta de ... tempo. 

Aperfeiçoei e percebi coisas que não fazia a mínima ideia que estavam ligadas ao meu trabalho e, com isso, escrevi e compus e fiz todas as outras partes ligadas à mesma que numa situação normal eu teria que enviar o tema para quem verdadeiramente sabe das coisas.

E assim a música está aí, no mundo exterior, fora da minha cabeça e fora do meu coração, dividi e partilhei com o mundo, e chama-se #fightwithlove. Por outras "palavras": Fight with Love. Foi assim que lutei contra este isolamento social ...

E, no fundo, foi isso que me pareceu, que o medo se transformou em algo positivo, como em palmas. E em Portugal, pelo menos, as pessoas tiveram consciência de que poderia ser tudo muito grave se não se fizesse exactamente o que lhes era pedido.

Lutar com amor, não é mais do que isso mesmo, de forma pacífica e ordeira perceber o que é melhor para todos, lá está, a tal almofada que eu gostaria muito que continuasse a existir. Acredito que no regresso à normalidade os médicos não vão precisar que paremos em frente ao hospital Amadora-Sintra com palmas de agradecimento. Mas seria interessante que os jornais não noticiassem que um cidadão agrediu um médico, por estar stressado por falta de atendimento. Viver sob pressão é algo que os médicos do Amadora-Sintra sabem, claramente, o que isso é.

Fight with Love é perceber que os jornais e jornalistas portugueses tentaram em toda a situação pandémica passar a verdade, o melhor possível.  E que os professores do #EstudoEmCasa, sem nenhum conhecimento prévio, foram colocados em frente a uma câmara para falarem para os milhares de jovens e crianças que estão em casa.

Só quem nunca esteve em frente a uma câmara de filmar não tem noção do quão difícil é falar para "ninguém", ainda por cima sem rede.

Num destes dias de conversa informal com um dos meus amigos falávamos do regresso, que ele apelidou de - O Grande Regresso. Este meu amigo, que trabalha na área da comunicação, anda sempre impecavelmente vestido de fatos bonitos, e agora vê-lo de pijama listrado é estranho! Perguntei-lhe o que fazia nesse dia em que falávamos. Dizia-me que estava a limpar os fatos e a colocá-los ao sol para o grande regresso.

Na verdade, é assim que nos sentimos todos: à espera do grande regresso. No meu caso, que passava a vida em Lisboa, já há dois meses que não entro na A8, nem sei o que vou sentir quando puder fazê-lo.

Este estado de calamidade, que me assusta mais do que o estado de emergência em que o novo normal vai ser feito de máscaras na cara, coisa que eu achava estranho quando via os asiáticos de máscara naquelas grupos de turistas em Lisboa.

Aquela caracoleta com imperial, que são tão prazerosos num final de tarde numa esplanada, temo que as restrições, para já, não vão deixar o corpo entrar em modo zen com os dedos húmidos de molho de cebolada e um palito tão português.

Mas o grande regresso vai acontecer! Isso é importante, voltar a sentir-me útil numa outra esfera que não as quatro paredes de uma casa! E curiosamente eu que nem sou de praia foi aquilo que mais me apeteceu fazer, tomar banho de mar e limpar estas energias de 2020 e pedir o reembolso às curandeiras que me disseram que o ano de 2020 seria um ano incrível.

As minhas almofadas humanas também esperam por um abraço meu. Essa coisa de encostar cotovelos não funciona na nossa "latinidade".

O Fight with Love continua, pois as pessoas são as mais importantes. Serão para mim, sempre!

Para o vídeo da canção, cada pessoa cedeu cinco segundos da sua vida, enviando-os para mim de modo que o editasse também em casa. E por isso, diariamente, há um pequeno texto nas minhas redes sociais sobre cada uma das pessoas em forma de agradecimento pelo seu tempo dedicado a este trabalho. Fight with Love é um tema de todos: dos que fazem parte e dos que não fazem parte.

Se pensarmos na regra dos cinco, então cada uma das pessoas do vídeo conhece um amigo que conhece um amigo, e assim todo o mundo está ali em quatro minutos em câmara lenta.

Fight with Love é isto: sempre que possível agradecer, sempre que possível engrandecer.  Não com a intenção de receber em troca, mas, no dia em que cairmos, haverá sempre uma almofada que nos ampara de coração aberto.

-Sobre NBC-

NBC é um dos grandes nomes da música actual portuguesa,  e um dos fundadores do movimento hip-hop em Portugal, apreciado pelas suas peculiares performances ao vivo com crossover entre o soulrnbdrum and bassrock e eletrónica e ainda com versatilidade para transformar e criar versões acústicas. O seu último disco, TODA A GENTE PODE SER TUDO, foi editado em finais de 2016. Nascido em 1974 em São Tomé e Princípe, com a influência das suas raízes africanas, Timóteo Tiny é uma das vozes soul mais acarinhadas de Portugal e autor de temas como «Segunda Pele», «NBCioso», «Homem», «Neve», «DOIS» ou «Espelho».  Com a sua discografia já pintou diversas bandas sonoras de filmes e de telenovelas portuguesas, e já pisou muitos palcos em festivais como  NOS Alive, Super Bock Super Rock, Meo Sudoeste, Festival F ou também salas icónicas como Coliseu de Lisboa, Casa da Musica ou Hard Club. Pelo caminho, conta com a edição de um EP, EPidemia (2013) e mais outros dois discos Afrodisiaco (2003) e Maturidade (2008). Já fez digressão com a banda GNR e, em 2015 e 2018, viajou até ao Brasil para uma digressão de cerca 40 dias em estados diferentes estados, tendo passado por lugares como Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis ou Belo Horizonte. Em 2019, participou no Festival da Canção, com a canção “Igual a Ti”, tendo conquistado o segundo lugar do concurso. E assim se escreve mais de 25 anos de carreira.

Texto de NBC
Fotografia de Teresa Lopes da Silva
gerador-gargantas-soltas-nbc