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O hip-hop da intifada feminista

Nas Gargantas Soltas de hoje, Shahd Wadi dá-nos a conhecer o hip-hop feminista árabe.

Fotografia de Iman Simon

Apesar de, na sua origem, a cultura hip-hop, estar ligada à critica do racismo e da opressão em geral, até aos anos oitenta este género foi exclusivamente um espaço masculino e, até hoje, muitas das suas obras continuam a utilizar noções misóginas na sua construção e produção.

Foi por isso que, nos anos noventa, especialmente nos Estados Unidos, algumas mulheres inauguraram uma nova forma de viver a cultura hip-hop, utilizando-o como arma, também contra o sexismo. Autoras como Joan Morgan, Shani Jamila e Gwendolyn Pouch começaram a utilizar o termo “Feminismo Hip-hop” para designar o trabalho de várias bandas, resistindo assim ao argumento que considerava que a misoginia estava tão enraizada no hip-hop que não seria possível recuperá-lo para o feminismo. Estas autoras explicam que o Feminismo Hip-hop não está apenas ligado a artistas hip-hop – que engloba o RAP, o breakdance, o graffiti e DJing –, mas também ao próprio lugar criado pelas feministas da cultura hip-hopista. Estas criadoras foram sobretudo mulheres jovens negras que precisavam de afirmar a sua identidade longe de um feminismo branco com o qual não se identificavam, um feminismo académico muitas vezes higienizado, ou até um feminismo negro que não estava disposto a considerar esta cultura como sendo feminista. O Feminismo Hip-hop utiliza as experiências de vida para fazer uma ponte entre estes dois mundos supostamente incompatíveis, desafiando os pressupostos sobre a natureza do que os divide.

É provável que o hip-hop feminista árabe tenha começado na Palestina com Arapyat e Sabreena da Witch, nos territórios ocupados em 1948 (hoje considerados dentro das fronteiras de Israel), e com Shadia Mansour, palestiniana residente em Inglaterra. Estas mulheres sentiam que as bandas masculinas não estavam a contar as suas histórias enquanto mulheres palestinianas que sofrem duplamente com a ocupação e com uma sociedade patriarcal. Por isso, Arapyat deram nome ao seu grupo através da fusão da palavra “RAP” com a palavra “arabyat”, que significa “raparigas árabes”, um jogo de palavras que afirma a possibilidade de haver “raparigas árabes que cantam RAP”, enquanto Sabreena da Witch cantou sobre a Intifada de uma bruxa palestiniana paciente e resistente. Apesar de Shadia Mansour continuar a cantar e a colaborar com músicos internacionais, como aconteceu por exemplo com a cantora franco-chilena Ana Tijoux na música “Somos Sur”, Arapyat e Sabreena da Witch desapareceram nos últimos anos do mundo do hip-hop palestiniano. No seu lugar apareceram novos grupos, como Ettijah, um coletivo do campo de refugiados Dheisheh, na Cisjordânia, que canta sobre as lutas diárias de adolescentes palestinianas.

É curioso que o RAP árabe de mulheres tenha aparecido inicialmente na Palestina, um país ocupado, fazendo do hip-hop, também ali, uma arma de resistência. O hip-hop, em geral, ganhou fama na Palestina no início da Segunda Intifada (Al-Aqsa), em 2000, e no seguimento da morte de treze palestinianos dentro dos territórios ocupados em 1948 e também como resultado do tratamento como cidadãos de segunda dos palestinianos dentro de Israel. A primeira banda de hip-hop palestiniano, DAM – inicialmente só de homens -, começou a cantar em árabe para narrar as histórias destes protestos, recorrendo à cultura hip-hop afro-americana, tendo em conta que é uma música que dá voz a grupos oprimidos. Ao mesmo tempo, o hip-hop palestiniano recorria, e ainda recorre, aos ícones palestinianos nos grafiti e utilizava a língua árabe, citações de poetas árabes, extratos de canções árabes antigas, bem como extratos de discursos políticos árabes revolucionários, fundidos nas próprias músicas, criando assim um género afro-palestiniano.

Desde o início que DAM evoca a igualdade de género, colaborando com as cantoras mencionadas para abordar assuntos como os “crimes de honra” (feminicídio), os direitos das mulheres e a liberdade dos corpos, sempre no contexto da ocupação israelita da Palestina. Nos últimos anos, não só se juntou a cantora Mays ao grupo, como também adoptou o seu hip-hoptivismo feminista como uma das suas marcas, recorrendo nas suas referências a pensadoras feministas árabes como Nawal El Saadawi, sem esquecer de criticar alguns homens palestinianos que se identificam como feministas apenas nas palavras. Nas suas letras e apresentações DAM têm falado sobre igualdade de género, sexualidade e os direitos LGBTQ+. A sua música Jasadik-Hom (O teu corpo-deles) é um poema que canta e conta as medidas sexistas impostas sobre os corpos de mulheres palestinianas pela ocupação israelita e pela sociedade palestiniana.

O hip-hop Feminista Palestiniano, ou o Feminismo Hip-hop Palestiniano, negoceia a possibilidade de repensar e subverter o próprio feminismo, o hip-hop e a forma de lutar contra a ocupação da Palestina. Este hip-hoptivismo palestiniano feminista é sobretudo um espaço para batalhar pela liberdade, toda a liberdade com um simples “mic check”.

- Sobre Shahd Wadi -

Shahd Wadi é Palestiniana, entre outras possibilidades, mas a liberdade é sobretudo palestiniana. Tenta exercer a sua liberdade também no que faz, viajando entre investigação, tradução, escrita, curadoria e consultorias artísticas. Procurou as suas resistências ao escrever a sua dissertação de Doutoramento em Estudos Feministas pela Universidade de Coimbra que serviu de base ao livro “Corpos na trouxa: histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio” (2017). Foi então seleccionada para a plataforma Best Young Researchers. Obteve o grau de mestre na mesma área pela mesma universidade com uma tese intitulada “Feminismos de corpos ocupados: as mulheres palestinianas entre duas resistências” (2010).  Para os respectivos graus académicos, ambas as teses foram as primeiras no país na área dos Estudos Feministas. Na sua investigação aborda as narrativas artísticas no contexto da ocupação israelita da Palestina e considera as artes um testemunho de vidas. Também da sua. 

Texto de Shahd Wadi
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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