Quando se imagina a esfera do trabalho jornalístico é provável que surjam imagens como a de um jornalista na rua de gravador em punho a fazer uma entrevista, ou numa sala completamente isolado a escrever freneticamente e a devorar livros ou até mesmo um ambiente de competitividade entre redações de diferentes meios, este último principalmente alimentado pelos filmes que vemos chegar às salas de cinema. Não digo que estes três cenários não sejam reais, digo antes que ficam aquém da potencialidade da atividade jornalística. E, se pensarmos na, tantas vezes nomeada, “crise do jornalismo”, em Portugal e no mundo, ainda mais limitado se torna esse olhar sobre o nosso ofício.

Quando conheci o Gerador, ainda em 2017, não existia uma redação. Ao longo destes anos em que me mantive a trabalhar nesta casa, vi surgir uma equipa editorial, ainda que de reduzida dimensão. Isso levou-me a conhecer uma nova realidade que ia para além do sonho de trabalhar numa grande redação como a do Público, Expresso ou, pensando num cenário internacional, The Guardian e The New York Times. Não digo que esse sonho já não exista, ou que o tenha passado a ver com menos relevância. Simplesmente, dei conta de que existem mais alternativas de valor e que o desconhecimento das mesmas contribui para a afamada crise do sector, na minha opinião.

Nesta jornada, tinha em mãos uma dissertação de mestrado cujo tema se foi deixando contagiar por estas minhas experiências. Sabia que queria falar sobre o género jornalístico da reportagem de investigação, que é o que mais admiro e gosto de fazer. Não o abandonei, mas completei a minha pesquisa ao incluir o chamado jornalismo alternativo. Foi assim que decidi que a minha metodologia passaria também por entrevistar jornalistas quer de meios mainstream, quer de jornalismo alternativo em Portugal. Falei com jornalistas do Observador, Expresso, Sábado, Público e, do outro lado, o Fumaça, a Divergente e o já extinto O Corvo.

Embora os dois tipos de redações apresentem um trabalho com características diferentes, desde logo pela diferença notória na dimensão das redações, percebi que havia muitos pontos de ligação possíveis que se podem resumir à possibilidade de partilha de conhecimento e experiência. Atestei também, com alguma surpresa, que havia muito desconhecimento entre meios sobre o trabalho que cada um fazia, formas de financiamento, ou dúvidas estruturais e técnicas, mas que não havia um diálogo entre meios mainstream e alternativos (pelo menos, não duma forma profunda e contínua). A certo ponto, relembrei-me também de que nas escolas e universidades o jornalismo alternativo não costuma ser integrado nos programas de ensino, salvo raras exceções, e que a própria academia desconhece o termo de jornalismo alternativo (foram pouquíssimos os estudos que encontrei feitos sobre o assunto, que é tudo menos recente).

Como é possível estarmos todos preocupados com a “crise do jornalismo” e ainda assim não pararmos para falar uns com os outros e incluirmos toda a diversidade de experiências de qualidade que existem no jornalismo português? Não tenho dúvidas de que são publicados muitos conteúdos de fraca qualidade, aqueles que vão em busca do clique, mas também descobri que, por debaixo dessa camada superficial, existem jornalistas portugueses a fazer um trabalho extraordinário em todos os meios, e projetos que se têm empenhado em descobrir novas fórmulas e, diria eu, com algum sucesso. Então, o jornalismo não é um trabalho de isolamento, quer individual, quer entre meios. Claro que, após um período de trabalho em campo e de investigação árdua, tem de existir um espaço de recolha para a escrita que, muitas vezes, é solitário. Mas essa tem de ser uma dimensão do nosso trabalho e não um contágio para toda a prática, levando à cegueira e estagnação. Percebi que o paradigma do jornalismo em Portugal não é o de falta de jornalismo de qualidade e de jornalistas competentes, mas sim de dois fatores: falta de visibilidade e impacto na esfera pública de trabalhos de investigação longos, minuciosos e adaptados ao ambiente digital e a emergência de um contexto de necessidade de cedência a uma lógica comercial em meios com maior projeção e impacto social, inibindo uma maior produção de trabalhos que exijam uma investigação aprofundada e investimento de recursos – um dos pilares fundamentais do exercício jornalístico no que concerne o seu papel de manutenção de sistemas democráticos.

Quando entrevistei os jornalistas Diogo Cardoso e Sofia da Palma Rodrigues, da Divergente, estes receberam-me na sua redação e qual foi a minha surpresa quando percebi que o seu espaço de trabalho era o mesmo que o de Fumaça, o que promovia uma entreajuda e partilha de ideias constante entre as equipas. Afinal, quantas mais cabeças a pensar, melhor será o resultado final. Para além disso, calhou visitá-los no dia em que ambos tinham vencido prémios Gazeta por trabalhos que tinham publicado no último ano e, ao me receberem, não só todos partilharam informação comigo de forma livre e despretensiosa, como me convidaram, jornalista de um terceiro meio, a juntar-me à sua celebração pelo reconhecimento do seu trabalho. Saí dessa entrevista com um sorriso gigante. Não deveríamos estar todos a fazer isto e de forma regular nas nossas rotinas profissionais?

Foi, por isso, com muita alegria que quando o Gerador e o Shifter se uniram para um ciclo de conversas em torno da temática do jornalismo, as Conversas Impróprias, fiquei muito entusiasmada. Desde então, posso partilhar que, para além de duas conversas disponíveis das quais saímos sempre mais ricos em conhecimento, rapidamente se instalou uma dinâmica de entreajuda, quer na preparação de conversas, quer na partilha de ideias, artigos, ou mesmo modelos que facilitem o acesso à informação online, na ótica do leitor. Todos vamos evoluindo com o conhecimento que cada um traz. Não admira que uma das conclusões da minha investigação tenha sido que a colaboração, quer com meios nacionais, quer internacionais, seja uma das formas de combater esta crise, promovida acima de tudo por constrangimentos económicos. Então, não será este um caminho em que vale a pena apostar e de uma forma mais alargada?

Olhando para o panorama geral que surgiu depois de todas as entrevistas feitas, vi que ainda falta um longo caminho para que essa proximidade se instale entre todos. Acima de tudo, notei que se está a ignorar um caminho possível de complementaridade e entreajuda entre os meios de comunicação, inclusive entre meios mainstream e alternativos – um caminho para a consciencialização de que há formas de contornar a falta de tempo e imposições feitas por pressões comerciais e de que há espaço para todos, em detrimento da ideia hollywoodesca da competitividade desmedida.

-Sobre Andreia Monteiro-

Cresceu na terra que um dia alguém caracterizou como o “sítio onde são feitos os sonhos” e lá permanece, quer em residência, quer na constante busca por essa utopia. É licenciada em Comunicação Social e Cultural, na vertente de Jornalismo, pela Universidade Católica Portuguesa, e mestre em Ciências da Comunicação, na vertente de Jornalismo, pela mesma entidade. É, desde maio de 2019, a diretora editorial do Gerador, Associação Cultural a que se juntou no final da sua licenciatura. Apaixonada pelo mundo artístico, é uma leitora insaciável, a companheira constante de um lápis e papel, uma curiosa de pincel na mão, uma amante de teatro e cinema e está completamente comprometida com a beleza da música que tem vindo a descobrir. É, desde 2019, aluna na escola de jazz do Hot Clube de Portugal. Acima de tudo, é uma criatura com pouco mais de metro e meio cujo desassossego não deixa muito espaço para tempos mortos.

Texto de Andreia Monteiro
Fotografia de Joana Ferreira
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