Vejo o azul do céu. As montanhas recortadas no primeiro plano e depois as nuvens brancas. Vejo as árvores no dorso das montanhas, rochas esparsas nas íngremes encostas, conforme o pico se aproxima. Vejo aves em bandos, riscos em movimento sobre a aurora. Vejo a lua ténue e crescente, vestígios dos movimentos universais.

E o que vejo no arco do céu é igual ao que vejo no arco da terra.

A água do lago é límpida e pacífica, se há movimento interior é impercetível na superfície.

A sua face é invisível, o que se vê é o que se reflete. A limpidez e a paz deduzem-se do espelho perfeito, como poderia ser de outra maneira uma simetria imaculada diante de mim?

A simetria não é a duplicação da existência ou o seu espelho. De facto, a existência não tem espelho, limita-se a acontecer.

Se é evidente o reflexo da paisagem, a perfeição que impede a compreensão do fio do horizonte, deixa de existir a equivalência das faces. As faces não se repetem nem duplicam no espelho. O que se vê também não é o verso e o reverso. A verdade e o seu contrário. O reflexo da face nunca será a própria, é só uma perspetiva possível.

O desaparecimento da linha do horizonte, esse é o evento que tem significado.

No limite onde o céu é céu aqui e ali, sem que a água e o ar permitam estabelecer uma linha direita, ou o dedo apontar um princípio e um fim.

Na indistinta fração de espaço em que o céu é céu aqui e ali, água e ar nada são, o céu é só céu, continua, imparável para lá das eventuais linhas.

É nesse lugar sem nome, onde não se exerce a regra da simetria, que quero estar. Nada se opõe. Nada se repete. Nada se imita.

Parece que é preciso um esquerdo e um direito, um peso e um contrapeso, um em cima e um em baixo, um branco e um preto, parece que sem a estrada ter margens e os caminhos o seu fim não é possível ter os pés no chão e a cabeça sobre o pescoço.

Mas lá, onde o céu é céu aqui e ali, onde não há fio de horizonte (só o horizonte, ele mesmo, céu sem princípio, meio e fim), quero estar lá. Com cabeça, pescoço, pés, corpo, alma, mas sem teto, sem chão.

Nem o silêncio será preciso, pois lá não há o contraponto do som.

Ou o dia que começa e acaba.

Lá.

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier

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