Era uma vez, há muito muito tempo, numa terra muito muito distante, um lavrador, um burro e uma raposa.

O burro cirandava sozinho no campo, arrastando o arado, pois o lavrador não podia ter uma junta de bois. Desde a aurora até ao pôr do sol, lá andava o burro, sulcando uma linha e depois outra, uma linha e depois outra, abrindo a terra para receber o trigo.

Quando o sol se punha, o lavrador recolhia o burro no estábulo, tirava o leite da bilha e enchia a malga do animal, merecido prémio para a dura labuta.

Logo que o lavrador se ia embora e fechando a porta do alpendre alumiava a vela sobre a mesa da pequena cozinha e a chama cintilante se refletia na janela, a raposa surgia.

Tudo tinha vigiado com os seus olhos perspicazes. As idas e voltas do burro, o jornaleiro a segurar o arado, a semear e a tapar a terra, os melros, as pias e os pardais que vinham colher minhocas e sementes, as moscas que enxameavam o asno e que este dolentemente sacudia com a cauda, as poucas paragens para um gole de água, a côdea do lavrador molhada em vinho.

Agora que a noite se anunciava, com a cautela que anima o ladrão, a raposa saía de trás do molho de feno e com imperceptíveis passos aproximava-se do asinino.

Este, com os músculos quase dormentes depois do esforço da jorna, já arreganhava os enormes dentes e antecipava o prazer do almejado leite, que quase o fazia esquecer o dia antes, o dia depois, todos iguais, desde o cair da chuva outonal e antes do Inverno chegar.

Mas a raposa antecipava-se. Evitando um defensivo coice, vinha pelo outro lado e era de frente para o arregalado burro que mergulhava sofregamente na malga, só a largando depois de tudo, num ápice, sorver.

O burro não tinha tempo de esboçar movimento.

A raposa, com os bigodes lambuzados e a pança cheia, saía do estábulo tão sorrateira como tinha entrado, com a sua magnífica cauda vermelha ondulando, ondulando, em sinal de suprema satisfação, a caminho da toca.

O burro, bem lambia o fundo da malga, mas  a sua língua só encontrava a superfície rugosa do recipiente. Sem o leite, tinha de se contentar com a água suja do vazadouro e com o feno seco.

Dia após dia, noite após noite, a cena repetia-se. Depois da  dura jornada, o lavrador trazia o branco néctar, enchia a malga e recolhia a casa, o burro preparava-se, alegremente, para o sorver, a raposa aparecia.

Cada vez se tornava mais penoso para o pobre asno cortar a terra com o arado, com fraco alimento e nenhuma recompensa. O lavrador vociferava de ira, dada a dolência do burro. E cada dia, a sementeira era menor.

Mesmo assim, quando vinha o crepúsculo e recolhia o animal, lá lhe vertia o leite. E mais uma vez a raposa cumpria o seu triunfo.

O burro andava tão lento, tão lento, que, belo dia, o lavrador decidiu que ele não merecia o seu ganho.

A raposa bem esperou, esperou, esperou, mas a malga estava vazia.

No dia seguinte, a mesma coisa. O asno lento, o lavrador zangado, a terra sem semente, e o leite a azedar na bilha. E assim foi, até o Inverno chegar.

É o que acontecia, nas terras com lavradores, burros e raposas.

Mas isto foi há muito, muito tempo, numa terra muito, muito distante.

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier
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