Muito se fala do afastamento do público das salas. Das salas de espectáculo, cinemas, teatros, pavilhões e também os grandes e abertos espaços onde acontecem os festivais.

Após um ano de entraves, de lugares proibídos, de cadeiras alternadas, até de filas interditas, as salas foram fechando com confinamentos mais duros e prolongados.

Ao conversar com amigos, ao ler as redes sociais, ao sentir o pulsar de classes profissionais que estão sem trabalho e rendimentos, sabe-se que é urgente retomar a vida. E grande parte dessa vida são as manifestações culturais, em qualquer formato, mas com gente, com pessoas numa plateia e num palco. Com vida, é isso.

Mas convidar as pessoas a regressar às plateias e aos palcos pode não ser tão simples quanto a nossa vontade expressa. Por mim, estava hoje numa sala de teatro ou cinema ou a dançar numa discoteca. Mas… e os outros? Como estão “os outros”? Será que estão livres do vírus? Terão tomado a vacina quando a altura da nova liberdade chegar?

E quem terá mais receio? O espectador que regressa à sala, o actor que está a poucos metros de distância, os técnicos que andam por todo o lado, os produtores, as pessoas que trabalham nos espaços?

Na verdade, pouco falamos sobre isso, tal a ânsia que tudo regresse ao normal. Mas estas dúvidas vão ser colocadas no momento certo porque todos perdemos algo ou alguém, desde entes queridos a projectos cortados, sonhos por concretizar. Todos perdemos vida.

Como ultrapassar então este possível medo no regresso a ela? Como conseguir gritar alto a letra cantada pelo nosso artista favorito, dizer um bravo no meio de uma plateia que aplaude de pé quem se esmerou mais à frente? Como não pensar que alguém pode contaminar outrém e que tudo volte ao início?

De vez em quando, há que fazer fé também na esperança que todos mudámos um pouco e estamos agora bem mais conscientes do que podemos ou não fazer. Os comportamentos sociais vão demorar a regressar ao normal, se é que alguma vez recuperaremos a facilidade do abraço ou dos beijinhos.

Nós, os tais sulistas, vamos sentir mais profundamente essa falta e vamos, naturalmente, demorar mais tempo a ultrapassar este período dramático para a humanidade. Mas, como sulistas, também somos resilientes, já passámos por muito e, no final, continuamos iguais ao que sempre fomos.

É com esse olhar que teremos de regressar à vida, aos palcos e às plateias. Às pistas de dança e aos parques, aos festivais de Verão e aos piqueniques.

Teremos que passar o medo. E essa lição não vem em livros. Será o nosso, um de e para cada um, escrito à mão e diariamente, no nosso confinamento, que nos apontará o melhor caminho.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Ana Pinto Coelho-

É a directora e curadora do Festival Mental – Cinema, Artes e Informação, também conselheira e terapeuta em dependências químicas e comportamentais com diploma da Universidade de Oxford nessa área. Anteriormente, a sua vida foi dedicada à comunicação, assessoria de imprensa, e criação de vários projectos na área cultural e empresarial. Começou a trabalhar muito cedo enquanto estudava ao mesmo tempo, licenciou-se em Marketing e Publicidade no IADE após deixar o curso de Direito que frequentou durante dois anos. Foi autora e coordenadora de uma série infanto-juvenil para televisão. É editora de livros e pesquisadora.  Aposta em ajudar os seus pacientes e famílias num consultório em Lisboa, local a que chama Safe Place.

Texto de Ana Pinto Coelho
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