Há uns dias estava na acupuntura, porque ando muito stressada com o trabalho. Resolvi marcar uma massagem, porque ando muito stressada com o trabalho. Fui visitar uma escola de Taichi para começar a ter aulas, porque ando muito stressada com o trabalho. Acho que já me fiz entender. E então pus-me a pensar: não seria bem mais fácil, e mais barato, só trabalhar menos? Como freelancer já estabelecida, poderia simplesmente aceitar menos trabalho, o que até compensaria monetariamente — menos necessidade de tratamentos para aliviar o stress e ansiedade. Mas então, o que se passa aqui?

Já devemos todas ter ouvido “quem corre por gosto não cansa”. Maior mentira de sempre. Por muito tempo desejei trabalhar só no que me fazia feliz. Agora que faço o que supostamente me faz feliz, apercebo-me que a felicidade de uma pessoa que está no mundo do trabalho está muito mais no equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal (que inclui dormir). Ainda há poucas coisas mais produtivas que descansar. Além disso, cheguei à conclusão que fazer o que se gosta muitas vezes faz com que se trabalhe mais, o que não deixa de cansar.

Vivemos num mundo tão acelerado. As empresas exigem demasiado às pessoas que lá trabalham. O que uma pessoa dá a uma empresa é muito mais que o seu trabalho: é o seu tempo. Neste contexto, pessoas cansadas não são trabalhadoras mais eficientes, pelo contrário. Por isso, por que temos chefias a abusar do tempo pessoal das colaboradoras? (Sim, também há boas chefias — as boas não anulam as más). Quando irão perceber que a empresa só tem a ganhar com trabalhadoras mais felizes, que se sintam bem no trabalho, logo, mais motivadas? E freelancers, quando pararemos de nos auto-destruirmos em prol de mais um trabalho, só mais uma semana e depois só mais uma semana? Tempo não deveria ser dinheiro. Tempo deveria ser valor sem ser considerado um valor capital. Tempo deveria ser, antes de tudo, vida e liberdade.

Com este raciocínio em mente, fez-me todo o sentido quando fui confrontada com um livro que não é de si muito recente, mas continua muito atual nas questões que coloca: “O Direito à Preguiça”, de Paul Lafargue, escrito em 1880. Logo no princípio do primeiro capítulo, lê-se o seguinte:

“Uma estranha loucura apoderou-se das classes operárias das nações onde reina a civilização capitalista. Esta loucura arrasta consigo misérias individuais e sociais que há dois séculos torturam a triste humanidade. Esta loucura é o amor ao trabalho, a paixão moribunda do trabalho, levado até ao esgotamento das forças vitais do indivíduo e da sua prole.”

E foi aí que me caiu tudo: não é só — é muito, mas não é só — a pressão do empregador que nos força a trabalhar só mais uma e outra hora, nem acho que seja só, existindo, a paixão pelo trabalho, mas antes o medo de ficar para trás. O problema da correlação entre valor como pessoa e capacidade produtiva. O medo de parar e ter de valer por nós. O confronto com a realidade pessoal. Muitas vezes o trabalho é um refúgio na procura de validação, como pessoas, como utilidade. Esta noção por si só já é assustadora. Não há problema nenhum em nos entusiasmarmos pelo trabalho, pelo contrário, mas qual é o limite saudável do trabalho?

Desta forma apercebi-me que, com tal, o que está mesmo aqui a acontecer é o Medo do Maravilhoso Nada: o medo de parar, quando parece que TEMOS DE acompanhar a velocidade insana a que o mundo se move. E por fim pergunto-me: terá essa continuidade de velocidade insana origem no entusiasmo de inovar, ou na ansiedade em alcançar objetivos de forma desenfreada?

Bem, vou dormir. Com muitas questões e poucas respostas. Hoje trabalhei demasiado e fiquei irritada comigo. Talvez amanhã comigo fique contente. O mundo precisa de menos trabalho, menos ansiolíticos, mais descanso (e terapia) e menos Medo da Maravilhosamente Nada. Pelo menos é o que eu acho às 02:02 de uma terça-feira. E às 02:03.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Clara Não-

Clara Não é ilustradora e vive no Porto. Licenciada em Design de Comunicação, pela Faculdade de Belas Artes do Porto, e fez Erasmus na Willem de Kooning Academie, em Roterdão, onde focou os seus estudos em Ilustração e Escrita Criativa. Mais tarde, tornou-se mestre em Desenho e Técnicas de Impressão, onde estudou a relação fabular entre Desenho e Escrita. Destaca-se pela irreverência e ironia nas ilustrações, onde reivindica a igualdade, trata tabus da sociedade e explora experiências pessoais.  Em 2019, lançou o seu primeiro livro, editado pela Ideias de Ler, intitulado Miga, esquece lá isso! — Como transformar problemas em risadas de amor-próprio. Nas horas vagas, canta Britney.

Texto de Clara Não
Fotografia de Another Angelo
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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