O mês em que as televisões e os seus canais apresentam a nova grelha para o novo ano, em que os pais preparam as carteiras para comprar os novos livros do ano escolar. É tudo novo! Desde que me lembro que sempre foi esta a minha memória em relação ao setembro, um mês híbrido, em que já não é bem verão, mas ainda há quem faça as férias que não deu para fazer em agosto, e ainda aproveita algumas promoções em hotéis, a preços mais convidativos do que duas semanas antes.

E como o agosto é um mês em que estamos mais na rua, de norte a sul do país, nas nossas férias e atividades lúdicas, olhamos para os cartazes e publicidades de rua. E há um cartaz que sempre me fez ter noção da reentré: o cartaz do festival Avante.

Nos meus tempos de garoto, achava muito curioso porque sempre foi o partido político que conseguiu transmitir de forma mais leve e com subtiliza que o Avante não era bem um comício nem era bem um festival e com isso foi conseguindo fazer uma coisa que mais nenhum partido conseguiu fazer.

E no fundo, seja quem for e de que partido for, as pessoas vão ao Avante, até porque a cor partidária das pessoas não está na testa, nem é necessário apresentar na entrada do Avante a insígnia partidária. Com isso, vai toda a gente. Seja para ouvir música ou para ouvir os comícios políticos, ali se junta toda a gente.

Curiosamente, nos últimos anos, o Festival Avante tem juntado cada vez mais gente, talvez porque se está a tornar mais num festival de música e menos num comício partidário. O que é certo é que a ligação ao Partido Comunista é como a cor do cabelo, podes pintar por cima para disfarçar mas, quando começar a crescer a raiz é impossível esconder a verdadeira cor.

Lembro-me de ter ido algumas vezes, em tempos longínquos enquanto ouvinte de música apenas. Sentado na relva com alguns amigos mais "modernos" - nos anos 90 a diferença entre Lisboa e Torres Vedras era como ter uma televisão a cores e uma a preto e branco - e em Torres Vedras ainda se via o Álvaro Cunhal a preto e branco, enquanto os meus amigos mais modernos já estavam numa onda alternativa com botas Doc. Marteen, calças apertadas, correntes nas presilhas das calças cabelos longos ondulados e ouviam coisas que eu nunca tinha ouvido falar, tipo Cranes! Uma voz feminina muito suave com guitarras super altas. Os meus amigos que me convidaram a ir ao Avante eram assim, lisboetas modernos.

Eu achava aquilo tudo incrível! No tempo em que nem auto-estrada havia para me fazer chegar a Lisboa, a rota de Cabeço de Montachique, Loures e Odivelas eram o meu caminho, para me fazer chegar ao troço que me punha de frente para os prédios da Calçada de Carriche. E ali, nos semáforos, antes da rampa L, estava o cartaz FESTIVAL DO AVANTE. Como estava em todo o lado, claro...

Mas à medida que me aproximava do festival parecia que os cartazes ficavam maiores e com letras mais gordas, e que entravam pela cara dentro e eu, vindo lá de tão longe, ficava pequeno perante estes cartazes, estes prédios e estas novidades todas.

No tempo em que se podia levar mochilas com lanche para os festivais, era ver os jovens da altura, rapazes e raparigas com as suas botas Doc Marteen e calções, algumas delas de chapéu alto a imitar as 4 non Blond, o caminho fazia-se sem pressa em direção ao portão do festival.

Dos anos 90 até aos dias de hoje muita coisa mudou em Portugal. Os festivais lavaram a cara, passaram a ser de quase tudo menos de música, e o Avante, que não quis ficar a preto e branco, revolucionou-se e tornou-se o último grande festival de verão. Lugar onde muitos músicos desejam tocar, seja pelo nome do festival, cujo palco principal leva milhares de pessoas, seja pelo facto de ser o último grande palco onde se pode tocar de calções na rua com pessoas ainda bronzeadas e descontraídas com pouca roupa.

Mas eis que chega 2020, o ano zero para quase tudo, o ano para repensar a nossa vida e tudo aquilo que tínhamos como garantido. E chegados aqui, perante a pandemia que é agora o nosso daily routine, da qual não podemos fugir, em que todos os grandes festivais de verão foram cancelados pelas razões óbvias de segurança, em que os seus representantes perderam milhares de euros de um rendimento anual que ajudaria também o país, pois muitos festivais recebem pessoas de todo o lado do país e não só. Por razões de cautela, anularam tudo para o próximo ano. Até os partidos políticos de maior nome anularam as suas reentrés, aliás, a Champions, que se realiza em Portugal, está a ser feita à porta fechada.

E, obviamente que isto leva a vários pensamentos com conclusões que mais parece uma salada russa. Faz sentido jogos de futebol sem gente? Faz sentido os partidos políticos não fazerem a sua reentré? Faz sentido?

Faça ou não sentido, para o João ou para a Maria, aqui o que prevalece é o bom senso. Certo, mas podem dizer, então e os aviões cheios de gente? Verdade! Como já tinha referido em conversa com alguns amigos mais próximos, a pandemia não avisou ninguém, nem políticos nem decisores, ninguém sabe de facto o que deve ser feito. As pessoas que ficaram em casa meses e meses a fio também não querem ficar sem os seus empregos. A vida tem de continuar!

A vida tem de continuar, essa é a maior verdade! Então a pergunta é também: a qualquer custo?! Isto é, não interessa se vai prejudicar o país posteriormente?

É aqui que eu acho que o Avante, enquanto festival, e o Partido Comunista, enquanto agente decisor, estão a tomar de forma pouco consciente do significado, uma decisão errada! No meu ponto de vista.

Mal comparado é como se todos estivéssemos num barco a meter água e o Partido Comunista, em vez de ajudar a tirar a água do barco, está a ajudar a meter água e a meter ar no bote de salvação para se ir embora e deixar-nos a todos no barco cheio de água.

Aqui somos todos cavalheiros, não nos custa nada, se vem uma senhora, abrimos a porta e deixamos a senhora passar primeiro, não é condescender, é uma questão de educação, respeito, cavalheirismo.

Se este ano todos os grandes festivais foram anulados, eu acho que o Avante deveria fazer o mesmo por uma questão de acordo entre todos os seus pares que também perderam dinheiro, e aos milhares!

Tenho ouvido por aí algumas vozes que agora dizem: "pois, ninguém proibiu o Festival Alive de acontecer, eles não fizeram porque não quiseram!" Eu entendo que estamos já todos cansados de ver as nossas vidas privadas de tanta coisa, mas era bom que deixássemos o nosso umbigo em paz em prol de um país.

Mas, isto tudo não passará de uma conversa da treta se o festival se realizar e o PCP não for chamado à atenção para uma atitude pouco social e muito mais ditatorial. Quiseram, desde início, fazer o festival, ainda estávamos a meio da quarentena já o festival estava anunciado para acontecer.

Afinal, as palmas na janela não fizeram o efeito pretendido neste país...

-Sobre NBC-

NBC é um dos grandes nomes da música actual portuguesa,  e um dos fundadores do movimento hip-hop em Portugal, apreciado pelas suas peculiares performances ao vivo com crossover entre o soulrnbdrum and bassrock e eletrónica e ainda com versatilidade para transformar e criar versões acústicas. O seu último disco, TODA A GENTE PODE SER TUDO, foi editado em finais de 2016. Nascido em 1974 em São Tomé e Princípe, com a influência das suas raízes africanas, Timóteo Tiny é uma das vozes soul mais acarinhadas de Portugal e autor de temas como «Segunda Pele», «NBCioso», «Homem», «Neve», «DOIS» ou «Espelho».  Com a sua discografia já pintou diversas bandas sonoras de filmes e de telenovelas portuguesas, e já pisou muitos palcos em festivais como  NOS Alive, Super Bock Super Rock, Meo Sudoeste, Festival F ou também salas icónicas como Coliseu de Lisboa, Casa da Musica ou Hard Club. Pelo caminho, conta com a edição de um EP, EPidemia (2013) e mais outros dois discos Afrodisiaco (2003) e Maturidade (2008). Já fez digressão com a banda GNR e, em 2015 e 2018, viajou até ao Brasil para uma digressão de cerca 40 dias em estados diferentes estados, tendo passado por lugares como Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis ou Belo Horizonte. Em 2019, participou no Festival da Canção, com a canção “Igual a Ti”, tendo conquistado o segundo lugar do concurso. E assim se escreve mais de 25 anos de carreira.

Texto de NBC
Fotografia de Teresa Lopes da Silva
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