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O Monstro celebra catorze anos, cada vez mais independente, cada vez mais em família

A Monster Jinx existe há catorze anos. Quando ainda não existia Spotify, o Myspace era a rede social, o iPhone tinha acabado de ser inventado e as editoras musicais estavam em crise, Darksunn, Slimcutz, Min e Stray tentavam a sua sorte junto de editoras, mas sem sucesso. Por isso, decidiram criar a sua própria editora assente em pilares que, até hoje, mantém a Monster Jinx em pé e sempre a crescer.

Fotografia de Monster Jinx

A Monster Jinx existe há catorze anos. Quando ainda não existia Spotify, o Myspace era a rede social, o iPhone tinha acabado de ser inventado e as editoras musicais estavam em crise, Darksunn, Slimcutz, Min e Stray tentavam a sua sorte junto de editoras, mas sem sucesso. Por isso, decidiram criar a sua própria editora assente em pilares que, até hoje, mantém a Monster Jinx em pé e sempre a crescer.

A Monster Jinx tornou-se assim um coletivo artístico e uma plataforma de edição e distribuição de música, dedicada ao lançamento de sonoridades independentes e de ideias descomprometidas, liderada pelo ser grande mentor – o Jinx, o grande monstro roxo.

Este ano, para celebrar os seus catorze anos, lançaram Cromática, uma fusão artística entre música, design e ilustração. O projeto, financiado pelo apoio Garantir Cultura, celebra a sua história com os músicos e artistas que colaboraram com a Monster Jinx ao longo de 14 anos. O resultado é a criação de uma box com 7 vinis, 14 EP, com 14 capas desenvolvidas pelos artistas e ilustradores a partir da escuta do EP. Para além disso, fizeram uma tour de apresentação que passou por cinco salas – o gnration, o Maus Hábitos Porto, o Salão Brazil, o Musicbox e a Sociedade Harmonia Eborense.

Em entrevista ao Gerador, Darksunn e Slimcutz contaram como tudo surgiu e qual o segredo para continuarem a ser um espaço de “independência criativa” ao longo destes catorze anos.

Gerador (G.) – Recuando há 14 anos, como surgiu esta ideia de criar a Monster Jinx?

Darksunn (D.) – Essencialmente, a Monster Jinx nasceu fruto de uma necessidade. Em 2008, estávamos a criar um projeto – eu, o Slim e o Stray, outro dos membros fundadores –, o Monstro Robot. Eu estava a produzir, o Slim era DJ e o Stray era a voz. Há medida que fomos fazendo o disco, chegamos a metade e começámos a perceber que tínhamos um projeto interessante em mãos. Como já estávamos mais ou menos inseridos na comunidade musical em Portugal, falámos com algumas editoras e recebemos uma resposta interessante que acabou por ser o fator para criarmos a Monster. Disseram-nos que éramos artisticamente viáveis, mas não comercialmente. Ou seja, a música que fazíamos era boa, mas achavam que não ia vender. Estamos a falar em 2008/2009, em que houve uma bolha bastante grande e, em 2003/2004 também, de indie labels a nível nacional a surgir, especialmente dentro do nosso espetro, do hip hop. Algumas aguentaram mais tempo do que outras, mas todas elas se baseavam na venda de CD, ou seja, o veículo para comercialização eram os CD. Nós começámos a ouvir respostas e ao mesmo tempo, entre os três, achávamos que a música que estávamos a fazer era realmente boa. Pegámos nos erros das labels que estavam a fechar para aprender com eles, e decidimos que não íamos editar música em cd, mas sim, exclusivamente em mp3 – e estamos a falar de uma altura pré-Spotify, em que o máximo que existia era o YouTube, mas nada ainda de muito avançado. Assumimos logo ali três pilares:

O primeiro pilar era que a música seria sempre grátis. Ou seja, mesmo hoje, em que lançamos praticamente toda a música em formato físico, a parte do mp3 é sempre gratuita. Desde cedo criámos uma página de Bandcamp, e creio que fomos dos primeiros a nível nacional a lá estar. O segundo ponto era que a label seria maior do que nós. Queríamos criar um projeto em que os nossos nomes não estivessem associados diretamente à gestão da label, por isso é que criámos o Monstro Jinx, que seria o dono e mestre da editora. Queríamos criar um porto seguro para o pessoal que estava a fazer música alternativa e não tinha espaço noutros sítios. O terceiro ponto era mantermo-nos independentes principalmente a nível de ideias. Ou seja, da maneira que nos disseram que não éramos economicamente viáveis, nós acreditámos que para fazer música não tínhamos de o ser. E acho que catorze anos depois, a nossa ideia provou-se correta.

A maior parte das labels fecharam todas, nós achávamos que tinham um foco num modelo obsoleto, o da venda de CD. Nós continuamos com a mesma mentalidade, não estamos amarrados a estilos musicais nem ao que está a ser consumido. A preocupação é ter um sítio onde os nossos artistas consigam alcançar mais fielmente o que fazem, e sem esse constrangimento do “será que vai vender”. A nossa preocupação não é essa – é pôr o melhor produto e expressão possível dos nossos artistas cá fora.

Slimcutz (S.) – Há uma coisa que faz muito parte da filosofia e que tomámos consciência há catorze anos, quando nos fecharam essa porta. Sentámo-nos a falar e percebemos que se não quiséssemos editar a música em CD, não precisávamos de uma editora para nada. Ou seja, tínhamos um grupo de pessoas a trabalhar connosco, em que conseguíamos fazer tudo sozinhos, eramos sempre independentes, e é essa a mentalidade que usamos hoje em dia para tudo o que fazemos. Fazemos os eventos, edições, e desde essa altura que percebemos que não precisávamos de uma estrutura maior para fazer o que queríamos, e isso mantém-se.

G. — Mas, hoje em dia, é importante um artista estar associado a uma editora?

S. — Nos tempos em que vivemos, veio provar-se que mesmo os artistas grandes não precisam de uma editora se quiserem, porque têm um veículo grande para chegar às pessoas. Ao terem as próprias ferramentas, conseguem fazer isso, e estamos a vê-lo nos EUA, em mesmo em Portugal. Claro que hoje em dia podem estar a conseguir dominar mais as questões de Spotify, por exemplo, mas, neste momento, estamos a viver a primeira fase de artistas 100 % independentes.

D. — Se formos olhar para os anos 80/90, ainda tínhamos desenvolvimento de artistas sem haver a tal necessidade de teres já muito nome inicialmente, bastava a música ser boa e havia caminho para o desenvolvimento. A crise do mp3 rebentou um pouco esses modelos de negócio, e chegas a uma fase em que as majores labels trabalham no sentido de um artista que já tem um certo tipo de peso. E é fácil medir isso pelo número de plays, continua a ser um indicador – válido ou não, isso é outro assunto -, mas bom para o estado de disposição do artista. No meu entender, e acho que é um entender que partilhamos todos na Jinx, temos uma particularidade que nenhuma major label tem – não somos só uma label que edita discos, somos uma crew, um conjunto de artistas e temos artistas que estão mais envolvidos com outros aspetos da discussão artística. Mesmo a ideia de ter um espaço onde tenhas pessoal que pensa como tu, onde podes mostrar a tua música e essa música pode crescer ajudada pela equipa que tens à tua volta, não no sentido de vender mais e melhorar enquanto artista, mas ter o melhor produto possível. E esta equipa não é de marketing, nem de pessoal técnico de som, são artistas como tu. E isso é uma das poucas razões neste momento para ainda se querer estar numa label.

As labels estão a dominar os canais de promoção que eram dominados pelos artistas, e esse poderá ser o desejo de quereres ir para uma editora, especialmente uma majore. Se é obrigatório para ter sucesso? Cingindo só a Portugal, não, não é obrigatório. Há pessoal que escolheu não estar porque chegou a uma fase em que a label já não adiciona nada àquilo que têm.

G. — Em 14 anos já se passou muita coisa no mundo e na indústria… como é que se cria uma editora tão sólida?

D. — Sei que vai parecer um clichê, mas é sermos uma família. Nós acreditamos muito na ideia do coletivo e muitas vezes acima do que acreditamos na nossa própria identidade enquanto artistas individuais. Acreditamos que a identidade Monster Jinx, e da crew, é superior à soma das nossas partes, por isso temos um sítio para fazermos música quando queremos. Até te conto que, quando fizemos dez anos, mal ou bem fizemos uma retrospetiva e percebemos que todos nós estamos melhores pelo facto de estarmos na Monster, isso significa que se estivesse noutra label não estava tão bem, e acho que este sentimento é partilhado um pouco por todos os membros, e é das principais razões para estarmos cá. E depois somos teimosos, acreditamos muito no que fazemos e temos essa teimosia de que vamos continuamente melhorar o que estamos a fazer. Um exemplo claro disso é conseguirmos começar a fazer coisas que se calhar nunca pensámos conseguir fazer, como editar música em vinil. Somos capazes de ser, neste momento, a editora independente que mais edita discos em Portugal, e isso entra em contra corrente com o mercado que é extremamente digital.

S. — Durante estes catorze anos, fomos passando sempre esse princípio para todos os que se juntam a nós. Muitas vezes damos mais importância a um músico com quem nos identifiquemos, do que a um músico que está connosco em grupo e não se identifica. Tentamos trabalhar sempre com pessoas a nível de mentalidade e postura na música que sejam parecidas à nossa, e esse é o segredo para nos mantermos unidos tanto tempo. Somos muito diferentes, mas muito parecidos a nível de princípios.

D. — A nossa ideia de seleção do artista passa muito mais pela questão de identificação. Obviamente que tivemos saídas e entradas que geraram saídas, mas isso faz parte. Essa mentalidade e procura de uma mentalidade coletiva faz-nos durar, faz com que sintamos sempre que podemos fazer isto por mais dez anos na boa, e mesmo se quem está a gerir a label neste momento, tiver de sair, acredito que outras pessoas consigam agarrar, porque há essa noção de coletivo.

G. — Desde o início que procuram juntar várias artes, nomeadamente o design, a música e a ilustração?

D. — Durante muito tempo, todo o nosso art work era feito por uma pessoa só, a Rita Goulão e depois começámos a trabalhar com outros artistas que respeitamos e vão trabalhando connosco de uma forma mais pontual ou continuada. Vamos convidando artistas que gostamos e que consideramos que têm algum tipo de alinhamento com o que nós vemos artisticamente na Jinx, é uma parte que temos muito cuidado. Por exemplo, mesmo na Cromática, convidámos pessoas que já tinham trabalhado connosco.

G. — Ao longo destes catorze anos, houve algum projeto que vos tenha marcado de alguma forma?

D. — Muitos. Mas, mais recentemente, quero destacar dois. O primeiro, foi a nossa compliação de tributo ao MF DOOM , pela importância dele dentro da Jinx, era um artista que reunia consenso, o que é difícil porque somos muitos. E estamos a falar de um relacionamento que tínhamos com a música dele e experiência, tínhamos um respeito imenso. Soubemos que tinha falecido na véspera de ano novo e imediatamente começámos a falar para fazer uma homenagem e conseguimos executar tudo no espaço de um mês. Foi muito sentimental da parte de todos. Outro projeto foi o Season, na altura do confinamento, mal se soube que íamos ficar em casa, juntámos o pessoal e dissemos que íamos fazer uma live no Instagram todos os dias às 18h00, e íamos lançar uma faixa nova todos os dias. Fizemos isto durante sete semanas, até as coisas começarem a aliviar mais. Foi importante, nem que fosse para a nossa saúde mental e inspirar quem estava à nossa volta a fazer o mesmo. Foi dos maiores momentos de união coletiva que me recordo de termos vivido internamente.

S. — Todos os projetos que temos feito são sempre uma oportunidade para fazer outras coisas e colaborar com outras pessoas, mesmo a nível de artistas gráficos. Há muitos projetos que marcam nesse sentido. Lembro-me de ter uma ligação emocional ao projeto Roger Plexico, em que mostrou que conseguimos fazer certas coisas como gravar uma cassete. E deu-me um clique para saber que conseguimos essa parte na música digital, mas também na parte física. Acima de tudo, cada projeto é como uma formação e vais conhecendo pessoas novas.

G. — O vosso último grande projeto, o Cromática, podem falar um pouco de como surgiu esta ideia?

D. — Isto nunca tinha sido feito por uma indie label, nem por uma major labor, desta maneira. O que fizemos de criar uma box de sete vinis, era algo completamente impensável para nós, só mesmo se tivéssemos ajuda financeira. Depois, conseguimos unir catorze atos musicais com catorze artistas gráficos, foi um trabalho gigante. Mas foi algo que para nós foi um marco, mostrou-nos que é possível não só a nós, mas aos outros que estão nas mesmas lutas que estamos, de que é possível fazer. A prova de estar praticamente sold out é de que é possível. Permitiu-nos fazer uma tour por cinco cidades a nível nacional, sítios ao quais nunca tínhamos ido, foram sítios importantes. Para uma pequena estrutura como nós, e muitas vezes acham que as labels independentes tem uma equipa de 30 pessoa a trabalhar nisto, mas não, e conseguirmos montar isto foi uma tarefa hercúlea, no mínimo.

S. — No outro dia, estava a tomar consciência de que, fora os músicos e os ilustradores, se formos juntar todos, estão umas 60 pessoas envolvidas neste projeto e isso é bonito, porque toda a gente se entregou de coração.

G. — Para fazer o Cromática tiveram o apoio do Garantir Cultura. Foi a primeira vez que tiveram um apoio destes? Qual o significado de um apoio como este para uma editora independente?

D. — Tivemos um apoio similar, um desafio do Music Box para criarmos um trabalho em confinamento e apresentar ao vivo quando fosse possível. Fizemos uma banda móvel com cinco produtores da Jinx, desenvolvemos um EP todo, tivemos merch, e apresentámos ao vivo em formato live act. Foi com o apoio da Câmara Musical de Lisboa.

Este caso do Garantir Cultura, enquadrando dentro da Jinx… nós vivemos muito dos eventos, porque para quem edita em formato físico como editamos, e especialmente edições curtas como fazemos, a rentabilidade é muito baixa. A juntarmos a isto, passámos dois anos praticamente sem eventos, apesar de terem sido os dois anos em que editámos mais música. O Garantir Cultura quando aparece, nós nem estávamos a acreditar muito na ideia, e foi a Marta que trabalha connosco que acreditou e acabámos por tentar ser bastante ambiciosos com o que estávamos a pedir. Queríamos criar algo que representasse bem o que é a Jinx e que ficasse como um marco histórico. Posto isto, foi importante para nós e para uma série de casos que conhecemos, que ficaram sem rendimento absolutamente nenhum. Mais uma vez, nós vivemos de espetáculos ao vivo, por isso, surgiu na altura certa, foi fundamental. Há um momento em que fomos pagar os discos e foi olhar para a fatura e pensarmos, “isto é um valor fora do costume para nós”, e foi interessante por isso também. A Monster Jinx não é uma ilha, por isso, ver os nossos colegas a terem também a oportunidade de ter este fundo, foi importante.

G. — E levou também a uma certa ‘descentralização’ dos artistas a quem chegam…

D. — Na verdade, há aqui um ponto interessante. Nós sempre fomos uma editora um bocado espalhada por todo o país todo. Isto porque nós tivemos uma primeira fase em que tínhamos artistas em Bragança e Vila Real de Santo António. Não tínhamos ninguém nas ilhas, mas tínhamos alguém que estava em Angola, por exemplo, portanto já tínhamos tido uma expansão grande. Mas concordo com o que estás a dizer, especialmente dar a possibilidade de pequenas editoras, como nós, de irmos a espaços diferentes mostrar a nossa música. Porque na verdade, mostrar a música ao vivo é um caso diferente, é completamente diferente. Chegar a novos sítios e fazer essas parcerias, foi muito importante para nós.

G. — Vocês falam muito de ser Jinxie… Mas o que é isso de ser Jinxie?

D. — Somos uma editora pequena, não temos três milhões de fãs distanciados de nós. As pessoas estão próximas de nós. Não olhamos para as pessoas como fãs anónimos, são pessoas com quem criamos relacionamentos, então são pessoas que congregam esta ideia. Acho que a melhor ideia do que é ser Monster Jinx é a ideia da independência. Para além do acesso democrático à música e de que a Jinx é maior do que nos todos juntos, a independência, para mim, acho que é o pilar fundamental. Não temos amarras, a única que temos é a nós mesmos e ao coletivo. Não temos pressão, nem queremos impor a ninguém, nem temos a ideia de fazer música atingir um determinado objetivo. O único objetivo que nós temos para atingir a expressão musical de cada um de nós é a expressão criativa que, para nós, é dos patamares mais altos da condição humana, a capacidade que temos de nos exprimir artisticamente. O que fizemos foi criar uma plataforma para mostrar isto a outras pessoas, e pode ser que gostem ou não, isso parte de cada um, mas damos essa plataforma a quem está na Jinx para mostrar ao mundo o que queremos mostrar artisticamente.

S. — Nós criámos a estrutura para todos fazermos aquilo que queremos, e nós acreditamos na nossa independência criativa e que conseguimos fazer tudo aquilo que quisermos e passamos isso cá dentro, e mesmo a pessoas fora da Jinx. E mesmo esta solução que arranjámos para nós próprios e não a escondemos. Acima de tudo fazemos o que gostamos e aquilo que nos apetece, e é para isso que a Jinx serve. E ao mesmo tempo é uma família que ajuda a que tudo aconteça melhor.

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