Nas artes performativas, o campo das relações profissionais, particularmente o das parcerias, é facilmente confundível com o das relações pessoais. 

Sempre tive uma dificuldade extrema em destrinçar quem é amigo de quem é colega, parecia-me inevitável. No ofício de quem se entrega por inteiro e se expõe tão irremediavelmente perante os outros, parece-me natural que a comunhão nesse tipo de partilha dê azo à confusão dos papéis do jogo social. 

Ao admitir esta dificuldade terei também de admitir que, bastas vezes, me deparei com o dissabor da desilusão: ser cúmplice na arte não significa ser igualmente cúmplice na vida.

A entrega, na Arte, serve-se de um mecanismo que envolve necessariamente algum grau de atração e sedução, sejam eles de cariz intelectual, físico ou emocional, tanto para os seus agentes como para o público. Abraçar este ofício implica forçosamente o desenvolvimento de um tipo de inteligência e fair play que não nos ensinam nas aulas nem nos livros, talvez por carecer de respostas certas, os limites vão-se definindo e nem de propósito, cada caso é um caso!

Como fui parar à Suécia, parece ter sido fruto desta maravilhosa aleatoriedade que a vida nos proporciona e uma confirmação de que é possível ser cúmplice de tantas formas: um colega pianista com quem nunca tivera contacto, recomenda-me ao seu primo, também ele músico, como cantora para a sua banda de folclore Sueco e Português.

Em breve, teria início a minha aventura escandinava.  

Faço um preâmbulo para contextualizar : sou cantora de jazz e música contemporânea de formação, só em idade adulta comecei a alimentar o gosto pela música tradicional portuguesa. Sempre me revi na poesia e literatura de língua portuguesa mas, relativamente à tradição musical do meu país, parecia existir em mim uma barreira, especialmente com o Fado. 

Cresci a ouvir música clássica, rock progressivo e música brasileira, na adolescência tinha uma avidez pelas sonoridades exóticas de outras culturas, comecei muito cedo a explorar o potencial da improvisação e foi por meio dessa busca que me apaixonei pela liberdade do jazz

Anos depois, ao viver nos Estados Unidos, entendi pela primeira vez o que era a saudade.

Os colegas internacionais perguntavam-me como era a música tradicional de Portugal e eu sentia-me embaraçada por conhecer tão pouco.

Despertei a consciência de que só seria inteira quando reconhecesse o vazio que provoca o não abraçar a cultura musical do meu lugar de origem. Numa tentativa de recuperar essas raízes, resolvi mudar-me para Alfama e conviver mais de perto com o Fado.

Foi nesse período de vivência no bairro que compus um fado-canção para celebrar o dia Internacional da Paz, chamei-lhe Maria da Paz.

Ao que parece, a Maria da Paz, que andava a circular pela Internet, foi ouvida por alguém que me considerou digna de carregar este legado. Desde então, canto fado, sem pretensão, mas com a propriedade que a vida me foi dando.

O Mundo deu-me Fado.

Lá vou então apanhar um voo para um País que nunca visitei para me encontrar com pessoas que não conheço e cantar música que tão pouco domino. São esses os momentos em que eu penso, caramba, devo ter sido feita para isto, é que só a ideia me alucina!

Visitei a Suécia pela primeira vez há cinco anos e, desde então, já nem guardo conta das vezes que lá fui, este país tem vindo a crescer em mim.  

Tenho uma costela Sueca por afinidade que se constrói inicialmente através da música, mas que se ramifica numa amizade cada vez mais viçosa e frutífera e de um fascínio pela cultura daquele povo.

Encontrei na Suécia a voz de um lado meu que por tanto tempo afastei, acho engraçado ter sido fora de Portugal que a resgatei.

Num país onde poucos conhecem a língua que canto e nem por isso menos se comovem, não pretendo ver o público chorar com o que canto, mas constato que isso acontece amiúde e sei que a língua é uma ponte que a própria música supera. No entanto, aquilo de que canto, faz a diferença.

“Vivia no monte, onde à noite sorrateira, a luz se esconde
E de dia saltava, despreocupada, por entre urzes e oliveiras 
Tinha nas ovelhas e nos riachos amigos de infinitas brincadeiras
Nos seus olhos um sorriso a distinguia 
E da boca livre, como a cotovia, jorravam inocentes cantos 
do céu e do mar jamais visto
E de todos os seres que amava
Sua voz era pura emoção
Por ter nascido em dia santo, sua mãe, tão comovida 
Por tanto espanto e beleza, que aos olhos de Mãe jamais se desfaz
decidiu, com pureza, chamar este Ser
Maria…
Maria da Paz “

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Rita Maria-

Rita Maria começou a estudar música aos oito anos e desde os catorze a cantar jazz. Estudou canto lírico no Conservatório Nacional de Música de Lisboa, Jazz na Escola de Jazz do Barreiro, ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo), no Porto, e também na Berklee College of Music em Boston como aluna bolseira. Passou parte da sua vida adulta entre Portugal, Estados Unidos e Equador. Deambula entre a improvisação do Jazz e a nostalgia do Fado, o Experimentalismo, a fusão com world music e o rock, já tenho partilhado o palco com diferentes músicos e integrando variadas orquestras. É cantora da Banda Stockholm Lisboa Project, lançou, em novembro de 2016, com o guitarrista e compositor Afonso Pais o disco “Além das Horas” e é cantora da banda Saga Cega. Recebeu o Prémio de Artista do Ano, Prémios RTP/Festa do Jazz 2018. Neste momento, está a desenvolver o seu trabalho artístico com o pianista e compositor Filipe Raposo com quem já lançou o primeiro disco “Live in Oslo”, em 2018, e lançará, em finais de 2020, “The Art of Song vol.1: When Baroque Meets Jazz”. Círculo é o mais recente trio colaborativo do qual faz parte e que se estreou em disco a janeiro de 2020 com os músicos Mário Franco e Luís Figueiredo.

Texto de Rita Maria
Fotografia de Alice Bracchi
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