Vivemos, em Portugal e um pouco por todo o mundo, uma circunstância que nos era desconhecida e que se denomina como dever de recolhimento domiciliário ou confinamento geral. A circunstância, ao abrigo do Estado de Emergência, implica a suspensão das atividades culturais, ou seja, a suspensão dos formatos presenciais de apresentação da criação artística e cultural. Há quase um ano, quando acordamos em plena pandemia, a situação causou atropelo mental e angústia pela novidade mas, simultaneamente, motivou uma aceleração nos processos de digitalização do acesso à cultura, à criação artística, à arte. Percebemos, definitivamente, que a tecnologia e, nomeadamente, as ferramentas potenciadas pela Internet, não poderiam ser utilizadas como um mero complemento das nossas opções de programação cultural, percebendo que teriam de ser parte da estratégia, ampliando o alcance aos conteúdos e permitindo uma muito maior facilidade de comunicação com o mundo e, neste sentido, de internacionalização. O digital não serviria a programação cultural apenas como ferramenta de comunicação, divulgação e captação de públicos, mas antes como forma de apresentação, de exibição e de permeabilidade por parte de outros e de todos os públicos. De uma forma mais ou menos amadora, mais ou menos consciente, as estruturas de programação, públicas e privadas, criadores coletivos ou individuais, foram-se procurando adaptar, infoincluir e reinventar. Não é muito importante se tiramos mais ou menos proveito da obrigação de desenvolvimento tecnológico que a pandemia nos colocou. Interessa, antes, compreender o processo, numa síntese histórica recente que se acelerou nos últimos meses, referindo exemplos de inovação, ousadia e boas práticas, numa crença profunda de que a tecnologia tem um força motriz e capaz de dar um contributo decisivo para a democratização do acesso à cultura.

Este segundo confinamento geral coincidiu, no enquadramento da programação da zet gallery, com uma exposição de João Louro (n.1963), que havia inaugurado a 18 de dezembro de 2020, prolongando-se, previsivelmente, até 27 de março de 2021. Interessa contextualizar. A zet gallery nasceu em abril de 2014, originalmente, como uma plataforma de e-commerce vocacionada para a comercialização de obras de arte de artistas contemporâneos, perfeitamente enquadrada no crescimento que se vinha verificando, a nível global, no mercado de vendas online e em novas ferramentas como  marketing digital. O modelo de negócio seguia exemplos internacionais como os da www.saatchiart.com, plataforma associada à importante galeria que o empresário Charles Saatchi (n.1943) cria, em Londres, na década de 1980. Em pleno século XXI amplia a representatividade do projeto, abrindo-o a um leque maior de criadores e quase prescindindo de critérios fechados de seleção artística. Exemplo similar é a plataforma https://www.artsy.net/ que, por sua vez, faz uma aposta consciente na disponibilização de conteúdos, tais como artigos de opinião ou de informação sobre artistas e sobre o sistema da arte de uma forma mais global. Em ambas as plataformas referidas há, contudo, o denominador comum de não existir um espaço de programação físico associado. A Saatchi Gallery (https://saatchigallery.com/) tem outro âmbito e em nada se relaciona com o programa da plataforma de e-commerce. A zet gallery dispõe de um espaço privilegiado de galeria de arte, no centro de Braga e com 800 m2 e integra o dstgroup, um holding originalmente ligada à engenharia e construção mas que tem hoje várias áreas de negócio e vê na cultura um fator de diferenciação económica. A zet gallery faz parte do corpo de projetos que o grupo tem para ser interventivo e atuante no sistema da arte, proporcionando condições de criação aos artistas e formas dignas e exigentes de apresentação das suas propostas através de diferentes canais. Quando cheguei ao projeto em janeiro de 2017, foi feita uma reformulação no sentido de equilibrar o formato existente com o de um modelo de galeria tradicional com a novidade da direção curatorial, ou seja, autoral e não moldado por interesses meramente comerciais. Simultaneamente, assumiram-se as potencialidades, não só da plataforma de e-commerce já existente, com a de um projeto produtor de conteúdos digitais diversificados, e que vão da diversidade de possibilidades do audiovisual aos escritos em vários formatos, difundidos numa larga extensão de canais, devidamente adaptados: redes sociais, blog, mailing. Destes nunca excluímos os tradicionais catálogos das exposições, bem como outros formatos editoriais, sempre em registo bilingue (PT/EN), ou seja, as ferramentas offline de educação e mediação cultural focadas na autonomia do espectador e, muito menos, em programas de atividades paralelos às exposições, que complementem as suas leituras, por um lado, e que sejam capazes de partir da produção artística contemporânea para a reflexão consciente de temas que interessam a todos. Com o tema, os nossos ciclos expositivos passaram, também, a incluir desafios aos artistas para a realização de projetos de obras de arte em espaço público. Pensar a programação cultural de fora para dentro, do espaço público para o espaço privado, considerando a rua e a grande rede que é a internet como espaço públicos e de acesso democrático por excelência às manifestações culturais, à criação artística.

Em pleno contexto pandémico fomos refinando o nosso processo de digitalização e a exposição de João Louro, não obstante estarmos de portas fechadas à contemplação e à experimentação presencial, dispõe de uma virtual tour, visitas guiadas em formato vídeo, diferentes conteúdos escritos descritos no blog, galeria de fotografias dos espaços de exposição e das obras que a integram, além do programa (possível) de atividades na galeria que permitem viver a obra de arte direta ou indiretamente, em diferentes contextos. Se o que fazemos é apenas uma forma de ultrapassar as contingências? Não creio. É acreditar que a programação cultural tem que acontecer, cada vez mais, de fora para dentro, do território para o interior das instituições, desafiando todos, sem exceção, a deixarem-se inundar pelo confronto direto com a obra de arte. Da rua e da rede para o museu, programando muito mais do que exposições e palcos, mas colocando o pensamento metadisciplinar no centro da ação e sabendo tirar o proveito todo dos canais acessíveis a todos, considerando-os convites a penetrações mais ambiciosas e, por isso, transformadoras dos indivíduos e das comunidades. Ou seja, o museu, a galeria, é a grande praça, a Ágora para a qual tudo conflui. Estaremos a ensaiar, nesta nossa zet gallery, uma ideia para o museu do futuro? Talvez.

-Sobre Helena Mendes Pereira-

Helena Mendes Pereira (n.1985) é curadora e investigadora em práticas artísticas e culturais contemporâneas. Amiúde, aventura-se pela dramaturgia e colabora, como produtora, em projetos ligados à música e ao teatro, onde tem muitas das suas raízes profissionais. É licenciada em História da Arte (FLUP); frequentou a especialização em Museologia (FLUP), a pós-graduação em Gestão das Artes (UCP); é mestre em Comunicação, Arte e Cultura (ICS-UMinho) e Doutora em Ciências da Comunicação (ICS-UMinho), com uma tese sobre a Curadoria enquanto processo de comunicação da Arte Contemporânea. Atualmente, é diretora geral e curadora da zet gallery (Braga) e integra a equipa da Fundação Bienal de Arte de Cerveira como curadora, tendo sido com esta entidade que iniciou o seu percurso profissional no verão de 2007. No âmbito da educação e mediação cultural orienta, regularmente, visitas a exposições e museus de Arte Contemporânea, tendo já lecionado o tema em várias instituições de ensino. Integra, desde o ano letivo de 2018/2019 o corpo docente da Universidade do Minho como assistente convidada. É formadora sénior e consultora nas áreas da gestão e programação cultural. Publica regularmente em jornais e revistas da especialidade, tais como o quinzenário As Artes entre as Letras, nas revistas RUA e MINHA. Com mais de 13 anos de experiência profissional é autora de mais de 80 projetos de curadoria, tendo já trabalhado com mais de 200 artistas, nacionais e internacionais, onde se incluem nomes como Paula Rego (n.1935), Cruzeiro Seixas (n.1920), José Rodrigues (1936-2016), Jaime Isidoro (1924-2009), Pedro Tudela (n.1962), Miguel d’Alte (1954-2007), Silvestre Pestana (n.1949), Jaime Silva (n.1947), Vhils (n.1987), Joana Vasconcelos (n.1971), Helena Almeida (1934-2018), João Louro (n.1963), entre tantos outros. Tem larga experiência em estudos de coleções, produzido e publicado extenso trabalho crítico sobre arte e artistas contemporâneos, onde se incluem catálogos e outros resultados de investigações mais profundas sobre artistas e contextos de curadoria. É membro fundador da Astronauta, associação cultural com sede e Guimarães. Tem publicados dois livros de prosa poética: “Pequenos Delitos do Coração” e “apenas literatura e não outra coisa qualquer”.

Texto de Helena Mendes Pereira
Fotografia de Lauren Maganete

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