Ultimamente era frequente as conversas com amigos e colegas de profissão irem dar a um mesmo tópico: precisamos de desacelerar, de parar. No modo de vida da maior parte dos trabalhadores que conheço, no meio artístico e fora dele, havia a sensação de estar dentro de um comboio que anda a uma velocidade cada vez mais rápida, mas que os seus passageiros não se apercebem disso e continuam a corresponder a todas as solicitações, como se nada tivesse mudado.

Com a pandemia que nos assola, temos aqui, dramática e inesperadamente, a nossa oportunidade para parar e percebermos que novo rumo terá o mundo e de que forma queremos participar nele.

Não quero com isto romantizar a quarentena. Até porque, para muitos, ela constitui um problema muito maior do que ter de ficar em casa, longe de familiares e amigos. Para muitos, significa trabalhar em situação de risco todos os dias; para outros, mais vulneráveis, uma situação profissional precária, e ainda, para muitos outros, profundos problemas que podem pôr em causa a sua sobrevivência, como o desemprego e a pobreza.

No entanto, há neste “parar”, que atinge a sociedade no seu global, e cada um de nós à sua maneira, uma possibilidade de mudança profunda no modo como vivemos. Estes dias um amigo enviou-me um texto do italiano Franco Berardi. O texto é a compilação de várias crónicas que o filósofo italiano tem publicado no site da editora Verso. Berardi, que tem dedicado o seu trabalho ao questionar do futuro, aponta o momento que vivemos como uma fractura impensável, em que o vírus, entre as suas dramáticas consequências, nos traz algo de verdadeiramente novo: “o vírus é a condição de um salto mental, que nenhum discurso político teria conseguido gerar.”  Este momento vai dar-nos o tempo que tanto temos precisado, de reflexão e pensamento profundo. Não parámos, pararam-nos e nada podemos fazer a não ser ficar parados…

Apesar de todos os esforços das empresas, instituições e dos trabalhadores para todos continuarem a trabalhar a partir de casa, e da dedicação admirável de todos os que fazem mover o país no seu posto de trabalho – desde logo os médicos e enfermeiros e todo o pessoal da saúde, mas também os trabalhadores dos supermercados, ou quem recolhe o lixo -, creio que é o ócio forçado de tantos que estão em casa que está a mover o mundo. Está a conduzir-nos para um desamparo, um vazio, e forçosamente a um pensamento mais profundo. Sairemos diferentes deste túnel.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre a Isabel Rodrigues Costa-

Trabalha em teatro, cinema, na área de produção de exposições e curadoria. É diplomada em teatro pela Escola Superior de Teatro e Cinema, tendo completado a sua formação na Universidade de Warwick (Inglaterra) e na UNIRIO (Brasil). É membro do grupo de teatro Os Possessos desde 2014. Na área de produção de exposições passou pelo Paço Imperial no Rio de Janeiro (Brasil), pela Galeria Luis Serpa Projectos (Lisboa) e pela galeria Primner. Em 2016 terminou o mestrado Eramus Mundus Crossways in Cultural Narratives, tendo passado pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas na Universidade Nova de Lisboa, pela Universidade de Perpignan (França) e pela Universidade de Guelph (Canadá). Dedicou-se ao tema do arquivo na performance arte. Em 2017, iniciou a criação de projectos a solo. Apresenta a criação “Estufa-Fria-A Caminho de uma Nova Esfera de Relações” na Bienal de Jovens Criadores, e a primeira edição do Projeto Manifesta, um projecto produzido por Os Possessos. Em 2019, apresenta as criações “Maratona de Manifestos” e “Salão Para o Século XXI.”

Texto de Isabel Rodrigues Costa
Fotografia de Telmo Pereira
gerador-gargantas-soltas-isabel-costa