E lá fomos nós na ilusão de encontar a genial mas esquiva Maria João Pires, uma das maiores pianistas da nossa história, ali à mão de semear na sua própria casa. Idos lá, fomos todos nos olhos e no coração da nossa Andreia Monteiro. Também pianista, também jornalista, também emocionista daquilo que nos faz chegar à beira dos nossos artistas preferidos: o coração.

A chegada ao Centro de Artes de Belgais surpreende-me pelo nevoeiro que esconde o horizonte verde e acolhedor da paisagem das Beiras. À procura da porta de entrada, oiço os pássaros que cantam acompanhando um piano que ecoa por Belgais. É o piano de Maria João Pires, onde esta ensaiava para um concerto que iria dar para cerca de 125 pessoas na sua sala, dentro de umas horas. Ao entrarmos em sua casa, fomos encaminhados para a sala comum, onde a esperávamos para uma conversa. O meu coração quase não cabia dentro do peito. A qualquer momento iria conhecer uma das minhas grandes referências e inspirações enquanto estudante de piano. Demoro o olhar na estante que, em vez de livros, é colorida com vários CD. Não faltam obras como as de Chopin, Schubert, Beethoven, Bach e os trabalhos da Maria João.

Embrenhada na antecipação, no eco que anseio acalmar para dar vez à voz e nesta região na Beira Baixa em que a pianista Maria João Pires viu nascer uma história, um estado psicológico, um laboratório e um futuro, relembro-me que, ao contrário de mim, que comecei a estudar piano tardiamente, Maria João privou com o piano desde muito cedo.

Conta-nos que foi com três anos que começou a tocar piano, com a sua irmã mais velha. Posteriormente, uma tia incentivou-a a estudar com o professor Campos Coelho, que a levou a tocar numa audição no Conservatório. Foi a primeira vez que tocou em público, com quatro anos, durante cerca de dez minutos. Mal adivinhava que anos mais tarde estaria a formar-se, na mesma instituição, com nota vinte. Aos cinco anos deu o seu primeiro concerto, um recital no São Luiz Teatro Municipal. Partilha que se lembra de se sentir fascinada pelo som.

É nesta sala comum, onde o público se vai juntando na espera que antecede o concerto em Belgais, que se vê chegar os primeiros ouvintes. Ele chama-se Arnaldo Matos e ela, Cidália Guerreiro. É Arnaldo quem guia a conversa, acompanhado por um olhar risonho da esposa. Diz-nos que tem mais cinco anos do que a pianista e que, por isso, teve o privilégio de a acompanhar desde o concerto em que a viu tocar, aos nove anos, no jardim municipal da Madeira. Lembra-se de terem colocado um piano no jardim e da menina-prodígio sentada à sua frente, com uns soquetes. Assim era conhecida Maria João, “tal como o tinha sido Mozart, que era uma exímia executante, mas não compositora”. Tendo conhecimento dos concertos em Belgais não hesitou e comprou bilhetes para todos os meses, ansiando o reencontro.

Maria João diz-nos que vê Belgais sobretudo como um laboratório em que fazem muita pesquisa sobre a influência da arte na vida das pessoas, independentemente do seu domínio. “Acho que Belgais é um pouco isso – um espaço em que tentamos preservar a criatividade. Em vez de preservar a competição, ou a comercialização da arte, queremos preservar a capacidade criativa do ser humano”, partilha. A criatividade é um dos elementos-chave para a pianista, que a vê como uma forma de viver. Para a desenvolver considera que é apenas necessário que sejamos sinceros connosco próprios, identificando aquilo de que realmente gostamos e não o que a sociedade nos impõe. “Não significa que não nos adaptemos à sociedade, porque isso é positivo, mas a adaptação tem de ser feita de uma forma autêntica, natural, e não matarmos aquilo que temos de melhor”.

O Centro de Artes de Belgais surgiu de mãos dadas com a procura da pianista pela partilha. “Sempre tive vontade de haver uma transmissão entre mim e as pessoas mais jovens. Essa transmissão é essencial, porque não se pode fazer através de meios de comunicação nem técnicos, nem através de livros. Há uma transmissão que tem de ser feita ao vivo. Por isso é que lhe chamamos laboratório de Belgais, porque é um espaço onde comunicamos as coisas que não se podem comunicar doutra forma que não seja ao vivo”. O que mais me surpreendeu na sua vontade de partilhar foi a recetividade com que acolhe quem demonstre interesse pela arte, convidando-me, desde logo, a ir até Belgais e tocar para ela. Podem imaginar como seria?

O nascimento deste projeto parte também do reconhecimento da arte como essencial para a vida, comunidade e educação. “É essencial para um ser humano aprender a reconhecer-se como um ser criativo. Não só é importante, como é essencial para a vida, porque a primeira arte é a arte de viver. As pessoas estão muito mais educadas para julgar do que para observar. Seria bom trocar todo um julgamento por uma observação, porque a pessoa que está presente e que está capacitada para olhar, ver, ouvir, compreender e observar a situação no momento é uma pessoa capaz de ultrapassar o julgamento. Deixa de usar a forma agressiva de achar que a diferença é má e passa a achar a diferença natural. Aí está capacitado a ser criativo”.

A conversa tomou-me de assalto quando a pianista revelou a sua simplicidade e proximidade na forma de ver a arte e o artista, capaz de me encher de esperança e acreditar que, havendo a oportunidade, todos conseguimos dar vida à criatividade que em nós habita. “Nós nascemos artistas, nascemos com as capacidades. Nascemos não só com um cérebro, mas com um corpo, com uma intuição, com imensas possibilidades. E depois esquecemo-nos que as tínhamos. O talento, no fundo, são as oportunidades. Não me parece que seja só o trabalho. As oportunidades são o talento. A pessoa que tem talento é aquela que teve oportunidade de não se esquecer do seu lado criativo e da sua capacidade em se compreender e compreender o outro. Portanto, somos todos artistas”. É por isso que prioriza a manutenção da diferença, portadora da individualidade de interesses e capacidades, tendo em conta que “a sociedade foi construída de uma forma em que hoje em dia luta contra tudo isso e quer criar pessoas todas iguais e todas sem talento, ou uma grande maioria”.

Afastada de ideias preconcebidas, mostra que uma pianista clássica não está afastada doutros estilos como o jazz, que, aliás, me confessa adorar. Mais uma paixão que partilhamos e combinamos desenvolver em conversas futuras. Defende que “música é música. É boa, ou não o é. É verdadeira, ou não. A música vinda de um artista, seja ele um compositor como Beethoven, seja música eletrónica contemporânea, seja uma voz popular, ou seja qualquer tipo de música. Se é verdadeira e vem da alma da pessoa e do seu espírito criativo, então é indestrutível. E essa, toda a gente compreende. Não precisa de textos”. Em Belgais tem a preocupação de construir uma programação que seja boa para toda a gente, de forma a levar a música instrumental e outras artes até pessoas que nunca tiveram a oportunidade de se cruzar com elas, promovendo a educação pela arte.

Quando o concerto começa, sou surpreendida pela presença de Joana Poejo a ler As Nascentes e a Alemanha e duas jovens, a pianista Lilit Grigoryan e a cantora Beatriz Ventura. Mas é quando Maria João se senta ao piano que embarco numa das viagens mais marcantes da minha vida. Se tivesse de resumir a sensação de a ver tocar ao vivo diria apenas que não sabia que existia um som assim. Não havia notas passadas que contaminassem as futuras, nenhuma nota se apressava ou atrasava, não havia receio de apostar em dinâmicas contrastantes, nem medo dos silêncios em que podia imaginar lamentos soluçados. Por entre as notas deixava escapar uma respiração carregada que parecia alimentar o canto que os seus dedos produzem ao pressionar as teclas. A intensidade com que transporta o público para uma luta interior é acalorada com um domínio melódico sem par. O frenesim das escalas fazem-na agitar-se, desaguando num sorriso que nos introduz a uma posterior fase de acalmia, em que levanta o rosto e fecha os olhos. A jornada musical é agora colorida com esperança, sem medo de transitar entre a acalmia e o sobressalto. Dos seus olhos parecem jorrar narrativas que dão vida às partituras de grandes nomes como Beethoven ou Mozart.

Mais tarde, conta-nos que quando está a tocar piano entra numa espécie de estado que pode ser definido como estar presente. “Não estamos a pensar no que passou, nem no que vai acontecer. O ideal é estarmos presentes”. Surpreende-me ainda ao falar-me da técnica corporal do pianista e revelando que as mãos são tão importantes quanto a respiração, os pés ou as costas quando entregamos a alma à obra de um compositor. Os seus dedos são jovens e velozes. O corpo deixa-se levar em saltos rijos e metronomicamente controlados. Público e pianista estão ligados pela presença que, através da arte, lhes permite ver as coisas da mesma maneira. A música chega ao fim e a sala enche-se de aplausos.

O Centro de Artes de Belgais tem os portões abertos para os que sentirem vontade de partilhar mundos e aprender a reconhecer-se como seres criativos. Este é um projeto antigo que regressa com concertos onde a literatura está presente, e onde já existem planos para colorir o verão com a mistura de várias artes. Nele, a pianista encontrou “um espaço muito bom para o silêncio, para criar. Seja para semear couves, ou árvores, ou fazer música, ou outras coisas”. Os visitantes que percorram o trilho de ar puro até à sua casa podem ouvir os ecos do piano de Maria João Pires que nos espera e surpreende com uma arte singular e com o desígnio de acolher criatividades que todos temos a capacidade de redescobrir.

Esta entrevista foi publicada na Revista Gerador de Março de 2019 que podes descobrir aqui.
Créditos – Texto de Andreia Monteiro e fotos de Andreia Mayer