Graças à Covid a cultura finalmente descobriu o digital. Já não era sem tempo.

E, no entanto, o digital, cuja base é o sistema binário, tem uma história longa de séculos. Egípcios, indianos e chineses usavam sistemas numéricos similares. No entanto, é Leibniz que no século 18 introduz o código binário moderno. Num texto seminal, “Explication de l'Arithmétique Binaire” demonstra como todos os números podem ser representados por 0s e 1s. A partir daí nasceu a computação e essa aventura extraordinária que determina a nossa época. Entre tantos notáveis intervenientes refiro alguns dos meus preferidos como George Boole, que deu origem à lógica Booleana; Ada Lovelace, a primeira programadora; Alan Turing que abriu as portas da ciência da computação e é considerado o precursor da inteligência artificial; Norbert Weiner criador do conceito de cibernética.

No campo específico da criação cultural também podemos encontrar alguns pioneiros da aplicação do digital nas artes. Em 1959 John Whitney realiza uma série de desenhos com um computador montado com sobras de máquinas usadas na II Guerra. No ano seguinte, Desmond Paul Henry cria a primeira máquina de desenho computorizado. Em 1968 o Instituto de Arte Contemporânea de Londres apresenta a exposição “Cybernetic Serendipity” com Nam June Paik, Frieder Nake, Leslie Mezei, Georg Nees, A. Michael Noll, John Whitney e Charles Csuri.

A música é ainda mais avançada pois logo a partir da década de 40 começam a surgir trechos musicais criados em computadores. O próprio Turing parece ter realizados algumas experiências.

O cinema depressa integrou o digital das mais variadas maneiras, mas no teatro e na dança é preciso esperar pela década de 80, altura em que o computador pessoal se disseminou.

Enfim, a cibercultura, extensão do termo de Weiner, tem uma forte expressão há mais de meio século, embora o sistema cultural tarde em reconhecê-lo. Por ignorância, fechamento ou individualismo o meio artístico não só não entendeu as radicais mudanças operadas nas últimas décadas, como frequentemente, com base em preconceitos, se opôs a elas. Não admira, pois, que face à pandemia se tenha encontrado sem capacidade de resposta.

A cultura artística é, para além da ciência, a atividade que mais pode beneficiar com as tecnologias digitais. Porque estas abrem as portas a novas e inexploradas possibilidades criativas, comunicação e interação. Por outro lado, a arte é a área do conhecimento humano a quem cabe ir além da simples busca de lucro. Compete à arte garantir que a tecnologia digital é, para além de criativa, ousada e libertadora, também ética. Ou seja, que visa melhorar as condições de existência dos humanos, mas igualmente das restantes formas de vida e preservar o planeta. As tecnologias digitais permitem realizar a grande simbiose entre homens, animais, plantas, matéria e, agora também, máquinas.

Para isso as artes têm de evoluir. E rápido. O pós-Covid é a grande oportunidade, em particular para as novas gerações. Que devem de uma vez por todas abandonar a velha cultura e abraçar a nova. A cultura da consciência global, da permanente interação entre todos, do respeito mútuo, da criação contínua partilhada. As máquinas e as tecnologias digitais não são inimigas. São os mais extraordinários parceiros.

Quando falo de tecnologias digitais nas artes não refiro simplesmente o uso de aplicações correntes ou de se ter uma presença na Internet e redes sociais. Os artistas, de todas as áreas, têm de intervir ao nível do próprio desenvolvimento tecnológico, na programação, na criação de novas aplicações, noutros usos para a inteligência artificial, robótica, blockchain, 3D, realidade aumentada, IoT, biotecnologia, e o que mais vier a emergir. O campo da criação artística do século 21 é o das tecnologias digitais, mas não na perspetiva dos artistas como meros utilizadores, mas precisamente como criadores.

Aproveitando o impulso dado pela pandemia, ao invés de regressarmos a um passado anti tecnológico ou de baixa tecnologia, como alguns anunciam, devemos acelerar o processo de digitalização da cultura artística. São necessárias mudanças urgentes e concretas, ao nível do ensino artístico, na adaptação e programação dos Museus e outras estruturas culturais, na alteração radical das políticas públicas, na própria definição do que é ser artista hoje. É a nossa missão, é o nosso tempo.

-Sobre Leonel Moura-

Leonel Moura é pioneiro na aplicação da Robótica e da Inteligência Artificial à arte. Desde o princípio do século criou vários robôs pintores. As primeiras pinturas realizadas em 2002 com um braço robótico foram capa da revista do MIT dedicada à Vida Artificial. RAP, Robotic Action Painter, foi criado em 2006 para o Museu de História Natural de Nova Iorque onde se encontra na exposição permanente. Outras obras incluem instalações interativas, pinturas e esculturas de “enxame”, a peça RUR de Karel Capek, estreada em São Paulo em 2010, esculturas em impressão 3D e Realidade Aumentada. É autor de vários textos e livros de reflexão, artística e filosófica, sobre a relação Arte e Ciência e as implicações, culturais e sociais, da Inteligência Artificial. Recentemente, esteve presente nas exposições “Artistes & Robots”, Astana, Cazaquistão, 2017, no Grand Palais, Paris, 2018, na exposição “Cérebro” na Gulbenkian, 2019 e no Museu UCCA de Pequim, 2020. Em 2009 foi nomeado Embaixador Europeu da Criatividade e Inovação pela Comissão Europeia.

Texto de Leonel Moura
Fotografia Bebot