A comunicação social é o que é. Há já algum tempo que perdi a esperança na forma como abordam certos temas.

Na sequência da morte do jovem Mota Jr. estão a fazer uma força incrível para que essa morte esteja associada ao hip hop. Contam histórias que são verdadeiras, outras que são especulações  absurdas com base em nenhum dado real, a não ser o diz-que-disse.

Todos nós sabemos o motivo pelo qual o jovem Mota Jr. perdeu a vida. Não vou entrar em pormenores ou detalhes uma vez que essa não é a minha função. Mas essa associação absurda de que só as pessoas do rap é que morrem de forma violenta, associada a drogas e coisas ilícitas é extremamente preconceituosa e não faz nenhum sentido.

O que me leva a pensar o seguinte: será que as duas jovens algarvias que mataram e desmembraram um rapaz, que até cortaram os dedos para desbloquear o telemóvel, também eram do rap? Também faziam hip hop? Será que o padrasto que matou a menina em Peniche também cantava rap? Também pertencia a algum gang de hip hop?

Parece-me que está mais do que na altura de acabarmos com preconceitos que misturam e querem fazer denegrir a imagem do hip hop, no qual eu estou incluído e visto a camisola.

O presidente norte-americano Ronald Regan, conhecido pela sua luta anti-droga principalmente nas cidades de New York e Los Angeles, com o final da guerra do Vietname, precisou de criar uma  distração interna. O mesmo governo que lutou contra os estupefacientes foi o mesmo governo que ajudou a máquina mexicana e colombiana a introduzir massivamente a droga pelas ruas e becos. Vender drogas nas esquinas para conseguir o sonho americano estava na mente de todos os jovens. E assim nasceu a imagem do rapper que vende droga para se afirmar socialmente.

Os cantores de rap podiam fazer de forma diferente? Podiam ter outra postura em relação às drogas? Alguns têm, outros não. Isso depende tudo do seio familiar. Mas a juventude, seja onde for, manifesta-se pela sua forma desobediente ao sistema. Mas vender estupefacientes era um modo de vida, e um modo de sobrevivência, lá onde o rap começou.

O ouro no pescoço de um jovem rapper num videoclipe tem uma conotação mais negativa do que um qualquer senhor que tem um carro topo de gama mesmo sem a possibilidade de o ter ou de um banqueiro que desvia fundos para as Ilhas Caimão.

Terá só que ver com a rebeldia da juventude? Ou também com a imagem que se moldou com o tempo?

A ostentação é algo que faz parte do nosso ADN, e as jovens do Algarve mostraram isso mesmo. Mataram um amigo, porque ele tinha acabado de receber uma indemnização devido à morte de sua mãe. Foram capazes de desmembrar o corpo por causa do dinheiro.

O meu amigo Dino d’ Santiago, um dia, apareceu num concerto com uma camisola que tinha a seguinte imagem frontal: “Money Roots of All Evil”. Durante algum tempo, ficamos a falar sobre o que essas palavras queriam dizer e a força que têm sobre as sociedades, incluindo esta forma como sentimos inveja pelo dinheiro alheio a ponto de, se necessário, matar para ficarmos com ele. E, depois, dormir descansado com a cabeça na almofada como se fosse tudo normal.

Pergunto-me então se  alguém pensa na família destas pessoas. Se alguém pensa na mãe do Mota Jr? Alguém pensa nas mães destas duas miúdas? Alguém pensa nos familiares da menina de Peniche?

No início do desaparecimento do Mota Jr.,  vi uma entrevista com a mãe dele em que ela falava do esforço dos pais para que eles  e os seus irmãos tivessem uma vida em condições. O pai trabalhava no estrangeiro, e incentivava os filhos a trabalharem lá com ele, para cultivar a ideia de que deveriam ter um trabalho e uma vida em condições. Nenhum de nós consegue imaginar a dor de ter um filho sem paradeiro.

Tudo isto nos leva a sentimentos muito negros e profundos. Quando vejo pessoas a partilharem piadas nas redes sociais sobre a morte do Mota Jr., quando ao mesmo tempo  ficam indignadas com a morte da menina de Peniche,  como se a morte fosse diferente para ambos.

Parece que ficamos mais  aliviados se os preconceitos se encaixarem nas devidas caixas e continuarmos a pensar que aquilo só acontece àquela gente. Mas, por mais surpreendente que possa ser, a realidade não nos tem mostrado isso. Aliás, numa esquina qualquer pode acontecer um cenário destes de desumanidade e desmembramento.

No fundo, impera a máxima de que a galinha do vizinho é sempre melhor que a minha. E, por isso, temos de mostrar, a qualquer custo, aos nossos pares que a nossa vida melhorou ou que temos outro poder monetário.

Mas, somos todos culpados. Criamos esses conceitos em filmes, novelas e séries durante anos e anos, e essas imagens vão ficando connosco, no nosso subsconciente. Se nas famílias não existir uma quantidade de amor suficiente (ou tempo suficiente no meio das lutas diárias) para balançar com bom senso a incutir nos filhos, crescemos a idealizar que “quando for grande quero ser rico”.

O pensamento geral da sociedade é este, sempre foi e sempre o será. Dificilmente será diferente. Talvez quando se voltar a trocar galinhas por batatas, quando voltarmos a um modo de vida mais singelo, talvez acordemos com um desenho diferente para nós.

Enquanto isso, ouvimos a mãe dizer para a filha arranjar um homem rico, ao mesmo tempo que o pai sonha com o um carro topo de gama, crescendo assumindo que o dinheiro é tudo.

Se ao menos o respeito pelo próximo valesse tanto assim …

-Sobre NBC-

NBC é um dos grandes nomes da música actual portuguesa,  e um dos fundadores do movimento hip-hop em Portugal, apreciado pelas suas peculiares performances ao vivo com crossover entre o soulrnbdrum and bassrock e eletrónica e ainda com versatilidade para transformar e criar versões acústicas. O seu último disco, TODA A GENTE PODE SER TUDO, foi editado em finais de 2016. Nascido em 1974 em São Tomé e Princípe, com a influência das suas raízes africanas, Timóteo Tiny é uma das vozes soul mais acarinhadas de Portugal e autor de temas como «Segunda Pele», «NBCioso», «Homem», «Neve», «DOIS» ou «Espelho».  Com a sua discografia já pintou diversas bandas sonoras de filmes e de telenovelas portuguesas, e já pisou muitos palcos em festivais como  NOS Alive, Super Bock Super Rock, Meo Sudoeste, Festival F ou também salas icónicas como Coliseu de Lisboa, Casa da Musica ou Hard Club. Pelo caminho, conta com a edição de um EP, EPidemia (2013) e mais outros dois discos Afrodisiaco (2003) e Maturidade (2008). Já fez digressão com a banda GNR e, em 2015 e 2018, viajou até ao Brasil para uma digressão de cerca 40 dias em estados diferentes estados, tendo passado por lugares como Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis ou Belo Horizonte. Em 2019, participou no Festival da Canção, com a canção “Igual a Ti”, tendo conquistado o segundo lugar do concurso. E assim se escreve mais de 25 anos de carreira.

Texto de NBC
Fotografia de Teresa Lopes da Silva
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