No prédio da Dona Esperança vivem 49 pessoas.

Até há duas semanas as pessoas que habitavam este prédio mal se cumprimentavam e, geralmente, quando partilhavam o elevador, olhavam para baixo sustendo a respiração ou simplesmente olhavam para o telemóvel, como se estivessem a tratar de um assunto urgentíssimo, para evitar um diálogo. O elevador deste prédio é bastante utilizado, transportando as pessoas para cima e para baixo, mas estranhamente silencioso. Talvez todos os elevadores sejam silenciosos a não ser quando transportam crianças endiabradas ou casalinhos apaixonados que querem dar fruto à sua excitação.

O Sr. Faria do 3º esq. é meio surdo e, por isso, sempre que alguém lhe dirige a palavra, aponta para o ouvido e abana a cabeça para dizer que não ouve bem, e a conversa fica por ali. A Raquel vive sozinha no 7º dto. É uma mulher voluptuosa, que se apresenta sempre de saltos altos e óculos escuros, com uma expressão de quem é dona deste e do outro mundo, mas que não fala com ninguém. A Catarina e o marido vivem no 4º dto. Têm três filhos e estão à espera do quarto. Digamos que são a família mais barulhenta do prédio. A Odete mora no 6º esq. Viúva, vive com o seu caniche. Geralmente, sai de manhã para tomar um café na pastelaria do bairro e ir à mercearia do sr. António. Tem um sorriso afável, mas ninguém sabe bem se ela tem família ou não.

Para dizer a verdade, ninguém sabe muito bem quem são as pessoas que moram naquele prédio, quantos vivem em cada apartamento, se são casados, solteiros, viúvos, o que fazem, se são boas pessoas ou não. Nem a mesmo a família que foi viver para lá, há cerca de dois anos, os Sousa, conseguem distinguir os moradores do prédio das pessoas que frequentemente recorrem aos serviços da Clínica ou de Contabilidade localizados no primeiro andar.

A única pessoa que conhece toda a gente é a Dona Esperança, a porteira que, todas as manhãs, varre e lava as escadas, o elevador, recolhe o lixo e recebe as rendas de alguns inquilinos. Ela sabe o nome de todos os moradores do prédio e todos sabem o seu nome. Aliás, ela sabe muito mais do que o nome das pessoas: sabe quantas pessoas moram em cada apartamento, a personalidade das crianças, o feitio dos animais, os hábitos das famílias, sabe as suas profissões, o que fazem durante a semana e ao fim de semana, até sabe quem são os clientes habituais que vão à clínica ou ao contabilista.

A porteira sabe tudo isto porque está atenta, porque se importa e porque, mesmo vivendo no r/c frente, faz questão de cuidar de todos, mesmo que discretamente.

Há cerca de 15 dias que a Dona Esperança deixou de aparecer, de dar os bons dias e as boas tardes, de segurar na porta do elevador e de varrer e lavar a escada. Está doente, em casa, sozinha e sem ninguém para a ajudar ou cuidar dela. Pensou que estava infetada, mas os resultados foram negativos, ainda assim, desconfiada, mantem-se em casa, pois não quer ser responsável por contaminar ninguém. A grande aflição da Dona Esperança não é a doença, são os moradores do seu prédio, que ela considera como a sua “família”. Como vão sobreviver sem ela? Como vão resolver todos os grandes e pequenos problemas do prédio? E se o elevador avariar? Só ela sabe quem é o técnico. E quem levará o correio ao sr. Eduardo que já não tem mão firme para abrir a caixa do correio? E as flores, quem as vai regar e tratar? E as janelas da entrada quem as vai deixar a brilhar?

E eis que lhe tocam à porta de casa. Trimmmmmm

É a Margarida do 3º esq. que veio saber dela e perguntar-lhe se precisa de alguma coisa… compras, pão fresco, algo da farmácia. Obrigada – respondeu. Disse-lhe que tinha tudo, mas pediu-lhe que fosse saber do Dr. Artur do 4º esq., que vive com a esposa, que estava muito doente e que não a podia deixar sozinha. A Margarida, nesse dia, subiu as escadas, pois anda a evitar o elevador. O Rui que mora no 2º esq. cruzou-se com ela e fizeram um gesto comum de afastamento social, quase pareciam dançar uma valsa barroca. Riram-se e apresentaram-se e a gargalhada ecoou na escada. O Rui perguntou-lhe se estava tudo bem e a Margarida falou-lhe do Dr. Artur que talvez precisasse de ajuda. A Sara, que mora no 2º dto. ouviu o eco e veio ao patamar da escada, disponibilizando-se para ajudar. O dono da empresa de contabilidade que estava a chegar ao prédio, apercebe-se do frenesim e ofereceu-se para fazer um excel com os nomes e telefones dos moradores, para que todos pudessem contactar-se entre si, caso fosse necessário. O Marco do 6º dto. é personal trainner e fez saber a todos que, diariamente, dá aulas virtuais de pilates e crossfit pelo Instagram. O casal de artistas, do 5º dto., resolveu convidar todos os moradores a participarem no workshop de encadernação, online, às 15h daquele dia, e a psicóloga da clínica passou a estar disponível para conversar pelo Skype, com todos aqueles que no prédio precisassem de apoio psicológico.

Todos os dias alguém tocava à porta da Dona Esperança para saber dela e para lhe levar uma fatia de bolo ou uma fruta. A Dona Esperança estava bem melhor e o “seu” prédio também. Todos os moradores eram “agora” cooperantes e solidários uns com os outros e todos partilhavam a mesma vontade genuína de que tod@s ficassem bem.

-Sobre a Marta Crawford-

É psicóloga, sexóloga e terapeuta familiar. Apresentou programas televisivos como o AB Sexo e 100Tabus. Escreveu crónicas e publicou os livros: Sexo sem TabusViver o Sexo com Prazer e Diário sexual e conjugal de um casal. Criou o MUSEX — Museu Pedagógico do Sexo — e é autora da crónica «Preliminares» na Revista Gerador.

Texto de Marta Crawford
Fotografia de Diana Mendes