Enquanto fazia scroll down pelo meu Instagram, dei de caras com uma fotografia da fadista Carminho. De rosto reluzente e feliz, observei a fotografia na totalidade e, de mão no seu barrigão percebi que estava grávida, que estava de esperanças… Gosto mesmo dessa expressão.  Que alegria, lembrei-me das sensações que tive quando estava grávida, umas melhores que outras confesso, mas sempre de esperança, e não consegui evitar sorrir e de ao longo do dia sentir uma verdadeira alegria. A longa espera de confiar no que ainda não vemos, tão importante nestes dias… Feliz pela Carminho, relembrando a alegria e o empoderamento que me trouxeram a maternidade, lembrei-me da Joana… Deixem-me contar-vos a história da Joana. 

Faz agora um ano que uma enorme catástrofe se abateu sobre Moçambique. Atingido por dois ciclones, IDAI e Kenneth, as chuvas e cheias que aconteceram na sequência dos ciclones trouxeram morte, cólera, devastação, destruição, fome, junto das populações que foram atingidas nas províncias do Norte de Moçambique. Dados da Unicef indicam que, um ano depois, cerca de 2,5 milhões de pessoas continuam a necessitar de ajuda humanitária… Em Junho de 2019 viajei até Moçambique, fui conhecer algumas das zonas afectadas pelas cheias e, a convite da Associação Helpo, fui a uma aldeia de nome Dombe  ( Manica)  que ficou totalmente submersa. Tenho Dombe no coração, conheci muitos sobreviventes das cheias e ouvi relatos de arrepiar como o do franzino rapaz que lutou com um crocodilo e sobreviveu depois de ter sido mordido 99 vezes em pleno rio, ou do casal de idosos que sobreviveu numa árvore durante 8 dias sem comer, dormir e a conviver com as cobras, ou do rapaz que viu a mulher e filho afogaram-se diante dos seus olhos, mas fiquei particularmente tocada pela história da Joana Johanes. Anos atrás a Joana tinha recebido um conselho da sua sábia avó que lhe dizia que no dia em que as águas subissem ela deveria ir para cima do telhado do celeiro. Grávida de 7 meses e com 2 filhos pequenos, quando as águas subiram, a Joana efectivamente subiu até ao telhado do celeiro, amarrou os seus outros filhos a capulanas, pano tradicional moçambicano, e esperou. Agarrada à esperança que trazia dentro de si e às suas duas esperanças trazidas já ao mundo, esteve três dias em cima do telhado de zinco do celeiro que entretanto se separou e como se de uma jangada se tratasse flutuou neste novo rio e foi arrastada pelas águas com os seus três filhos acabando por embater numa árvore, também ela com cobras, aonde se refugiou até ser salva. Quando conheci a Joana, em Junho, a sua “Ternura”, como carinhosamente chamou ao seu bebé,  já tinha nascido. E ela relatou o que se tinha passado com a maior das canduras e eu perguntei-lhe como é que ela tinha conseguido sobreviver e ela sorriu e disse-me: com Esperança. 

Tive uma experiência um pouco assustadora na primeira vez que dei à luz e dar à luz pode ser bem assustador. Sei também que nem todos podemos engravidar, mas todos podemos escolher ficar grávidos, estar de esperanças de um projecto que vai trazer algo de bom e cheio de luz ao mundo. Projectos adiados que temos a certeza de que iriam mudar senão o mundo, o nosso mundo e a nossa envolvente. Grávidos de uma canção, grávidos de uma ideia, de uma acção, de um objecto, de um telefonema, um ofício, confiando naquilo que, AINDA não vemos.

A esperança tem em mim bons efeitos, fico com mais confiança, o medo diminui e fico mais alegre, por isso neste tempo quero estar grávida, de esperança, de sonhar, ousando esperar, ousando não temer, para depois dar à Luz a algo de puramente bom ao mundo, ainda que simples e singelo.

A longa espera de confiar no que ainda não vemos, tão importante nestes dias…

“E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência, e a paciência a experiência, e a experiência a esperança” 

Resposta à pergunta do título do artigo : Dar à luz a algo de muito bom!

P.S.Roubei este título a um livro que me emprestaram quando estava grávida da minha filha mais velha.

*Texto escrito de acordo com o antigo Acordo Ortográfico 

-Sobre Selma Uamusse- 

De origem e nacionalidade moçambicana, residente em Lisboa, formada em Engenheira do Território pelo Instituto Superior Técnico, ex-aluna da escola de Jazz do Hot Club, mãe, esposa, missionária e activista social,  Selma Uamusse é cantora desde 1999. Lançou a sua carreira a solo em 2014, através da sua música transversal a vários estilos mas que bebe muito das sonoridades, poli-ritmias e polifonias do seu país natal, tendo apresentado, em 2018, o seu primeiro álbum a solo, Mati.  A carreira de Selma Uamusse ficou, nos últimos anos, marcada pelas colaborações com os mais variados músicos e artistas portugueses, nomeadamente Rodrigo Leão,  Wraygunn, Throes+The Shine, Moullinex, Medeiros/Lucas, Samuel Úria, Joana Barra Vaz,  Octa Push etc. pisando também, os palcos do teatro e cinema.

Texto de Selma Uamusse
Fotografia de Rafael Berezinski