Dias passam, semanas passam, mas a memória não desvanece. Quando se fecha (um)A Porta, as possibilidades permanecem em aberto: ficam as impressões, as sensações, as emoções, a aprendizagem de uma edição (enquanto se aguarda pela próxima).

Este ano, A Porta teve a sua quinta edição: um momento de celebração que se fez sentir pela cidade de Leiria. Uma cidade que, durante 10 dias, esteve pintada com as cores da arte, da cultura, de uma programação de alto calibre e com um olhar sobre a inclusão.

Uma euforia, um êxtase, uma energia que transpirava dos corpos vibrantes, das mentes curiosas que se juntaram para o ponto de partida de uma maratona artística como a cidade nunca viu. A bateria pontuava o ritmo acelerado, as teclas desenhavam o padrão electrónico reverberante e as vozes ecoavam sobre a harmonia (sempre) doce. Assim começou a contagem decrescente para as 240 horas d’A Porta e as 24 horas de First Breath After Coma.

O Edifício EDP, (re)designado Casa Plástica, foi o berço de uma das experiências musicais mais intensas dos últimos anos. Um edifício que, durante o ano, não apresenta programação cultural, mas que A Porta transformou num pólo labiríntico de exploração cultural e artística. À entrada, os First Breath criaram uma sala intimista, uma segunda casa. O público entrava, saía; entrava, sentava-se, ouvia, saía. Os First Breath tocavam (sem parar), bebiam, comiam, descansavam, tocavam, comiam, dormiam, tocavam (sem parar). No andar de cima, as paredes e as salas estavam decoradas e preenchidas com trabalhos da exposição colectiva “Nada Muda de forma como as nuvens, a não ser os rochedos”, inspirada nesse mesmo mote de Vítor Hugo para explorar – mesmo que de forma indirecta – uma das características que ressalta da cidade de Leiria: a vertente industrial. Os corredores do labirinto também nos encaminhavam para performances, para concertos. Na sala do fundo do corredor do primeiro andar (depois de umas viradas à esquerda e à direita), tivemos o concerto intimista de Captain Casablanca que, do seu centro musical, iluminado pelas mais diversas cores que induziam um sobressair das sombras das plantas e do seu próprio eu, aproximou-se veemente do público, para um contacto directo com quem entrou, ficou, e ouviu as suas explorações electrónicas. Um abraço. Vários abraços. Um entrelaçamento de caminhos que até o levou para fora da sua própria sala de espectáculo. Um abraço musical e íntimo, que marcou, igualmente, o início de um festival igualmente íntimo, musical – e, digamos, talvez, alternativo.

Alternativo em Leiria, alternativo no país. Não com uma conotação simplória de “diferente, para um nicho”. A Porta é o real (e desejável) alternativo: algo que foge do normativo, algo que foge daquilo que é pré-concebido para tocar a todos, para chegar a todos, para incluir todos. A Porta é fora do centro, mas, pelo poder diferenciador da sua programação, das suas premissas, que pontuam a construção (e comunicação) do festival, o centro fica onde eles estão: Leiria, torna-se, assim, um centro de cultura no país. A Porta é, igualmente, um centro de comunhão entre os mais diversos tipos de público, com uma oferta programática diversificada, que apresenta desde actividades para crianças, actividades cívicas, até concertos – com bandas mais ou menos reconhecidas -, performances, exposições e feiras. 

De manhã, as crianças dominavam o Jardim da Vala Real: construíam, brincavam, aprendiam.  E não eram as únicas: no Centro Cívico de Leiria, jovens e adultos reuniram-se de forma casual para construir algo em comunidade. Tudo graças à iniciativa do Colectivo TIL: um colectivo composto por indivíduos de diferentes disciplinas, que têm integrado a programação de inúmeros festivais – inclusive A Porta – e que procuram estimular uma intervenção cívica e social, questionando e valorizando os lugares. 

No Centro Cívico, criaram uma Horta Comunitária – e, desde logo, foi possível ver os frutos (e também legumes) – dessa iniciativa. Para além da Horta Comunitária, realizaram um Debate Cívico, hastearam estruturas para sombreamento do espaço, criaram estruturas de madeira para (re)utilização de um espaço que, antes da sua intervenção, não constituía um lugar. “Este sítio estava a pedir que fosse feita alguma coisa aqui. A oportunidade existia e é gritante.”, comentava Rui Aristides,  do Colectivo. Do potencial, da possibilidade, desenharam o início de um processo que simplesmente começou ali, mas que – tal como na sua génese -, para a sua continuidade no tempo, dependerá de toda a comunidade. Gonçalo Lopes, outro elemento do Colectivo,  indicou que, ao contrário de alguns dos projectos que realizaram no passado, “desta vez, quisemos fazer algo que marque o sítio e fique e que envolva as pessoas.”

As sombras hasteadas serviram logo o seu propósito: o sol raiava e aquecia a cidade. Uma cidade envolvida não só pelos momentos de criação conjunta e comunitária, mas também pela coexistência e partilha de sensações  – e sons – em conjunto. O ponto de encontro? O Jardim da Vala Real. Com uma programação musical diversa, muitos se juntaram para apreciar aquilo que o Sol, a música e um jardim podem oferecer.

Mas uma melodia continua. Persiste e prolonga-se no tempo e no espaço. Na Casa Plástica, os First Breath continuavam: as ondas de exaustão revelavam-se cada vez mais. De uma forma natural, os músicos encontraram o seu equilíbrio, a sua fórmula de persistência, a sua forma de resistência – musical e artística. Pequenos  toques sabiam a muito mais  do que em qualquer outro momento; pequenas composições – simples, mas sempre belas – revelavam mais do que um simples acto criativo: tornaram-se actos de resistência.

O fim aproximava-se. Gui Garrido, director artístico d’A Porta, não conseguia conter a sua emoção. E não era o único: um público imenso preencheu a sala íntima, repleta de suor, lágrimas e exaustão, para apoiar os músicos leirenses. Para apoiar A Porta. Para presenciar um momento que desde há muito que estava para acontecer. E que, este ano, se concretizou.

“No meio da exaustão, encontras uma espécie de um vento que bate na tua vela de barco pirata que te vai levando, meio à deriva. Mas há uma direcção. E ver os corpos cansados, os olhos já mais carregados. Os ossos já batem de maneira diferente e o sangue já está noutra temperatura. É extraordinário ver como é que transforma o processo criativo, a percepção do que está a ser feito, a tonalidade da música. E é bonito ver como é que o público influencia imenso. Há uma reciprocidade imensa, entre o público e o artista. e, quando a sala está mais cheia, a energia dá-se. e bate”, partilha Gui, tentando fugir às lágrimas, depois de um início magnânimo de algo que, desde há 5 edições, mudou a visão sobre – e mesmo – a cidade de Leiria. Algo que começou com o nascimento do primeiro filho de Gui: “Houve uma injecção de vida com o nascimento do Lucas. E agora tenho dois filhos! O facto de ser pai só me fez querer mudar o mundo para melhor. Porque temos de cuidar das pessoas, do mundo. Queres sempre o melhor para eles e isso também é querer o melhor para todos. E criar o melhor para todos é através da educação para todos. E sou grande apologista da educação pela arte. Esse é um dos pilares que este festival, também com a sua parte mais celebratória, com a sua parte de serviço educativo, com a sua parte de folia e prazer e entretenimento, de atenção, foco e diferenciação.”

Nos últimos minutos das 24 horas de concerto dos First Breath After Coma, tínhamos crianças, bebés, avós, jovens, famílias a bater palmas, a erguer-se para uma transmissão de energia que, no pico da exaustão, parecia já não existir do outro lado. Mas existia. Se os First Breath After Coma cumpriram as 24 horas de concerto, tal deveu-se, em parte, pelo seu génio, pela sua capacidade de (re)invenção, de persistência, pela sua criatividade imensa. Mas também pelo público: uma comunidade diferente, não-fixa, que se formou e se vai formando em cada evento d’A Porta. Momentos e actos de apoio que permitem que este festival exista e seja como é. “A transversalidade do público é das coisas que mais nos interessa. E ficamos felizes que isso seja cada vez mais notório. Não só pela nossa exigência, mas pela nossa grande vontade que isso aconteça. Acho que tem a ver com o que  é que comunicamos, como é que comunicamos, as ofertas programáticas que são delineadas,… São mesmo para todos. Tentamos o máximo que esse slogan de Leiria de portas, um Festival para todos, inclusivo, seja o mais sedimentado possível.”

O apogeu é atingido. Ecos de uma melodia épica, de suor corporal e sonoro, de vozes que ultrapassam as paredes de um espaço. A conclusão. A resolução. O atingir de um objectivo. O ultrapassar do esforço, da exaustão, para a criação de um momento mais belo do que o próprio belo. Um momento de comunhão, de concretização. O final de 24 horas de First Breath After Coma: um fim que deu o início a um Festival de 10 dias de arte e cultura inclusiva, de um festival e de uma cidade de Portas abertas. Gui Garrido é um dos vários elementos que faz com que este festival aconteça: um festival que depende de todos e que é para todos. “Temos noção do que somos mas é com muito orgulho que temos uma equipa que faz tripas coração para erguer este projecto. Eu fico muito feliz que a descentralização exista e fico contente que Leiria seja cada vez mais no mapa por uma série de situações e que venha também em relação a eventos culturais. É fantástico que consigamos estar 10 dias a celebrar  aqui, em Leiria.  É com gratidão que Leiria nos tem aberto as portas e que o público tem vindo cada vez mais curioso. É também isso que nos desafia a desafiar mais. Essa reciprocidade de falávamos aqui. Este festival também tem isso, de levar até à exaustão. Os First Breath After coma estão com 24, nós estamos com as nossas 240 horas.”

Depois de 240 horas, a cidade mudou. A rotina e o normal não são – nem nunca serão – os mesmos. A arte e a comunidade, promovidas (e convocadas) pela Porta, transformam a cidade em algo para além de um campo de potencialidades. Transformam Leiria num pólo de concretização: de sonhos, de desejos, de (pseudo-)utopias – que, na verdade, são puros relances da capacidade de realização e produção através do poder da força e da vontade comunitária.

 

Texto de Teresa Vieira
Fotografia de Idalécio Francisco

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