saibam
depois de torturada
noite e dia
em diversos lugares e ocasiões
numa lenta agonia
esquecida e abandonada
sem quaisquer contemplações
morreu ontem só e calada
a poesia

não mais
a métrica
dos versos alexandrinos
dos piões pelas mãos de meninos
de palavras vãs e sem destinos
dos pecados sublimes e clandestinos
não mais
a fímbria de vestidos roçagantes
beijos febris dos amantes
pregões das comerciantes
chavões de mendicantes
não mais
os ribeiros, riachos, rios,
triângulos eróticos cheirosos quentes frios
alaranjados sóis poentes
dias adocicados e doentes
mãos insaciáveis e frementes
nas coxas roxas do teu corpo

hoje
bastam-me as notícias das nove:
boa noite senhoras e senhores espectadores
senhoras e senhores espetadores
senhores e senhores especuladores
senhoras e senhores espremedores
senhoras e senhores espremidos
senhoras e senhores espetados
senhoras e senhores expectados
senhoras e senhores explorados
senhoras e senhores exploradores
senhoras e senhores doutores
senhoras e senhores bacharéis
senhoras e senhores furriéis

boa noite!
começo este jornal
informando que o Tio Sam morreu.
não houve muita gente no funeral.

enche os corpos e as almas de comoção
este drama singular e universal
pelo menos no primeiro canal.
no segundo
celebro a nova Atena
stripper do download do upload  e upa upa!
no terceiro
viva o novo Apolo, Pã, Pã,
heterossexual, homossexual, bissexual,
transexual, metrossexual,
ou qualquer outra coisa que rime
com coiso e tal

no cagagésimo oitavo
Saravá ao novo Ulisses
herói do futebol e do urinol

e por todos os canais, ribeiros, rios e mares
haja honra.
honra aos capitães da indústria!
e para todos os mais
honra ao sentido do dever!
honra ao horário de trabalho
honra ao sentido cívico
honra ao sentido patriótico
honra ao sentido ecológico honra ao sentido amoroso

na forma de videoclip
nas formas de Pamela Anderson
lipoaspirada
de Elton John
lipoinspirado
de Calvin Klein
lipointeressado
Elton Klein
Pamela John
Calvin Anderson

no Dia da Mãe
no Dia do Pai
no Dia da Criança
no Dia do Leproso
no Dia do Covidoso
No Dia do Pedófilo
no Dia do Canceroso
no Dia da Terra
no Dia do Ar
no Dia do Mar
no Dia da Árvore

pois se amares
por um dia
uma árvore
a lepra
o mar
a lepra
a Terra
a lepra
o pai
a lepra
a mãe
a lepra
a criança
a lepra

se amares
um dia
cada uma e todas estas coisas
a tua vida brilhará!

serás dono da verdadeira poesia
não da outra
metida martirizada massacrada
sacralizada mumificada entalada
finalmente morta e enterrada
em folhas e folhas de papel
em palavras e palavras a granel

se amares
um dia
todas
e cada uma destas coisas

a tua vida brilhará!

como o aço polido
de um automóvel de série
o aço cromado
de uma faca fora de série
o aço inoxidável
de uma cafeteira italiana
o aço inolvidável
de um cinzeiro alemão
o aço formidável
de uma navalha suíça
o aço incontornável
de uma pistola russa
a tua vida brilhará!
e a tua alma
transbordará de emoção:
nada há melhor
que o Parque Disney no Verão

saúde aos altares das novas metáforas
repouso dos humanos corações
nascidos e por nascer
cientificamente previstos e justificados
pela massa cinzenta
dos biólogos nascidos e por nascer
dos políticos nascidos e por nascer
dos economistas nascidos e por nascer
dos sociólogos nascidos e por nascer
dos jornalistas nascidos e por nascer
dos antropólogos nascidos e por nascer
dos juristas nascidos e por nascer

saúde aos corações
cientificamente previstos e justificados
no duocentésimo vigésimo terceiro progama da Fox News
no quadragésimo quinto episódio do StarWars
na quinquagésima sexta série da Marvel
no nonagésimo nono vídeo do youtuber do momento
no twitter viral da semana na fancyapp do dia

corações cientificamente previstos e justificados
repousados comovidos derretidos
ao pequeno almoço almoço lanche jantar
batem compassada e descompassadamente
em toda a gente

catapum catapum catapum catapum
atenção câmara dois
tomada de som três
vamos gravar

catapum catapum catapum catapum
ó que belo ritmo
que bonita forma tão musical e a dançar

catapum catapum catapum catapum
corações cientificamente previstos e justificados
vós sois tão cobráveis faturáveis vendáveis compráveis
afáveis quebráveis irritáveis indignáveis
vós sois tão sentidos sofridos queridos geridos

catapum catapum catapum catapum
ó que belo ritmo
que bonita forma tão musical e a dançar
bate bate bate bate
infatigável fatigável infatigável fatigável

até um dia
como a poesia
sem cobertura doçura ou mesmo formosura

catapum catapum catapum catapum
corações infusões sensações comoções encontrões
catapum catapum catapum catapum
até um dia
como a poesia

estamos no ar estamos no ar estamos no ar

catapum catapum catapum catapum
até um dia
no ar na terra no mar
parar
parar?

até um dia
até um dia
no ar na terra no mar
parar

catapum catapum catapum catapum
záspástráspimpimpimcatrapãopãopão
lá se foi o coração

mas não haja preocupação
outros virão

catapum catapum catapum catapum
záspástráspimpimpimcatrapãopãopão

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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