No meio desta pandemia global, e ao longo do tempo que tem passado, as pessoas, as autoridades e a comunicação social têm falado sobre a necessidade urgente e crítica de equipamentos de protecção individual.

Diariamente ouvimos falar das preocupações sobre a iminente falta de ventiladores e da necessidade de ter mais testes. Muitos mais testes.

Estamos a ser incentivados também a ajudar com o #flattenthecurve (muitas centenas de milhares de infecções acontecerão, mas todas essas não podem acontecer ao mesmo tempo, certo?) através do distanciamento social (e que se deveria dizer “físico”, como já tantas vezes disse e escrevi).

Mas do assunto que ainda ninguém está ainda a falar por cá, é sobre a potencial crise de saúde mental que os profissionais de saúde enfrentam na linha de frente da pandemia.

Para um observador de fora, os profissionais de saúde parecem pessoas fortes e resistentes perante o  desconhecido. Inspiram-nos ao trabalhar todos os dias com grande risco pessoal para manter os outros em segurança. Para tratar de quem está doente. Para NOS tratar.

Como conselheira e terapeuta, passo alguma parte da minha vida a observar e a ouvir. Sei que uma aparência calma esconde muitas coisas por demasiadas vezes. Estou habituada a entender as entrelinhas e a cuidar do que não parece existir.

E esta é uma situação em que uma grande generalidade de profissionais de saúde se obriga a “esconder”. Não sei se só dos outros, se também de si próprios, mas é certo que muitos destes profissionais estão a viver em permanente estado de contenção de emoções e sentimentos porque estão muito ansiosos e têm medo. O tal MEDO de que não se fala.

Não o sentem da mesma forma que grande parte da população. Sentem-no mais ainda porque lidam em permanência com a doença, a morte, o sofrimento e a aflição de familiares. Ali, mesmo ao seu lado, todos os dias e noites.

Não dormem bem, choram mais do que imaginamos e, contam-me familiares, o sentimento de viver em ameaça permanente, com uma tristeza e ansiedade inerentes a tempo inteiro, leva a uma exaustão psicológica e física sem nome.

Para diminuir riscos, muitos profissionais de saúde decidiram isolar-se fisicamente quando podem ou quando os deixam. Afastam-se dos seus familiares para os proteger e isolam-se nas suas próprias casas, em quartos alugados ou mesmo em auto-caravanas.

Esta atitude vai acentuar ainda mais a falta de apoio social - em nome de ajudar e proteger os outros – e pode durar meses. Embora altruísta, é bastante solitária, convenhamos.

O facto é que em nada os ajuda a manter a sua saúde mental já difícil e sob grande stress.

Para apoiar os profissionais de saúde é necessário que aconteça uma intervenção imediata e muito mais massiva e abrangente para ajudar a proteger a sua saúde mental e não apenas a saúde física. Tal  como já foi feito na China e nos Estados Unidos (com o apoio de algumas Universidades que contribuiram com trabalho voluntário de psiquiatras porque consideram urgente ter medidas preventivas junto dos profissionais de saúde). Medidas preventivas como e para quê?

Para redução do stress e prevenção de burnout, medidas de apoio a “crises de momento”, linhas directas de apoio só para estes profissionais – a Ordem dos Psicólogos já providenciou uma recentemente, com a a DGS, mas é necessário mais – com telepsiquiatria para terapia e medicação se necessário.

É preciso, tal como na China, que se reconheça que o tratamento de saúde mental não deve ser uma coisa que aconteça apenas em estados de urgência ou crise, mas sim que deve continuar disponível por muito tempo no futuro. Esse futuro sem tempo de que falamos agora.

Estas mudanças não acontecem do dia para a noite. O nosso sistema de saúde mental é profundamente marcado por falta de apoio político, imensa falta de pessoal e não está de forma alguma preparado para gerir a complexidade de problemas de saúde mental nos prestadores de serviços de saúde e nos cidadãos em geral após uma tragédia em massa.

Devemos pensar em maneiras de impedir a deterioração da saúde mental e, ao mesmo tempo, criar formas inovadoras de direccionar grupos de risco, principalmente os profissionais de saúde.

O problema é que os profissionais de saúde que estão a salvar vidas não podem dar-se ao luxo de esperar porque, a qualquer momento, podem sucumbir ao vírus ou até cometer suicídio. A saúde mental não pode ser uma reflexão tardia quando lida com uma pandemia.

Demorou-se de mais para começarmos a falar sobre como proteger os profissionais de saúde fisicamente. Vamos falar sobre saúde mental agora - e fazer melhor desta vez.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Ana Pinto Coelho-

É a directora e curadora do Festival Mental – Cinema, Artes e Informação, também conselheira e terapeuta em dependências químicas e comportamentais com diploma da Universidade de Oxford nessa área. Anteriormente, a sua vida foi dedicada à comunicação, assessoria de imprensa, e criação de vários projectos na área cultural e empresarial. Começou a trabalhar muito cedo enquanto estudava ao mesmo tempo, licenciou-se em Marketing e Publicidade no IADE após deixar o curso de Direito que frequentou durante dois anos. Foi autora e coordenadora de uma série infanto-juvenil para televisão. É editora de livros e pesquisadora.  Aposta em ajudar os seus pacientes e famílias num consultório em Lisboa, local a que chama Safe Place.

Texto de Ana Pinto Coelho
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