Entre a Mouraria e a Graça, o Martim Moniz e o Castelo, há um espaço sem nome, uma casa pequena cor-de-rosa que passa despercebida a quem passa. Encontrei-a numa noite de Santo António, quando descia a rua Marquês Ponte de Lima. Nessa noite de festa, entre turistas e bairristas, reparei numa fresta. Uma porta verde semiaberta com muitas cores lá dentro. Espreitei e logo alguém me chamou para entrar. Estavam dois músicos a tocar, Tcheka e Tito, e pessoas ao redor. A música, como eles, era cabo-verdiana.

Eram amigos de infância, e há décadas que não se encontravam. Mas, também naquela noite, horas antes, se reconheceram. Tcheka estava em Lisboa num período entre concertos. Tocara em Tavira, nos Serões de Primavera, e seguiria para o festival ecomusical Azores Burning Summer, em São Miguel, na companhia de Mário Laginha. Tito estava no espaço que diz existir há muito no seu pensamento e que, surgindo uma possibilidade monetária, ganhou forma. Uma forma improvisada. Era um espaço abandonado e que foi reconstruído pelas suas mãos, com coisas que ia encontrando na rua. Fala daquela sala como de si mesmo. Não sabe o que é, vive do improviso: “Nunca me concentrei numa coisa. Todo o mundo quis ser doutor. Nunca soube o que queria ser. Nunca me preocupei com isso.”

Entre as paredes com fotografias de Cesária Évora, Noberto Tavares, Ildo Lobo, Katchás, Mayra Andrade, Elida Almeida, Orlando Pantera, emolduradas com tecidos cabo-verdianos cor de laranja, tapeçarias e guitarras de distintos tamanhos, o balcão em madeira, com a bandeira de Cabo Verde pintada, onde se encontra a garrafa de grogue (aguardente de cana de açúcar, conhecida também por rum) e de ponche (combinação de grogue e mel, podendo assumir diferentes sabores), bebidas típicas cabo-verdianas que oferecem o acolhimento a beber, acontece a música e a conversa, ambas com atmosferas muito particulares.

"Criei este espaço para responder a uma estrutura de negação. Caso contrário abriria um bar", diz Tito.

A mãe de Tito tinha uma taberna em Santiago, onde muitos músicos, vindos de vários pontos do país, se encontravam. Nesse contexto, conheceu alguns dos rostos das suas paredes. Tito cresceu com o desejo de ter um espaço onde a música se partilhasse. Mais tarde, quando, aos 19 anos de idade, saiu do país, que “sabe a terra quando é época seca”, e um novo mundo lhe é rasgado, conhece outro desejo, o de falar do passado que não vem nos livros, mas que “está na cara, nos olhos, no ar”, o qual é objeto de “uma recusa não falada, oculta, sombria, interna”. A história que, quando passa ao lado na rua ou se senta perto num banco de metro, faz com que as senhoras escondam a mala.

“Em Cabo Verde, as pessoas não nascem pretas.” Em Portugal, tornam-se pretas. Tito viveu este confronto quando conseguiu documentação portuguesa e veio para Portugal cumprir serviço militar em Tancos. Dessa altura, conta: “Não sabia nada de Portugal nem português. O meu nome escrito é Vítor, e o meu apelido é Gonçalves. Na tropa, todo o militar é tratado pelo apelido, mas chamavam-me ‘bumbum’ ou ‘preto’. Como eu vim de Cabo Verde, aquilo era um sofrimento enorme. Só me passaram a respeitar quando levei uma guitarra. A maior parte do tempo estava a chorar. Existe um preto interno.”

Nasceu em Lisboa, a cidade que “sabe a loucura, a noite, a cerveja, a bares”, em Outubro de 1974. Com o eclodir da independência das colónias, já pressentida pelo desenvolvimento da luta armada, declarada por Amílcar Cabral em Janeiro de 1963, o pânico havia-se instalado nas comunidades africanas concentradas na margem sul, pois o seu povo estava a lutar contra os portugueses. Em 1975, a família de Tito recebeu uma carta do governo português, na qual era referido que teria de voltar para Cabo Verde e seria transportada de avião. Contudo, quando chegou ao aeroporto, foi-lhe dito que afinal iria de barco. Com um ano de idade, fez dez dias de viagem rumo à ilha de Santiago, onde cresceu. Todavia, o fantasma do colonialismo impedia um crescimento enraizado e preservava uma fenda, uma fronteira, uma ferida. Tito sentiu-o na escola, onde “só se estuda coisas ocidentais. Existe um interesse do africano em não se conhecer, em se rejeitar, rejeitar ate à eternidade”, conta. As histórias africanas foram eliminadas e só são lidas a partir da história dos colonizadores, que as deixa nas catacumbas da História. Consequentemente, têm início com a escravatura. Também no caso da língua havia um abismo entre a sala de aula e a vida, a vida lá fora, a da rua, da casa, das canções e dos corpos que habitavam tudo isso. A língua nacional é portuguesa. “Desde o início, foi obrigatória. Obviamente, não temos orgulho e, por isso, há uma recusa”, diz Tito, que vê aí reminiscências da escravatura, pois entende-a como “uma destruição total, da cultura, da educação, da língua”. Esta não lhe fora ensinada, mas aprendeu-a: “Aprendi a escravatura pela história que me é contada pelo próprio corpo.” Olha para a sua pele, um testemunho impossível, porque a testemunha integral não pode testemunhar, habita a lacuna, que é a morte do discurso, diria Giorgio Agamben, e aponta uma memória muda, inenarrável: “Cabo verde foi um laboratório humano. A mistura foi uma violação. Não tivemos uma origem digna. Homens portugueses foram para Cabo Verde para violar as negras. Somos o país mais mestiço do mundo, fruto de uma barbárie sexual”. Tito explica a estratégia onde assentou esta política: “Netos de portugueses são cabo-verdianos. Quando um cabo-verdiano tem um avô português, qual a essência que defende? Isso era intencional. Cabo Verde não iria fazer uma guerra contra Portugal porque seria uma guerra contra si próprio.”

Ni, amigo de Tito, passa longos serões nesta casa, que ajudou a construir e que se tornou o seu canto em Portugal, onde vive há dezasseis anos, no qual diz sentir “uma combinação da harmonia, da fraternidade, do respeito, da alegria e da inteligência”. Prefere descrevê-lo como um espaço de educação, que situa além da cultura, pois trata-se de um contacto com a vida na sua forma mais profunda, que é a experiência do singular, da margem e do fora, “as coisas que não se falam noutros sítios, nem na universidade, nem na televisão”. A vontade que, na calçada portuguesa, guia os seus passos para esta porta verde pequenina é a de “sentar, conversar, ouvir música, conviver, cantar”.

A maioria das pessoas que aqui se encontram são músicos cabo-verdianos, em contexto de jam session, onde a música tradicional cabo-verdiana, morna, batuque e funaná são o principal balanço, bem como estrangeiros, muitas vezes integrados num programa intitulado “Caminhada Musical”. Este é dinamizado por Tito, que abre a cortina para a africanidade em Lisboa, através da gastronomia, oferecendo bebidas cabo-verdianas e vinho tinto, cachupa, queijo, pão e azeitonas, da música, do diálogo, que visa dilatar compreensões e iluminar interrogações acerca do lugar de África no pensamento do mundo e de um percurso pedestre. Este último dá a ver a nudez oculta nos roteiros turísticos e mesmo no quotidiano dos lisboetas.

Num final de tarde, partimos desta mesa e subimos até à Graça, onde, na igreja setecentista, situada no Mosteiro da Graça, se encontra a figura de Nossa Senhora do Rosário, que se apresenta, na maioria dos altares de Portugal e do Brasil, ladeada por quatro santos negros, que representam a sua relação preferencial com os povos africanos. Trata-se de Santo António de Noto e São Benedito de Palermo, santos sicilianos descendentes de escravos, venerados desde meados do século XVI, e Santo Elesbão (século VI) e Santa Ifigénia (século I), etíopes.

Levamos cerca de vinte minutos entre o Largo da Graça e o Campo Mártires da Pátria, onde, entre 1831 e 1891, se encontrava uma praça de touros. Na praça de touros do Campo de Sant’Ana, tourearam muitos africanos como Pai Paulino, cujo busto da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro (1894) se encontra no museu dedicado ao artista. Membro de várias associações religiosas, Pai Paulino era um defensor dos direitos dos africanos e das africanas, intervindo como gestor de conflitos onde estas pessoas estavam envolvidas, intercedendo junto dos poderes públicos, assim como mobilizando a comunidade para auxiliar os seus membros na compra das cartas de alforria e de liberdade. O seu prestígio não valeu um tratamento diferente do seu cadáver. Foi enterrado numa vala do cemitério do Alto de São João, seguindo a tradição, que se mantinha desde o século XVI, que excluía os africanos da forma de enterro praticada pelos portugueses. Andresa Nascimento, nome mais tarde aportuguesado para Fernanda do Vale, conhecida como a “Preta Fernanda”, nascida na ilha de Santiago, uma das primeiras cavaleiras tauromáticas em Portugal, também associada a casas de prostituição, pisou com força este chão. Atualmente, no mesmo espaço, encontra-se a estátua do Dr. Sousa Martins, distinto médico e professor português de origem africana, realizada por Costa Motta, entre 1904 e 1907, a qual é centro de culto, pois trata-se de uma figura que muitos reconhecem como santo. Ali perto, na Rua das Pretas, concentravam-se estalagens de africanas forras.

Descendo rumo ao Rossio, podemos atravessar a praça de São Domingos, a praça africana do centro de Lisboa, onde se situa a igreja de São Domingos, sede da confraria de Nossa Senhoria do Rosário dos Homens Pretos, muito importante na protecção e integração social e religiosa dos africanos e africanas e à qual pertencia Pai Paulino. Era o espaço, por excelência, da comunicação, onde estas comunidades recebiam as notícias.

Seguimos até Alfama. A Rua São João da Praça era mais um ponto de venda de escravos e o Chafariz d’Rei dividia-se em bicas para brancos e bicas para negros, de modo a que as águas não se misturassem.

Caminhamos no sentido do rio. As embarcações com os escravos chegavam ao Terreiro do Paço. Em 1444, Portugal trouxe o primeiro grupo de pessoas escravizadas (cerca de 235) para a Europa, o qual desembarcou em Lagos. No Largo do Pelourinho, eram leiloados. Na praça D. Luís I, no Cais do Sodré, está a estátua do Marquês de Sá da Bandeira (1884), de Giovanni Ciniselli. Na parte inferior do monumento, podemos observar uma figura feminina com grilhetas no tornozelo, cujo modelo foi Fernanda do Vale, e uma criança, para quem aponta o estadista responsável pela abolição da escravatura.

Subimos até ao Miradouro de Santa Catarina. Aí, corpos de escravos eram lançados, rebolando até ao Tejo. Descendo pela Calçada do Combro, encontramos à nossa direita a Igreja de Santa Catarina. No seu interior, podemos ver uma retablete de Nossa Senhora do Rosário com um casal católico negro. Segundo a investigadora Isabel Henriques, a realização do matrimónio católico por parte dos africanos constituía uma forma de adquirir estatuto reconhecido pelos portugueses, assim como de se ligar aos seus ancestrais pela via do ritual.

Continuando a descer, deparamo-nos com um largo, que divide duas ruas, a Rua Poço dos Negros, à esquerda, e a Travessa do Poço dos Negros, à direita. Nesse largo, situa-se a Cruz de Pau, onde eram infligidos os castigos aos escravos. Em 1515, D. Manuel I ordenou a construção do Poço dos Negros, com a finalidade de depositar os corpos dos escravos falecidos na cidade, de maneira a “combater os miasmas pútridos”, uma vez que muitos morriam neste posto de tortura e a sua decomposição ficava a descoberto.

Mais à frente, estamos no antigo Bairro do Mocambo, zona que passou a ser chamada de Madragoa na segunda metade do século XIX. Foi criado por alvará régio em 1593. A escolha de tal designação para um bairro é um fenómeno raro na Europa, pois provém do umbundo, uma língua nigero-congolesa, muito falada em Angola. “Mocambo” significa “pequena aldeia”, “lugar de refúgio”. O intuito era organizar os africanos na cidade, conferindo-lhes um espaço habitacional, que, naturalmente, reforçou os laços comunitários entre os residentes, sobretudo livres ou forros, permitindo-lhes uma vivência mais próxima das raízes, pois aqui praticavam as suas festas e rituais. Dedicavam-se aos trabalhos domésticos nas casas das famílias portuguesas, às tarefas de manutenção e higiene pública e a atividades ligadas ao mar. Muitas eram exclusivas de determinado género. As mulheres estavam encarregadas do serviço doméstico, do comércio porta a porta, principalmente de bens alimentares e de carvão, dos despejos de detritos (as chamadas calhandreiras) e da distribuição de água. Os homens dedicavam-se à construção naval, à pesca, a ofícios da marinha, à ferraria, olaria, carpintaria, tecelagem, por exemplo.

Continuando com o rio, chegamos a Belém, onde teve lugar a Exposição do Mundo Português, que decorreu entre 23 de Junho e 2 de Dezembro de 1940. Entre o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém, o regime do Estado Novo celebrou a data da sua fundação, bem como da Restauração da Independência, através de uma projeção do passado da pátria, profundamente marcada por uma atitude de exaltação, como é caraterístico dos regimes nacionalistas. A exposição serviria para afirmar a sua força, constituindo-se o seu maior instrumento de propaganda. O programa passava por cortejos, serviços religiosos, desfiles, discursos, congressos, exposição de obras artísticas, construção de monumentos, requalificação urbanística. A exposição estava dividida em três áreas: História de Portugal, colónias e etnografia. O Jardim Colonial (atualmente, Jardim Tropical) inseriu-se na segunda, servindo para uma instalação de aldeias africanas, onde era reconstituído o habitat dos colonos. A este respeito, a investigadora Isabel Castro Henriques cita O Primeiro de Janeiro, de 2 de Julho de 1940, no Roteiro Histórico De Uma Lisboa Africana, Séculos XV-XXI: “Jardins zoológicos humanos, como têm sido designadas estas ‘aldeias’ privilegiavam a oposição entre o nu e o vestido. Os africanos deviam aceitar uma partilha que se fazia assim entre aqueles que se vestiam, não sem macaquear os brancos – cabo-verdianos, são-tomenses, raros guineenses, sobretudo os islamizados – e os que se mantinham ‘fiéis’ à nudez, ou eram obrigados a manter o corpo quase nu como os angolanos, os moçambicanos e os ‘animistas’ guineenses. Esta ‘aldeia’ da Exposição de 1940 mostra os bijagós da Guiné, entre os quais uma mulher seminua penteando outra: trata-se de uma cena muito repetida nas imagens fornecidas aos portugueses, que permite sublinhar a preguiça dos pretos, sempre sem fazer nada, dedicando-se apenas às futilidades. A parelha formada pelos administradores e pelos missionários tornava-se, desta maneira, a única capaz de assegurar a mudança dos corpos e por isso dos comportamentos pouco ‘civilizados’ dos africanos.”

Regressamos ao espaço de Tito, que parece adquirir uma maior densidade. Da invisibilidade que os lugares carregam emerge uma obscuridade. Ao contrário das outras populações que vieram de livre vontade para Portugal, os africanos e as africanas foram transportados de forma forçada e suportaram o “progresso” de um país que lhes tirou o seu e impediu a expressão de uma pátria interna. “Portugal tem a riqueza que tem por causa da escravatura. Não vamos negar isso. Onde está o dinheiro da escravatura? Onde está a indemnização? A piedade? Porque ninguém disse ‘Parem com isso!’?”. Estas questões rodeadas de silêncio ficaram em suspenso na sala. Mais tarde, Tito parece responder quando diz: “África é origem, segundo a ciência. Mas, ao mesmo tempo, naquela altura o homem era animal. É a origem do primeiro ser humano, mas não é a origem da ciência e o ser humano nasceu com a ciência. Acreditar na evolução tem que ver com o branco como principal.” Esta ordem de pensamento ilumina uma possível justificação: “Esta sociedade foi incutida a pensar que o preto é um animal e, a partir daí, não houve sentimento. Não é por acaso que a escravatura durou séculos.”

Os africanos e as africanas estiveram sempre presentes, muitas vezes sem presença. Esta estrutura criou-lhes uma imagem de si próprios: “Quer fazer-te entender que nasceste para servir.” Tito afirma que há um racismo escondido e conta-nos diálogos recorrentes. “Há dias, disse a um taxista que Portugal é o país onde se chama ‘preto’”. Ele respondeu: “Não chamo por mal…”. Ao que retorquiu: “Mas já me perguntaste se eu fico bem quando me chamas isso?” Não há nenhum interesse em perguntar duas vezes: “Será que é a melhor forma de chamar?” Há a reação: “Isto não é problema.” Mas tudo é dois. Tu chamas, e eu tenho de consentir o que me chamas ou não. Referem-se ao preto e esperam que eu acompanhe. Parece um querer que tu sejas aquilo, ali”. “Há vinte anos era pior” é outra expressão portuguesa lapidar quando o racismo é tema. Tito comenta-a: “Isso faz-me sentir mais triste ainda. Quer dizer que o respeito é uma coisa que se espera. Quer dizer que eu tenho de ter esta paciência até um dia ter respeito na vida. Não acho muito saudável. Ficas nesse dilema: conviver sabendo que há uma ignorância cultural.” Quando alguém lhe diz que não se importaria de ser tratado por branco, é outra situação exemplar desta lógica. Tito esclarece: “Uma coisa é chamar alguém de branco, outra de preto. Ser preto carrega um sentimento histórico. O preto tem África, que é o continente mais sofrido.”

Há uma ligação profunda entre a cultura portuguesa e cabo-verdiana, que passa pela língua, pela gastronomia, pela história, pelo corpo. Tito não diz que estamos ligados, mas que “somos ligados”. Contudo, “houve uma necessidade dos negros, mas nunca uma aceitação”, reflete. No caso da cozinha, por exemplo, são inúmeros os restaurantes onde mulheres cabo-verdianas, como a mãe de Tito, confecionam pratos tradicionais portugueses. “Estas mãos têm de ser assumidas. Estão sempre dentro da cozinha. Se espreitares no quadrado, encontra-las”, diz-nos.

“Aprendi que, para se viver a vida, tem de se tocar o preto, porque é a base. África é a base da humanidade.” Neste sentido, sublinha a importância de formação sobre africanidade na escola, à semelhança de outros países da Europa, como França, Alemanha, Inglaterra. Trabalhou como empregado de limpeza numa escola em Inglaterra e lembra-se de ver posters de Bob Marley, Mather Luther King, bem como de outros negros que se destacaram na história mundial. Em Portugal, ainda há a imagem de que o cérebro do africano “é pequenino, enquanto os músculos são big”.

Mas Tito ressalva “que os ‘portugueses’ não existem. Quando digo ‘portugueses’, digo uma estrutura, uma atitude”. É para responder a esta estrutura de negação que criou este espaço, já identificado por vizinhos como “o sítio do preto”, e não um bar, como tantas vezes sinaliza.

Tito, que vive pelo mundo, já tendo trabalhado nos Estados Unidos da América, em França, na Holanda, Inglaterra, Bélgica, Alemanha, Áustria, Suíça, assumindo diversas profissões, como músico, operário fabril, pedreiro, não sabe onde estará esta casa daqui a um ano. Todavia, ainda tem um projeto para Lisboa, o de realizar um roteiro turístico pelos guetos da cidade. “As pessoas não têm noção de que, dentro de 10 minutos, estão fora de Portugal. É um território à parte na mentalidade portuguesa”, comenta.

Tal iniciativa fala-nos que “a mudança já está no ar. Está no ar e temos de tocar”, alerta-nos Tito que, juntamente com Ni, tocou “Angola”, de Cesária Évora, música que, no seu interior, guarda os versos desta longa história com esperança de se tornar uma conversa: “Ess convivência dess nhôs vivência/ Paciência dum consequência/ Resistência dum estravagância”.

Depois, Tito perguntou o que poderiam tocar a seguir. Ni respondeu: “Uma morna.” Sob a noite que vai calando as vozes lá fora e sob a luz baixa do candeeiro com abajur de verga cá dentro, os dois amigos, sentados, frente a frente, em bancos de madeira pintados de vermelho e verde, de olhos fechados, interpretam “’m Cria Ser Poeta”.

Texto de Raquel Botelho Rodrigues
Fotografias de Raquel Botelho Rodrigues

Se queres ler mais notícias sobre a cultura em Portugal, clica aqui.