O Rivoli — Teatro Municipal do Porto, abriu as portas na manhã do dia 24 de abril para um preâmbulo do que por lá acabaria por acontecer mais tarde. À noite dava-se o arranque do festival DDD + FITEI com Looping: Bahia Overdub (DDD) e inaugurava-se a exposição de fotografia de Rui Palma, também integrada no festival; de manhã Tiago Guedes, diretor artístico do DDD, e alguns dos artistas que mostram as suas criações em breve receberam a imprensa no Café Rivoli para uma conversa descontraída, acompanhada por um brunch. Esta edição do DDD põe em destaque a dança contemporânea brasileira e traz para Portugal os coreógrafos e as suas vivências, materializadas em criações nas quais “o corpo em movimento é a matriz da comunicação e da cognição” — como nos diz a ensaísta brasileira Helena Katz, numa citação escolhida por Tiago Guedes para o seu texto no livro da programação do DDD+FITEI.

Juntaram-se ao brunch para falar sobre as suas criações na primeira pessoa os brasileiros Filipe de Assis (Looping: Bahia Overdub), Marcelo Evelin (A Invenção da Maldade), Alice Ripoll (Acordo e Cria) e os portugueses Joana von Mayer Trindade & Hugo Calhim Cristóvão (Dos Suicidados — O Vício de Humilhar a Imortalidade), Hélder Seabra (Dawn), Clara Andermatt (Parece que o Mundo) e Rui Palma (exposição Em Casa).

Começa em abril o DDD, que se estende até maio e cede os palcos ao FITEI.

Sentados pelas mesas do Café Rivoli, artistas portugueses e brasileiros falaram sobre as suas criações

Dias da Dança: uma espécie de patchwork

 Entre os dias 24 de abril e 12 de maio as salas de espetáculo (e não só) do Porto, de Gaia e de Matosinhos vão receber uma programação dedicada ao DDD. Esse mesmo programa divide-se em várias secções — DDD In, DDD Out, DDD Pro e DDD Extra, que podes perceber melhor em que consistem aqui — numa espécie de manta feita em patchwork que, quando finalizada, apenas faz sentido pela junção de todas as suas partes. A soma dá um total de 42 espetáculos dentro e fora de portas, 21 atividades extra para todos os públicos e 6 workshops intensivos para profissionais.

É na Semana + que o DDD e o FITEI se encontram para assumir publicamente a relação que começaram em 2019. De 8 a 12 de maio, cerca de 20 artistas nacionais integram um programa que junta a dança ao teatro, mas que também conta com dj’s e uma exposição de fotografia de Rui Palma, Em Casa.

Pelos diferentes pisos do Rivoli encontram-se as fotografias que Rui Palma tirou Em Casa destes 20 artistas, num lugar que lhes é íntimo e representa, de alguma forma, a sua intimidade. “A ideia foi fugir ao registo mais institucional e em estúdio, por isso é que fui à casa deles fotografá-los com o que pudesse haver de interessante nas suas casas e na sua intimidade”, explica Rui Palma ao Gerador. O fotógrafo explica que “há um à vontade no momento de serem fotografados porque muitos deles são coreógrafos ou bailarinos e há um à vontade com o corpo que cria mais abertura da parte deles”, “mesmo sabendo que depois essa intimidade ia estar visível no espaço público do teatro”.

Rui Palma salienta que este tipo de fotografia acaba por ser importante “para tirar os artistas do contexto do espetáculo”, mostrando-as nas suas casas, um lugar onde à partida ficam “desprotegidas”. “Eu acredito que ao fotografarmos as pessoas na sua intimidade as pessoas não se sentem mais confortáveis porque ficam desprotegidas, estão rodeadas das suas coisas e do que lhes é íntimo, e acabam por estar mais sinceras”. Enquanto ia olhando, ao longe, para o núcleo de fotografias que ficou exposto no café Rivoli relembrou o processo até à captação dessas fotografias: “A produção enviava-me o contacto, eu deslocava-me até à casa das pessoas, tocava à porta e explorávamos as possibilidades dentro da casa, para que não fosse só um retrato mas potenciasse também uma imagem que também seja interessante por si só. Era um encontro às cegas”, explica entre risos.

Rui Palma fotografou os 20 artistas portugueses que integram a Semana+ nas suas casas 

Além das fotografias “que estão espalhadas pelos diversos recantos do teatro” e que podem ser “descobertas pelas pessoas enquanto esperam para ver um espetáculo”, vai ser lançado um catálogo da exposição que inclui todas as imagens no formato de postal, com a apresentação e o contacto dos artistas, para entregar aos programadores internacionais que vêm ao Porto na Semana + conhecer os artistas portugueses que vão estar em destaque e se mostram como são, no palco e Em Casa.

Quando os Dias da Dança são um regresso a casa

 Se por um lado na exposição de fotografia de Rui Palma os artistas da Semana + despem personagens para se mostrar a si mesmos Em Casa, há quem tenha regressado a casa para, pela primeira vez, integrar a programação do DDD. Hélder Seabra, que apresenta Dawn nos dias 29 e 30 de abril com a KALE Companhia de Dança, cresceu em Gaia e lá deu os primeiros passos naquela que viria a ser a sua área profissional. A viver em Antuérpia atualmente — e pede desculpa pelo seu “português enferrujado” — visita o Porto nas férias e por pouco tempo, sem ter tempo para perceber de que forma é que se move hoje a cidade que também o viu crescer e como é que está a olhar a dança atualmente.

“A pergunta que eu tenho feito a mim mesmo durante esta período tem sido Como é que é voltar ao Porto depois deste tempo todo? e percebo que me tenho sentido quase um turista. Volto à minha cidade, vejo que há muitas coisas que mudaram e que apesar de representarem aquilo que eu já conhecia, não são a mesma coisa”, conta Hélder. “Houve aquele momento em que o laço foi um bocado quebrado e existe uma evolução da minha parte, mas também há uma evolução do outro lado — as pessoas evoluem e com elas os sítios também evoluem.”

Hélder vê no confronto e na forma como as pessoas se relacionam com os lugares onde já viveram um ponto de partida para a criação deste espetáculo. Trouxe consigo Emily McDaniel e Stijn Vanmarsenille, duas pessoas com quem se cruzou no seu percurso profissional e que hoje fazem parte da sua vida como namorada e amigo. A experiência dos dois no Porto também foi importante para Hélder perceber as múltiplas formas do confronto que pretendia explorar: “Levei a Emily à casa onde eu nasci, mas é um bocado estranho porque já não é bem a casa onde nasci e estava a tentar contar-lhe as experiências da minha infância mas há peças que já não estão lá, como se se tratasse de um puzzle onde faltam peças para que se consiga completá-lo.”

Hélder Seabra trouxe consigo Emily McDaniel (à direita), bailarina e sua companheira

Conforto e Confronto são as palavras-chave de Dawn, o novo projeto de Hélder Seabra que surge a convite da KALE Companhia de Dança, que também traz um elemento da sua vida em Gaia para cena: Joana Castro. Joana, atualmente diretora da KALE, estudou com Hélder no ensino regular e no Ginasiano, onde Hélder se iniciou na dança. “Há muito tempo que eu tinha vontade de fazer este retorno dos artistas que se formaram naquele espaço e que cresceram e se afirmaram, e dar-lhes a oportunidade e o reconhecimento de voltarem a casa e fazerem alguma coisa num outro papel dentro de casa”, conta Joana. Hélder remata, dizendo que “este regresso também é um agradecimento” a todos aqueles que acreditaram em si e apostaram na sua formação.

“Uma coisa que me interessou muito no conceito do Hélder foi esta ideia de um artista que está num bom momento de carreira, a ser convidado para dançar em muitos sítios, mas que sente que lhe falta alguma coisa e que, para dar dois passos para a frente, tem de dar um passo atrás. Dawn acaba por ser isso: dar um passo atrás para perceber de onde venho e conseguir saber para onde vou a seguir” — confessa Joana — “É de uma humildade incrível. E é isso que se vê no palco: transparência”, conclui.

Hélder ainda está a descobrir o panorama atual da dança no Porto, mas sente que “há uma forma estética e conceptual muito específica e assumidamente dentro de uma certa caixa”, mas que fica “muito surpreendido com o nível de qualidade das novas gerações, que refletem um avanço enorme” comparativamente à altura em que foi embora.

DDD + FITEI: uma oportunidade para trazer “outras camadas” da cultura para a cidade

Pela primeira vez dois eventos com projeção no panorama cultural em Portugal e na Europa unem forças para criar um evento que se apresenta não só maior, mas também com uma estrutura repensada e fortalecida.  Gonçalo Amorim, diretor artístico do FITEI, e Tiago Guedes, diretor artístico do DDD, sentaram-se com o Gerador para explicar mais a fundo de que forma é que acontece esta simbiose, a importância de dar o palco ao Brasil em 2019, e o que é que a junção representa para a cultura no Porto e no país.

“O foco no Brasil é uma ligação forte entre os dois festivais e que mostra que há afinidades que vão além da forma de expressão artística”, começa por realçar Gonçalo. A junção dos dois festivais também permite, segundo o diretor artístico do FITEI, “fazer com que os programadores internacionais, que se deslocavam até Portugal aquando dos dois festivais, o consigam fazer apenas numa semana e com um foco maior nos artistas portugueses de que vêm à procura”. As 90 inscrições de programadores vindos de todo o Mundo refletem que este é “um dos eventos de artes performativas do ano”, na perspetiva de Gonçalo. Ainda assim, salienta que “o tamanho em si não é sinónimo de qualidade” e que “ao juntar os dois festivais podem diminuir um pouco a quantidade e melhorar a qualidade”.

Assumir o Brasil como foco “é um ato muito afirmativo”, diz Tiago Guedes. “Os artistas que vêm ao Porto têm um discurso muito forte e que aproveitam os seus corpos e as suas palavras para fazer autênticos statements acerca do que está a acontecer no seu país. E é através das suas vozes e dos seus movimentos que percebemos um bocado melhor o que é esta afirmação da arte brasileira, que sempre esteve na frente e na vanguarda a nível mundial”, explica ao Gerador. Para Tiago Guedes, “é inegável que o que se tem passado no Brasil afeta os brasileiros e se reflete na força e na urgência que estas obras trazem para palco”.

Gonçalo continua, dizendo que “também é importante trazer a memória do colonialismo com a reflexão pós-colonial para cena” e que “muitos destes artistas brasileiros lutam por uma descolonização do pensamento trabalhando, de alguma forma, em tensão com o próprio termo pós-colonial”. “Essa tensão”, explica, “sente-se em palco na cena brasileira: entre uma contemporaneidade que se advoga e o retrocesso que se vê”.

A programação paralela está em destaque tanto do DDD como no FITEI. Nos dois casos, “aproveita-se o facto de estarem cá artistas internacionais para que possam formar a comunidade profissional e estudantil, principalmente, mas também outras pessoas que estejam simplesmente interessadas em dança ou teatro”, diz Gonçalo. Nesta edição destaca o workshop de Felipe Hirsch, integrado no FITEI, “que chama o público em geral e convida a uma leitura conjunta”.  Para Tiago Guedes “tudo ajuda o público a envolver-se no festival”, até porque “hoje em dia não é suficiente apresentar apenas os espetáculos, tem de haver um contexto para que as pessoas que se interessam mais poderem mergulhar a fundo no universo dos artistas”.

“Eu acho que os festivais têm de trabalhar para os seus públicos, para os artistas — dando-lhes uma grande visibilidade, como acontece na nossa Semana + —, mas também para os estudantes que decidiram vir formar-se no Porto. Um festival não pode nem deve ter uma programação composta apenas por espetáculos até porque isso acontece no Porto com muita frequência, felizmente. O Porto tem tido nos últimos 5 anos uma programação cultural muito intensiva e um festival como o DDD+FITEI tem de trazer essas outras camadas”, realça Tiago.

O design gráfico desta edição ficou a cargo de Inês Nepomuceno e Mariana Marques, e o vídeo promocional foi feito por Eduardo Breda

O DDD acontece de 24 de abril a 12 de maio e o FITEI de 8 a 25 de maio. Encontram-se entre 8 e 12 de maio para apostar nos artistas nacionais e levar o que se faz por cá além fronteiras. Sabe mais sobre o DDD+FITEI e mergulha na programação do festival, aqui.

Texto de Carolina Franco
Fotografias de João Peixoto / DDD+FITEI

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