O presente texto foi publicado no número 17 da revista “Sinais de Cena” a 22/08/2020. Surgiu do convite diretamente formulado por Jorge Salavisa, para que me ocupasse da apresentação do seu livro de memórias “Dançar a Vida”, na sessão de lançamento da obra. Seguidamente, o conselho editorial da revista Sinais de Cena sugeriu-me a sua publicação a título de recensão! Perante o recente desaparecimento de Jorge Salavisa pareceu-me de oportunidade voltar a publicá-lo neste espaço quinzenal de crónicas.

Devo primeiro que tudo confessar que fui um leitor compulsivo de Dançar a vida. A despeito dos laços de admiração, respeito e amizade que me ligam ao seu autor, é claro que inicialmente me moveram princípios menos nobres, típicos de um mero curioso… Todos nós, mais ou menos, gostamos de entrar na intimidade do outro, ficar a saber tudo, conhecer os recantos, partilhar os segredos. Pobres de “nós” ingénuos que, nessa intenção, esquecemos que um livro de memórias, como qualquer narrativa pessoal, é uma síntese entre muitas, um caminho entre inúmeros possíveis…. Daí a sua complexidade e daí, também, o enorme risco de sucesso ou falhanço. O caminho escolhido por Jorge Salavisa para nos revelar setenta e tantos anos de uma vida invulgar é, a todos os títulos, notável. Pela estrutura narrativa em que nos convida a entrar e progredir desde um primeiro momento iniciático como “Prólogo” – em que um prenúncio de morte se converte numa opção declarada pela vida – sendo esta a convicção que, até ao “Epílogo”, transparece forte, poderosa, imutável, ao longo de toda a obra. Depois, a inteligente renúncia a um sentido estritamente cronológico, ou melhor, a sábia gestão do tempo de narração, e a forma como este se contrai ou dilata, ao sabor daquilo que é verdadeiramente essencial comunicar e fazer sentir. Enfim, a ironia que projeta sobre si próprio e tudo o que o rodeia, o brilhante equilíbrio entre dramatismo e humor. São, todas elas, qualidades que prendem e seduzem o leitor numa teia de afetos, a teia de Jorge Salavisa, que a todos nós envolve e nos faz com ele querer estar para sempre. Tais características associadas a uma escrita fluida, pródiga de matizes, onde se articulam em perfeito equilíbrio o pormenor e a eficaz construção de ambientes, levam-nos ao que considero como mais fascinante em toda a narrativa: a conversão de cada leitor em testemunha presencial e privilegiada. Estamos definitivamente “lá” durante a meticulosa organização da despedida descrita no prólogo, com os Tocos nas infinitas savanas do Norte de Angola, durante as rixas no recreio do Colégio Infante Sagres, nos triunfos operáticos do São Carlos do final dos anos 50; presenciamos ainda a fúria de Nijinska perante o figurino de Carabosse, Zizi Jeanmaire e o seu bizarro ritual antes de entrar em cena, Margot Fonteyn cosendo, no camarim, as suas malhas…. Nesta relação de proximidade se encontra pois, uma das razões da nossa crescente cumplicidade de leitores com essas personalidades que são a vida de Jorge Salavisa; com o seu carácter, os seus desejos, as suas pequenas manias, os seus ensinamentos, as suas dúvidas, os seus erros, as suas opções transformando-se progressivamente em património, íntimo e comum. Porém, e ainda sob outra perspetiva, este livro é importante. Ao longo destas páginas corre uma outra linha narrativa que é fundamental evocar aqui. Jorge Salavisa, neste seu riquíssimo percurso profissional e pessoal, projeta sobre nós décadas cruciais do desenvolvimento cultural europeu e português, tempos apaixonantes de realização de uma utopia, em que a democratização cultural participou profunda e ativamente na invenção de uma nova sociedade e na consolidação dos seus valores.

Quando, assistimos à sua devastação, através de um discurso de pretenso realismo e eficácia, eis que surge esta experiência concreta e o seu legado que nos deverá fazer a todos refletir. Não se trata, claramente, de fazer aqui uma nostálgica apologia do passado, mas sim entender, para que connosco permaneça, a real dimensão daquilo que foi arduamente construído e é, definitivamente, um património sobre o qual é imperioso construirmos o futuro. Termino agradecendo ao Jorge por me ter deixado entrar neste trajeto épico (já o disse) mas também pelo que me ensinou e demonstrou com o seu testemunho de vida que, finalmente, não me faz pensar tanto em Alexandre Magno (coisa que ele, sem dúvida, gostaria!) mas no pintor Wang Fô, criado pelo poder imenso de Yourcenar, que, errando feliz e livre pelo reino de Han, nada mais possuía exceto pincéis, boiões de laca, tintas da-china, rolos de seda e papel de arroz; pois acima de tudo “amava a imagem das coisas e não as próprias coisas”.

-Sobre Miguel Honrado-

Licenciado em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e pós-graduado em Curadoria e Organização de Exposições pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa/ Fundação Calouste Gulbenkian, exerce, desde 1989, a sua atividade nos domínios da produção e gestão cultural. O seu percurso profissional passou, nomeadamente, pela direção artística do Teatro Viriato (2003-2006), por ser membro do Conselho Consultivo do Programa Gulbenkian Educação para a Cultura e Ciência – Descobrir (2012), pela presidência do Conselho de Administração da EGEAC (2007-2014), ou a presidência do Conselho de Administração do Teatro Nacional D. Maria II (2014-2016). De 2016 a 2018 foi Secretário de Estado da Cultura. Posteriormente, foi nomeado vogal do Conselho de Administração do Centro Cultural de Belém. Hoje, é o diretor executivo da Associação Música, Educação e Cultura (AMEC), que tutela a Orquestra Metropolitana de Lisboa e três escolas de música.

Texto de Miguel Honrado
Fotografia de Estelle Valente
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