Dedico esta crónica aos meus matchs.
Depois do ghosting, parece-me o mínimo.

Até este ano, nunca tinha passado mais de dois dias inteiros com perfil ativo no Tinder. Nunca experimentei outra dating app, porque esta já me saciou a minha curiosidade em dating apps. Mas bem, depois da desgraça de 2020, 2021 está-se a construir como uma fénix tardia, por isso, decidi dar uma chance ao Tinder. Este é o meu relatório de projeto, ao qual poderia chamar: “É possível encontrar um homem decente* no Tinder?”

Começo por dizer que deveria haver um novo emprego, uma consultoria de conteúdos de perfil de dating apps, com uma especialização em curadoria fotográfica. Vêem-se fotos tiradas de ângulos muito esquisitos, que não favoreceriam nem a pessoa-que-consegue-corresponder-a-todos-os-cânones-de-beleza-do-mundo. Isto não é uma crítica às pessoas em si, chega a ser muito mais uma questão de marketing. Com o risco de soar muito bruta: se estamos a apresentar produto (quase) meramente por imagens, que se aprimorem as imagens! A primeira conversa que tive com um match foi literalmente esta: eu a expor o meu argumento de que das sete fotos que ele apresentava, quatro delas só estragavam o conjunto. Como gostei de apresentar esta pequena tese ao homem que depois sofreu de ghosting (upsi), investi na demanda da educação cibernáutica. Como criativa e mente-facilmente- apelidada-de-escorpião que sou, fiz swipe right a alguns perfis duvidosos, na esperança de dar match e eu poder educar um pouco. Para rejubilo da minha auto-estima, tudo correu como planeado. Da seleção, realço este top 2: o momento em que ensinei um homem branco português como ele ter rastas em pleno século XXI não é viável sem considerar estar a fazer apropriação cultural; e a generosa conversa que tive com um jovem que achou que seria bom escrever na descrição “não quero mulheres dramáticas”, como quem diz “histéricas”, como quem diz “sou um sexista de merda” — o que se confirmou com a conversa.

Toda esta experiência sociológica fez-me fazer ghosting a toda a gente na app — os simpáticos e os não-decentes. Não consigo lidar. Posso ser eu que não sou compatível com a dinâmica do Tinder, mas senti-me a escolher roupa numa loja de fast fashion: “É giro. Talvez dure uns dias, talvez uns anos. É de origem duvidosa, não sei se garante boas condições de trabalho, nem se o material é duradouro.” No entanto, há pessoas que afirmam que encontraram por lá o amor. Talvez eu ainda vá a tempo. No entanto, pergunto-me se isso não será equivalente a uma camisola que se comprou na h&m há sete anos, que, passo a expressão, “saiu boa”, ainda continua com as medidas originais, e que, por acaso, não foi feita por mulheres em terríveis condições de trabalho. A verdade é que a app funciona para muita gente, por isso, haja esperança.

Para além de me fazer mestre do ghosting — lembrete: atualizar o currículo —, o Tinder relembrou-me por que não sou fã de relações abertas: são uma valente confusão (pelo menos para mim). Enquanto não consegues marcar um date com uma pessoa, por incompatibilidade de agenda, acabas por sair com outra, já que tens várias opções. Ora, achando tu piada a essa segunda, como fazer com a possibilidade de sair com a outra? Sais na mesma? E aquele novo match de hoje à tarde? Como é que alguém com trabalho a tempo inteiro consegue lidar com esta confusão de emoções e opções? A sério, expliquem-me, não é uma pergunta retórica. Quê, é suposto não querer saber dos sentimentos das outras pessoas? É suposto andar com todos e sair com cinco pessoas ao mesmo tempo? Não estou a criticar a moral da coisa, mas a sua praticidade. Como é que alguém se consegue lembrar qual é o homem que tem a boa relação com os pais, qual deles foi operado ao joelho o ano passado, e qual deles tem cinco irmãos mas só se dá bem com três? Juro que me parece uma boa oportunidade de criação de um suplemento de memória específico, tipo “Memofante Especial Tinder” ou um mais internacional “Tinder Memory Pro-Active”.

Numa plataforma em que a primeira escolha é tão superficial, dei por mim a ser extremamente preconceituosa com as fotos das pessoas, o que me deixou deveras irritada comigo mesma: a quantidade de botões de camisa desapertados; o ângulo da foto ao estilo emo 2009; a quantidade de cera no cabelo, que com um pavio seria uma vela a Santa Catarina**; a língua de fora em homenagem à Miley Cyrus 2015; a fivela do cinto de contrafação Guess; e o uso de animais de estimação como jogo de sedução. Ya, como se ter um gato no colo quisesse automaticamente dizer “sou querido, mas não soft boy, fodo-te forte mas depois faço conchinha”. Haja esperança.

Antes de avançar para a derradeira conclusão, não queria deixar de referir um fenómeno engraçado que senti na cidade do Porto (talvez aconteça com outras, não sei). Como pequena que é, sinto que o Tinder não só serve para conhecer pessoas novas, mas também para confirmar se as nossas crushs são correspondidas. O que me fez pensar: não seria tão melhor e mais simples se as pessoas tomassem a iniciativa e apenas falassem umas com as outras? Numa altura em que não faltam redes sociais e nos cruzamos mais tarde ou mais cedo na rua, estará a nossa auto-estima tão frágil que não consegue aceitar uma possível rejeição? Vamos nós voltar a escolher pessoas por fotos, tais soldados e jovens que as trocavam por carta?

Era precisamente nisso que eu estava a pensar no outro dia quando fui buscar comida. Enquanto estava na fila para matar saudades de um belo bolo do caco, reparei que estava um jovem a observar-me de uma mesa, enquanto comia uma baguete. Tivemos as típicas trocas de olhares, mas ninguém disse nada. Fosse o Tinder, seriam dois swipe rights e um match. Na vida real, foi um jovem a comer uma baguete e eu a pensar “que bela maneira de acabar a minha crónica”. E ainda o poupei de um ghosting.

Ah, respondendo à minha pergunta inicial: É possível encontrar um homem decente* no Tinder? Deve ser, porque eu sou uma mulher decente* e também lá fui parar.

_

*homem decente: honesto, que não é machista, não homofóbico nem transfóbico, feminista (mesmo que não saiba que o é, a gente informa), anti-racista, que não faça apropriação cultural, com perspetivas profissionais e que não seja do Chega.

mulher decente: que não é sexista, promove sororidade, não é homofóbica nem transfóbica, feminista (mesmo que não saiba que o é, a gente informa), anti-racista, que não faça apropriação cultural, com perspetivas profissionais e que não seja do Chega.

** Santa Catarina é a padroeira católica das pessoas jovens solteiras. O Santo António é o casamenteiro. Decidi ser mais abrangente no amor e não o limitar ao fim do casamento.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Clara Não-

Clara Não é ilustradora e vive no Porto. Licenciada em Design de Comunicação, pela Faculdade de Belas Artes do Porto, e fez Erasmus na Willem de Kooning Academie, em Roterdão, onde focou os seus estudos em Ilustração e Escrita Criativa. Mais tarde, tornou-se mestre em Desenho e Técnicas de Impressão, onde estudou a relação fabular entre Desenho e Escrita. Destaca-se pela irreverência e ironia nas ilustrações, onde reivindica a igualdade, trata tabus da sociedade e explora experiências pessoais.  Em 2019, lançou o seu primeiro livro, editado pela Ideias de Ler, intitulado Miga, esquece lá isso! — Como transformar problemas em risadas de amor-próprio. Nas horas vagas, canta Britney.

Texto de Clara Não
Fotografia de Another Angelo
gerador-gargantas-soltas-clara-nao