Faltam-me presenças. Há gente que morre.

O andar dos anos faz destas coisas. Parte de quem me constitui parte. É uma quebra irreparável. Aqui anoto a evidência do engano. Esta ideia do corpo e da alma dentro dele. Como se a pele fosse a fronteira do estado individual, uma singularidade demarcada. Mas não é assim. A pele não é um muro e o que me é singular são quem amo. Nem todos amam quem amo e certamente ninguém ama da mesma maneira que eu quem amo. O amor atribui um sortilégio ao que me acontece – a alma, o corpo, estende-se, desenrola-se, há encontros criadores de fios tecidos em tramas essenciais. Quando se rompem os hábitos do amor, pelo súbito ou atendível desaparecimento, perde-se parte do corpo, da alma. Afinal, nem uma dicotomia é possível entre, nem nos cuidados das tecelagens várias que tornam os caminhos calorosos e reconhecíveis.

A descoberta e o reconhecimento respeitam sempre ao exercício amoroso. Só quem me ama e quem eu amo reconhece a face dos meus dias e das minhas noites.

Olho-me ao espelho. E nele há toda a solidão povoada do meu ser. Quando te fores, e me olhar, serei um pouco menos reconhecível, alguma coisa faltará na composição sobre o sentido das pessoas e das coisas.

Cuido, pois, do jardim dos meus perfeitos amores. Não há outros assim.

O perfume das flores invade-me.

Levemente, evado-me.

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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