Depois da Covid-19 preparemo-nos para enfrentar outra maleita demolidora.

Todos vemos filmes americanos (ou outros), baseados nas guerras ou batalhas que as tropas do Tio Sam vão continuando mundo afora. E em todos esses filmes (e outros), há sempre os despojos das ditas guerras. Podem ser armas, equipamentos, território, mas também são os sobreviventes.

O que temos aprendido, de uma forma generalista e não institucional, sobre Stress Pós-Traumático (SPT) tem que ver muito com os que regressam, inteiros ou em partes, mas sobreviventes ao terror de viver sobre a ameaça de poder morrer a qualquer instante. Ah, e matar.

Pois a Covid-19 e a insegurança global que provoca, as centenas de milhares de mortos, os sobreviventes, os que recuperam dos cuidados intensivos, os que perderam qualidade de vida, os que sabem que é quase inevitável passarem incólumes pela tormenta, também provoca SPT e, infelizmente, é garantido que a sociedade vai sofrer e muito no pós-Covid-19 (se acontecer um pós).

Durante a primeira vaga, quase metade dos profissionais de cuidados intensivos da primeira linha revelaram sinais de SPT. Agora imaginem ir “para a guerra” todos os dias durante um ano em que toda a comunicação era exacerbada, doentia, insensata e, muitas vezes, ingrata para com o seu trabalho e resultados.

Pensem nas primeiras respostas ao confinamento geral: as pessoas iam para as varandas fazer barulho, umas com tachos, outras com instrumentos, viveu-se um generalizado sentimento de incapacidade e, devido a ele, de um novo humanismo (ainda com letra pequena). Mas isso foi-se perdendo ao longo dos demais confinamentos e dos ferozes ataques entre barricadas a favor e contra a vacinação em massa.

Ou era o Bill Gates que nos queria colocar um chip na cabeça, ou era uma tentativa de nos envenenar para libertar a terra de milhões de humanos poluentes e poluidores, tanta coisa se escreveu sobre, afinal, o que se desconhecia. E pouca coisa mudou: onde começou, o paciente zero, porque existem mutações, variações, transmissões entre vacinados, tanto desconhecimento. E sim, isto abala-nos as crenças e as esperanças. Quando tudo parece caminhar para a luz ao fundo do túnel, vem nova tempestade que nos obriga a recuar.

Se, em 2020, o Stress Pós Traumático já era um sinal evidente que vamos sofrer durante muitos anos deste extraordinário impacto nas nossas vidas, tudo continuou durante 2021. Se nuns lados levantavam-se barreiras, noutros fechavam-se fronteiras.

Já não são apenas os trabalhadores da linha da frente quem sofre ou quem acusa maior desgaste, mas na generalidade, todos nós temos a nossa parte de trauma. E sim, o trauma é uma realidade que nos irá afectar durante muito tempo, pois o que temos vivido é diferente para todos, tanto os que vivem luxuosamente em casas com fartos e belos jardins, como os que acomodam uma família em dois quartos durante 24/7. E sim, há um aumento de abusos e agressões, sejam sexuais, domésticos, psicológicos, tudo está no mesmo barco e o barco anda à deriva numa forte tempestade.

O trauma começa a ser notado de forma progressiva, primeiro em indivíduos que o percebem e procuram ajuda, outros que precisam de ajuda mas não a encontram ou podem pagar, passa depois para um grupo que acusa os mesmos efeitos e, num repente, temos uma sociedade agastada, traumatizada, em perda e luto, sem esperança no futuro vivendo o drama do desemprego, as crianças que são retiradas ao que lhes era comum, o grupo de amigos e as brincadeiras sociais que tão necessárias são na nossa educação, a sexualidade dos adolescentes, enfim, toda uma enorme lista que são a ponta do iceberg e aquelas que entendemos e até podemos tentar mitigar.

Para dar um exemplo, o sistema nacional de saúde britânico (NHS), ilha(s) que sempre tratou a Saúde Mental como prioridade enquanto Portugal dormia, prevê que a nível nacional, haverá 230 000 novos casos de SPT como resultado da Covid-19. É, segundo ele, a maior ameaça à Saúde Mental em Inglaterra desde a Segunda Guerra Mundial.

Nenhum sistema está preparado e equipado para lidar com esta enxurrada de casos de trauma e, pior, quem estava a ser seguido profissionalmente, deixou de ser prioritário. Sabemos bem como se atrasaram as normais consultas e exames no SNS e em todos os sectores. Sabemos como isso traumatiza um paciente e como o coloca num estado de stress diário e acumulativo.

Regresso agora ao início, aos filmes sobre veteranos de guerra, e transponho esses sentimentos para os mais jovens que nunca viveram tal inferno, mas que vivem outro. E estes, na sua solidão imposta, física mas não social, falam mais abertamente nas redes sociais sobre os seus sentimentos. Claro que não é no Facebook que lemos os desabafos, mas antes em grupos privados onde se discute e se emprega termos como "gatilho" e "despersonalização" ou "desrealização".

Mas estamos a trabalhar sem rede. Como explicar a quem pensa que não sofre que um seu semelhante, que não passou por nenhum problema crítico (como ser hospitalizado ou perder algum familiar), pode sofrer de SPT? Como conseguir explicar às pessoas o que é o SPT, quais os sinais, sintomas, pressões, enfim, o desconhecido por detrás daquelas quatro paredes em que todos nós nos refugiamos?

Um traumatizado pode experimentar os sintomas de despersonalização - um estado semelhante a um sonho, distanciado de estar fora de si e a flutuar pela vida à distância - sem se aperceber que isto pode ter alguma coisa que ver com os acontecimentos traumáticos que viveram.

Ou podem ter pesadelos horríveis que, à superfície, partilham pouco em termos de conteúdo com o que lhes aconteceu. Nunca vos aconteceu? Pois a mim já. Se passei por situações traumáticas ao longo da vida? Naturalmente. E qual foi a situação que me fez ter esse pesadelo? Não sei.

Quando tratamos a Saúde Mental sabemos que estamos a lutar contra o estigma, a vergonha, o desconhecimento, mas a cada dia, mais e melhor informação é dada publicamente o que faz crescer quase uma identidade de grupo porque se explicam e aprendem sintomas fáceis de entender.

Mas se isto é positivo, falta a sustentabilidade de um apoio estrutural. De que serve se, depois de finalmente reconhecer que os seus sintomas podem ser SPT e que estão disponíveis tratamentos eficazes, um doente passa então meses e meses a definhar em lista de espera?

No caso específico do SPT, o apoio imediato e o tratamento adequado é fundamental para uma hipótese de recuperação. Mas, no entanto, ninguém tem falado sobre isto, é como se fosse um novo tabu dentro do já existente tabu que tem minado a sociedade.

É urgente falar do trauma, falar de stress pós-traumático, criar serviços que acompanhem quem sofre, logo desde o início da instabilidade e dos primeiros sintomas, porque ele é real e quanto mais se espera mais se agrava.

Existem relatórios que os novos confinamentos e mutações Covid-19 agravaram de tal maneira o trauma inicial, em que se pensava que seria passageiro, que já existem pacientes com SPT complexo ou tipo II, ou seja, o tal que é verificado em veteranos de guerra ou, ainda mais grave, vítimas de abuso infantil.

Estamos, portanto, a empurrar com a barriga o problema para quando tivermos tempo para tratar dele, mas esse tempo começou em Novembro de 2019.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Ana Pinto Coelho-

É a directora e curadora do Festival Mental – Cinema, Artes e Informação, também conselheira e terapeuta em dependências químicas e comportamentais com diploma da Universidade de Oxford nessa área. Anteriormente, a sua vida foi dedicada à comunicação, assessoria de imprensa, e criação de vários projectos na área cultural e empresarial. Começou a trabalhar muito cedo enquanto estudava ao mesmo tempo, licenciou-se em Marketing e Publicidade no IADE após deixar o curso de Direito que frequentou durante dois anos. Foi autora e coordenadora de uma série infanto-juvenil para televisão. É editora de livros e pesquisadora.  Aposta em ajudar os seus pacientes e famílias num consultório em Lisboa, local a que chama Safe Place.

Texto de Ana Pinto Coelho
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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