Ausentes. Ausentes dos lugares de trabalho. Ausentes das cafés e restaurantes. Ausentes dos bares e discotecas. Ausentes das escolas e universidades. Ausentes das salas de espetáculos e museus. Ausentes das bibliotecas e arquivos. Ausentes dos estádios e dos ginásios.

Os ecrãs, que galgaram patamares nas nossas vidas, tornaram-se amigos do peito, da orelha, da mão.

A pandemia veio e celebrou a reificação das redes virtuais. O regalo das empresas tecnológicas, de computadores e celulares, de portáteis e seus acessórios, de criação e distribuição de software, de gestão de dados e metadados.

Perderam ombros, costas, olhos, as mãos e o corpo em geral, submetido a uma usura sitiada, a um sequestro sob forma de mesa e cadeira.

Houve despedidas de pais e filhos, avós e netos, amigos e amigas.

Há corpos que se foram. Antes, o hábito do lugar da proximidade. Sentir braços, abraços,  mãos sobre mãos,  pancadinhas e abanões, hálitos trocados nas conversas à mesa e em torno de copos, olhos nos olhos enquanto as palavras fluem.

Não reparávamos nestas banalidades. O que é uma regularidade, está tão próximo que deixa de ser objeto de atenção.

Agora? Agora que a presença se ausentou, há marcas que ficaram no horizonte, outras que serão esquecidas. Há novos hábitos, a higiene dos corpos, alcoolizados, torturados por abluções várias.

Comprar expetativas online, certamente. Fluir os dias em streaming. Suspeitar dos outros. Quem sabe onde está a infeção?

O vírus está dentro de nós. A sua presença na pendência de crioulos.

 Qualquer linguagem é uma forma de crioulo. Vieram palavras e histórias de tanto lado. Infeções sucessivas de viagens, navegantes e beduínos.

Não há línguas ou linguagens afetadas pela virgindade.

O Éden é hoje a ala militarizada dos hospitais de campanha, onde florescem as árvores da pura desinfeção. Sem sombra viral, rostos coligidos por entre véus sanitários não se expõem ao desejo. Uma enfermeira virgem trata de um doente virgem numa cama sem sombra de pecado.

O vírus está presente em nós. Suspeito que já estamos infetados há muito tempo. Só não sei quanto custa guardar a infeção, contra o preço da cura.

Depois, a vacina. Entrar pela porta da imunidade. Estar imune. Quero muito estar imune. Virgem, outra vez, ou de uma forma que nunca fui.

Quando estiver curado, no lugar da pureza sanitária, celebrarei o espetro circular das imperfeições. Lembrarei todas as doenças do mundo, os corações despedaçados e as tristezas sem nome.  

Não tem preço nem nome, esta nova presença de mim em mim.

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier