Recordação 1: Desenho a computador de uma figura, de perfil, de boca exageradamente aberta, da qual saem pássaros voando.

            Lembro os dedos longos, as unhas felinas de fora, lábios longos pintados, cabelos diferentes ao longo do tempo (preto com franja, curto louro, arruivado comprido), os seus sapatos extraordinários, os seus modelitos sempre dignos de figurinos teatrais — modelitos foi uma palavra que aprendi com ela. Fumava muito, muito, em todo o lado, sempre. Pensava e encenava fumando. Voz grave, áspera e quente, cheia de pontos de exclamação e pedras pesadas que atirava sem piedade, mas também palavras de ordem, de teatro, de filo-Sofia, histórias por contar. Herdei dois volumes de mitos gregos que lhe pertenciam - ela gostava da Grécia, suas Tragédias e suas Heroínas.

            A Fernanda Lapa, heroína ela mesmo desta pequena crónica-em-forma-de-oferenda, nasce a dia 11 de Maio de 1943. Só a conheço, com consciência, 55 anos depois, tinha eu 11 e mal sabia o quanto ela iria importar no meu percurso. 1998 foi o ano de “Uma boca cheia de pássaros” e o desenho que fiz no computador que tínhamos na cozinha de nossa casa teve o direito de aparecer nos convites para a estreia do espectáculo - que gesto bonito o seu, deixar uma miúda pequena fazer parte de algo maior e tão milagroso quanto o Teatro. Era uma guerreira, ela, uma mulher de trabalho, temerária, intransigente, com coluna vertebral, teimosa, sedutora, sábia, inesquecível, fácil de desmontar com um beijo repenicado na bochecha. Daquelas pessoas que nos fazem sentir órfãs quando nos deixam. E é por ter medo de esquecer que arrisco este esboço de poucas palavras, na tentativa de auxiliar a memória a reconstruir uma minha Fernanda que não se apague.

            “Novas Anatomias”, “Desejos Brutais”, “A Valsa de Baltimore”, “Como Aprendi a Conduzir”, “Gelsomina” são algumas das peças de que me lembro, por fragmentos, de assistir em processo. Espectáculos que me incomodavam, que tratavam assuntos duros, sem piedade, com protagonistas femininas, com histórias duras para contar, todos totalmente construídos em cima dos ombros corajosos do elenco.

Recordação 2: Carta. 28 de Dezembro de 2002. Estreia de “Novas Anatomias”. Teatro Taborda.

            Aprendi muito do que hoje faço observando os outros, tendo a honra de estar presente em bastidores, sentada na plateia de ensaios, ou ouvindo reflexões em voz alta de quem estava em processo de criação. Para que seja possível ocuparmos esse lugar de aprendizagem temos de ter quem nos veja, quem nos dê uma oportunidade, e nos ajude a validar a nossa existência: assim foi com a Fernanda, a quem poderei sempre chamar a minha madrinha de Teatro. E assim foi ela para muitas outras pessoas além de mim.

            Há 15 anos atrás, sentadas que estávamos à mesa da sua sala/biblioteca, perguntou-me se aceitava fazer parte do coro da “Medeia” de Eurípides que iria encenar para o Teatro Nacional. Experiência trabalhosa e fantástica - ensaios de canto ao piano, sessões de movimento coreografado, as palavras traduzidas pela Sophia de Mello Breyner Andresen para aprender, e a experiência de nunca sair de cena do princípio ao fim. Não há papéis pequenos.

            Lembro um pormenor de um ensaio no sub-palco, em que disse de cor o início do meu primeiro verso “Ouves - Ó Zeus, ó Terra, ó Luz…” e ela, pacientemente, disse “Zeus, a terra e a luz não são tudo a mesma coisa”, como quem diz: entende o que dizes, distingue cada palavra de outra,  sem te embeveceres com o som da tua voz a produzir bonitos sons… ainda que seja em verso.

Recordação 3 - Bracelete. Novembro de 2013. “As Ondas”.

            Encontro uma caixa com postais e cartas que me foram enviadas ao longo do tempo. Escrevia-se mais postalinhos antes, não era? Vou recolhendo o que encontro assinado pela Fernanda e surpreendo-me com a quantidade, com as datas, com os momentos por si pontuados. Já lá encontro escritas palavras de apoio, de abraço, de adopção, mais, descubro que esta poderá ter sido a primeira pessoa que desde sempre afirmou que eu viria a encenar e que seria feliz a fazê-lo. Se nos for permitido ver, por vezes, a vida como um filme, este é aquele momento em que corta para mais de 10 anos depois da sua primeira carta, à porta do antigo espaço dos Primeiros Sintomas na Ribeira, depois da estreia da minha primeira encenação. Lá está ela presente, com um novo postal e uma prenda - uma grande bracelete (assim escreveu), castanha malhada, com duas letras inscritas. Tinha-lhe sido dada pessoalmente pela actriz Palmira Bastos.

            É um assunto sério para mim este de ser grata a quem comigo se cruzou, modificando o meu caminho. Faço desta a minha carta em resposta, a minha vénia às lições deixadas. Que fazemos nós por cá que não partilhar heranças e acreditar em Deusas, acreditar na Terra, acreditar na Luz?

Sintra. Dois mil e vinte e um.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Sara Carinhas-

Nasceu em Lisboa, em 1987. Estuda com a Professora Polina Klimovitskaya, desde 2009, entre Lisboa, Nova Iorque e Paris. É licenciada em Estudos Artísticos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Estreando-se como actriz em 2003 trabalhou em Teatro com Adriano Luz, Ana Tamen, Beatriz Batarda, Cristina Carvalhal, Fernanda Lapa, Isabel Medina, João Mota, Luís Castro, Marco Martins, Nuno Cardoso, Nuno M. Cardoso, Nuno Carinhas, Olga Roriz, Ricardo Aibéo, e Ricardo Pais. Em 2015 é premiada pela Sociedade Portuguesa de Autores de melhor actriz de teatro, recebe a Menção Honrosa da Associação Portuguesa de Críticos de teatro e o Globo de Ouro de melhor actriz pela sua interpretação em A farsa de Luís Castro (2015). Em cinema trabalhou com os realizados Alberto Seixas Santos, Manoel de Oliveira, Pedro Marques, Rui Simões, Tiago Guedes e Frederico Serra, Valeria Sarmiento, Manuel Mozos, Patrícia Sequeira, João Mário Grilo, entre outros. Foi responsável pela dramaturgia, direcção de casting e direcção de actores do filme Snu de Patrícia Sequeira. Foi distinguida com o prémio Jovem Talento L’Oreal Paris, do Estoril Film Festival, pela sua interpretação no filme Coisa Ruim (2008). Em televisão participou em séries como Mulheres AssimMadre Paula e 3 Mulheres, tendo sido directora de actores, junto com Cristina Carvalhal, de Terapia, realizada por Patrícia Sequeira. Como encenadora destaca “As Ondas” (2013) a partir da obra homónima de Virginia Woolf, autora a que regressa em “Orlando” (2015), uma co-criação com Victor Hugo Pontes. Em 2019 estreia “Limbo” com sua encenação, espectáculo ainda em digressão pelo país, tendo sido recentemente apresentado em Londres. Assina pela segunda vez o “Ciclo de Leituras Encenadas” no Jardim de Inverno do São Luiz Teatro Municipal.

Texto de Sara Carinhas
Fotografia de João Silveira Ramos

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