À medida que os dias se amontoam sobre mim, uma verdade absoluta se forma, clara como água. E eu absorvo essa verdade hoje de forma leve, como não faria há 15 ou mais anos.

A minha voz está a mudar! E essa mudança tem-me feito pensar muito, principalmente porque sinto que a mudança do timbre leva-me, cada vez mais, a sentir semelhanças com a voz do meu pai.

Aliás, muitas formas de acentuação das palavras são exatamente como as dele, e hoje, mais do que nunca, sinto orgulho nisso, talvez como não sentia antes. E com essa mudança, quase diariamente na solidão dos meus pensamentos, vejo-o em mim.

Reparo ainda que numa análise mais profunda as palavras que transformo em canções são o cordão umbilical que não vi noutras alturas, a paternidade e o sangue são definitivamente um lugar que querendo, ou não, mais cedo ou mais tarde, vão bater à nossa porta. A mim está a bater!

O meu pai saiu de São Tomé em 1973 para estudar Teologia. De um lugar de poucos recursos como uma ilha perdida no meio do Oceano Atlântico, naquele tempo, a proposta era avassaladora.

Quando chegou a Portugal desdobrou-se em fazer-se notar e, dentro da sua aptidão natural para as palavras, tornou-se um ser curioso que a todo o tempo procurou ensinar-nos um conjunto de ideias que seriam a chave mestra para as nossas vidas. Eu e os meus irmãos, como quaisquer jovens adolescentes, fingimos não ver o óbvio, pois estávamos numa fase de construção de carácter e era difícil entender a profundidade do seu pedido.

Os anos passaram e as suas teorias sobre o mundo e formas de estar foram o pilar para as nossas vidas. Ainda assim, achámos que eram apenas vontades normais de qualquer pai, vontades ou desejos!

Para mim, o filho mais velho, que, em boa altura, encontrei a música como motor impulsionador para arrumar o turbilhão de sentimentos dispersos, foi-se fazendo luz, ainda que, por vezes, em negação do óbvio.

Eu aprendi a tocar viola com o meu pai, os primeiros acordes: o ré, sol e mi devo ao meu pai. Ali, de viola na mão, cantava os primeiros temas de composição original, letra e música. As deambulações sobre o cosmos, o que fazemos aqui, quem somos, ouvi da boca do meu pai pela primeira vez.

Num dia de Natal, o meu pai ofereceu-nos um texto escrito por si, era uma folha em formato A4 dentro de um envelope. Eu, na altura, não estava propriamente virado para ler os seus pensamentos e deixei o envelope no quarto quase perdido num canto. Um dos meus irmãos (o mais curioso) abriu o envelope para ler o tal texto. No meio do texto estava uma nota de 50 escudos, um valor que hoje parece irrisório e de baixo valor, mas, na altura, era tão alto quanto a sua boa vontade em nos fazer pensar.

Ainda hoje pensamos nesse dia de Natal com um sorriso e comentamos várias vezes a forma subtil de demonstração de afeto e sensibilidade para as coisas mais singelas.

Nessa mesma altura de Natal, o meu pai, de seu nome Elísio, gostava de nos prender com textos lidos em voz alta para toda a família. Do que me lembro, muitas vezes zombávamos da situação com expressões tais como - "Oh pai, vou buscar o lanche" - e sabíamos que o texto ia ser longo, e de conteúdo adulto.

Não me recordo de, alguma vez, ouvi-lo falar connosco de outra forma que não essa, como adultos. A densidade do seu pensamento era tão grande que amontoava textos por todo o lado sobre pensamentos e onde não tinha onde os poder mostrar.

A paixão pela escrita era inata, todos sabíamos disso, assim como a paixão pelas palavras, pelo bem dizer as coisas, pelas frases ditas em português correto e profundo.

E eu, hoje, enquanto escrevo este parágrafo penso que eu sou a personificação do meu pai. Eu sou aquilo que ele gostava de ter dito ao mundo e não foi capaz no seu tempo. E essa é, sem dúvida, a maior gratidão que posso ter para com ele. A minha dúvida tornou-se uma dádiva!

Tinha e tem uma opinião que não faz parte do comum mortal, não gosta de ideias pré concebidas sem pensamento profundo sobre as mesmas. Em nenhum momento o vi a vomitar uma opinião só porque passou na rádio ou na televisão, não! Nunca!

As suas opiniões são ditas depois, um dia ou dois, escritas em jeito de desabafo ou opinando com a minha mãe de forma acutilante, mas sem imposição.

E eu, perante esta dádiva divina em formato de homem, delicio-me hoje mais do que nunca a ouvir as suas ideias, a interiorizá-las para mim e a perceber que, mesmo que tivesse lutado contra, a vida está a tratar de me colocar no lugar exato.

Digo até, quem sabe, um dia destes não será ele a ocupar o meu lugar numa destas crónicas.

A minha voz mudou, a minha forma de pensar mudou também. A música do Paco Bandeira que ouvi em criança aquando dos seus 40 anos, hoje ecoa na minha mente o momento em que isso se passou e vejo como deve ter sido difícil para ele não ter conseguido escrever os seus pensamentos para o mundo, quando na altura ninguém estava disponível para o ouvir ou ler.

Se nos é permitido sonhar a todos, acredito que em algum momento esse sonho possa ainda ser uma realidade.

Eu carrego em mim esse ADN, da escrita e das deambulações sobre coisas que o mundo tem como concretas e penso nelas exatamente da forma como o meu pai o fazia e faz, e com a sorte de poder partilhar com o mundo pensamentos abstratos com palavras concretas.

Quando chegámos a Portugal, uma das novelas que na altura apresentavam em horário nobre chamava-se "Pai Herói" e era uma novela que falava de uma relação entre estes dois seres: pai e filho. Na altura, não fui capaz de entender a profundidade da novela, mas o título ficou em mim, assim como também a música do genérico, cantada por outro grande ator de novelas da altura - Fábio Jr.

Hoje, o título faz mais sentido que nunca, e para que seja um final de texto com o clichê perfeito, sim, o meu pai é o meu herói e cada dia que passa a minha voz em mutação faz-me lembrar o timbre da sua e isso perpetua a ideia perfeita de que, apesar do que eu não consegui ser na altura - aquele filho mais atencioso aos seus textos e estórias - elas ficaram gravadas e, hoje, foi o dia de retribuir.

Obrigado, Elísio!

-Sobre NBC-

NBC é um dos grandes nomes da música actual portuguesa,  e um dos fundadores do movimento hip-hop em Portugal, apreciado pelas suas peculiares performances ao vivo com crossover entre o soulrnbdrum and bassrock e eletrónica e ainda com versatilidade para transformar e criar versões acústicas. O seu último disco, TODA A GENTE PODE SER TUDO, foi editado em finais de 2016. Nascido em 1974 em São Tomé e Princípe, com a influência das suas raízes africanas, Timóteo Tiny é uma das vozes soul mais acarinhadas de Portugal e autor de temas como «Segunda Pele», «NBCioso», «Homem», «Neve», «DOIS» ou «Espelho».  Com a sua discografia já pintou diversas bandas sonoras de filmes e de telenovelas portuguesas, e já pisou muitos palcos em festivais como  NOS Alive, Super Bock Super Rock, Meo Sudoeste, Festival F ou também salas icónicas como Coliseu de Lisboa, Casa da Musica ou Hard Club. Pelo caminho, conta com a edição de um EP, EPidemia (2013) e mais outros dois discos Afrodisiaco (2003) e Maturidade (2008). Já fez digressão com a banda GNR e, em 2015 e 2018, viajou até ao Brasil para uma digressão de cerca 40 dias em estados diferentes estados, tendo passado por lugares como Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis ou Belo Horizonte. Em 2019, participou no Festival da Canção, com a canção “Igual a Ti”, tendo conquistado o segundo lugar do concurso. E assim se escreve mais de 25 anos de carreira.

Texto de NBC
Fotografia de Teresa Lopes da Silv
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