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Ódio não é opinião

Nas Gargantas Soltas de hoje, Alexa Santos mostra-nos que ser quem somos é um ato diário de coragem. "Viver é um ato de coragem por todas as iguais a nós que não sobrevivem a toda esta violência. Viver é um ato de coragem em que todos os dias, só o estar aqui já conta, porque lembramos ao mundo que somos pessoas, que o seu ódio, a sua opinião, não cabe em nós e que quem sabe, só por existirmos, também o seu ódio, a sua opinião mude e a sociedade vá por isso mudando também, aos poucos, mesmo que devagarinho, com altos e baixos, avanços e retrocessos. Viver é um ato de coragem, mas é também a única alternativa."

©Lisboeta Italiano

Percebi que não era heterossexual já tinha 21 anos de idade. Não ser hetero até essa idade não era uma possibilidade. Era mau, sujo, pecado, alienador, solitário, triste.

Apaixonei-me pelo olhar, o sorriso, e a fé de uma pessoa do mesmo género que o meu. Sem esperar, sem nem sequer perceber o que se estava a passar. Ela sorria para mim e eu não conseguia deixar de sentir o meu coração palpitar.

Percebi que os padrões de género não me cabiam já tinha 25 anos. A última vez que vesti um vestido foi há uma década. Percebi que usava o feminino para poder ser respeitada, levada a sério. Para não dizerem que pertencia a um determinado estereótipo, no caso, mulher que gosta de mulheres, logo, masculina. Tinha medo de pertencer a uma ideia preconcebida e do que isso iria fazer à legitimidade para ser e amar quem eu amava e quem eu era.

Já depois dos 30 anos foi quando compareci num evento familiar com a pessoa com quem tinha uma relação. Essa pessoa era uma mulher. Nessa altura, passados já mais de dez anos da primeira vez que tinha dito às pessoas da minha família que não era heterossexual, ainda me disseram que não podia levar essa pessoa para eventos familiares e que não podia chocar assim as pessoas.

Hoje, tenho 35 anos e todos os dias continuo a sofrer com os padrões, estereótipos e preconceitos de uma sociedade que diz que as pessoas são todas heterossexuais, são todas o que o pessoal médico diz que elas são à nascença, são todas o que a sociedade diz que elas são e não iguais a si mesmas, diversas, únicas.

O sofrimento que advém de não podermos ser nós próprias/es/os, não tem descrição, a sensação de nunca virmos a ser boas o suficiente, que ninguém nos vai amar verdadeiramente, que, mesmo que já possa casar, ter filhos, há sempre alguém que me vai considerar doente, capaz de me converter de novo para uma heterossexualidade compulsória que não me cabe. Toda a gente tem uma opinião sobre como me relaciono, como devia relacionar-me e mostrar isso ao mundo. Na maior parte das vezes, essa opinião é negativa, diminutiva e destrutiva. É-me oferecida sem eu pedir e está impressa em todos os lugares como se fosse uma verdade autêntica e uma realidade inalienável que eu estou doente e sou anormal.

No outro dia, enquanto estava a fazer uma viagem num TVDE com duas pessoas amigas em que falávamos de liberdade e de como hoje as pessoas no geral podem sentir-se mais livres para ser quem são, o motorista que nos levava disse-nos que tínhamos sofrido uma lavagem cerebral, que “isso” não era normal e que daqui a 30 anos nos íamos arrepender de sermos quem somos. Nós ripostámos, sem sucesso e saímos do carro incrédulas com o que se tinha passado. Algumas pessoas poderão pensar e até dizer:

  • "Pois, mas sabes que na sociedade vai sempre haver pessoas assim, que não aceitam." - ou dizer,
  • "Estavam à espera do quê a falar tão abertamente? Têm de ter mais cuidado se não querem receber esse tipo de comentários." - ou ainda,
  • "Da próxima não têm essas conversas. Porque ainda tiveram sorte, podia ter sido muito pior."

Podia, no entanto, a agressão está lá, sempre, todos os dias, a toda a hora. Seja na opinião de um condutor de TVDE, seja nas páginas de um jornal que insiste em dizer que o que eu sou é anormal. Deixem-me em paz, era o que eu gostava de dizer quando ouço “deixem as nossas crianças em paz”. Que me tivessem deixado em paz quando, em criança, eu era “diferente”, era o que eu gostava que tivessem feito mas não foi isso que fizeram. Ouvi todos os dias, como ainda ouço, porque é que não és mais assim? Porque é que não fazes mais assado? Isso não fica bem, não é de “menina”? Pareces um “monstrinho”!

A violência destas “opiniões” é algo que as pessoas na sua generalidade não podem reconhecer. Nunca passaram por isso. Não têm empatia para se pôr no lugar de quem passa por isto, não uma, não duas, mas várias vezes ao longo da vida.

E eu, eu só quero paz. Só quero poder viver sem medo, livre. Sem ter de me policiar porque se não me “controlar” sabe-se lá o que pode acontecer. Porque a sociedade não está pronta e brada a todos os ventos que, pessoas como eu, não podem ser reais e que existir como eu existo é um ataque e o papel da sociedade é violentamente mostrar-me que não pertenço aqui. Não assim.

Viver é um ato de coragem, ser igual a quem somos é um ato de rebeldia e resistência diária. É dizer que a opinião alheia mesmo que magoe não nos verga e mesmo que seja perigosa, legitime ódio e por isso a nossa segurança, não nos muda. Viver é um ato de coragem por todas as iguais a nós que não sobrevivem a toda esta violência. Viver é um ato de coragem em que todos os dias, só o estar aqui já conta, porque lembramos ao mundo que somos pessoas, que o seu ódio, a sua opinião, não cabe em nós e que quem sabe, só por existirmos, também o seu ódio, a sua opinião mude e a sociedade vá por isso mudando também, aos poucos, mesmo que devagarinho, com altos e baixos, avanços e retrocessos.

Viver é um ato de coragem, mas é também a única alternativa.

-Sobre Alexa Santos-

Alexa Santos é formada em Serviço Social pela Universidade Católica de Lisboa, em Portugal, e Mestre em Género, Sexualidade e Teoria Queer pela Universidade de Leeds no Reino Unido. Trabalha em Serviço Social há mais de dez anos e é ativista pelos direitos de pessoas LGBTQIA+ e feminista anti-racista fazendo parte da direção do Instituto da Mulher Negra em Portugal e da associação pelos direitos das lésbicas, Clube Safo. Mais recentemente, integrou o projeto de investigação no Centro de Estudos da Universidade de Coimbra, Diversity and Childhood: transformar atitudes face à diversidade de género na infância no contexto europeu coordenado por Ana Cristina Santos e Mafalda Esteves.

Texto de Alexa Santos
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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