No início de Maio, em busca de livros na Feira da Ladra, gastei algum tempo a observar centenas de fotografias da era colonial. Encontrei um conjunto bastante completo protagonizado por um homem branco identificado apenas como “Artur”. Em algumas fotografias, o sorridente Artur é visto com os seus companheiros militares. Na maioria delas contudo, está em bailes, ou a uma mesa à sombra de árvores, com mulheres negras das quais nada sabemos e cujos olhares muitas vezes não encaram a câmara, mulheres cujos corpos estão tensos e os rostos voltados. Um acto de resistência, de fuga?

Recentemente, falei com a socióloga Cristina Roldão a propósito de cidades do futuro e da incontornável descolonização das mesmas, numa iniciativa do Goethe-Institut. Abordou-se assim, durante o debate online do Re-Mapping Memories: Lisboa-Hamburgo, a exposição “Visões do Império”, coordenada por Joana Pontes e Miguel Bandeira Jerónimo, patente no Padrão dos Descobrimentos. Eu visitara a exposição semanas antes, naquela que foi a minha primeira incursão ao monumento-mor do colonialismo, apenas para descobrir que havia ainda muitas pessoas negras residentes na Área Metropolitana de Lisboa que jamais lá tinham entrado. Esta exposição fez-me reparar sobretudo nos olhares negros, que me prenderam e causaram pesar. Reconheci exposto um exemplar de um livro raro que adquiri há alguns meses e que choca pela comparação de pessoas com animais, com a exposição propagandista encenada e forçada de corpos negros e a descrição narrativa das mesmas, aludindo em alguns casos à comparação básica com macacos ou objectos inanimados, como uma mulher idosa de seios grandes desnudos descritos como sacos de café sem leite. Na exposição, o livro é identificado como “Álbuns fotográficos e descritivos da colónia de Moçambique, Lourenço Marques. José dos Santos Rufino, 1929.” Foi portanto removida a parte das “raças, usos e costumes indígenas e alguns exemplares da fauna moçambicana.” Não obstante, esta é uma exposição que abre com palavras de Telma Tvon e encerra com uma vídeo-instalação de Miriam Taylor. O que está entre uma e outra honrará e louvará Os Outros, como pretende Tvon? Cristina Roldão observou, no decorrer da sua reflexão, que “não é dado destaque à luta de libertação por parte dos países oprimidos”. Assim, naquela sala, na verdade nunca nos libertámos. Durante o tempo em que percorremos a exposição, estamos ainda colonizados de algum modo. Segundo Roldão, “é fundamental compreender que muitos dos familiares destes corpos negros apresentados até à exaustão, de exposição em exposição, ainda estão vivos e teriam certamente uma palavra a dizer”. Ou talvez se lhes faltassem as palavras, conforme o teor de violência das fotos. O repetir das imagens é sempre o repetir da violência, como vimos em loop nos vídeos de agressão a Cláudia Simões e tantos outros. Deve existir pudor e desconforto de parte a parte ao mostrar estes registos por forma a não resvalar para a romantização. Deve haver respeito. Como nos alerta Susan Sontag em Ensaios sobre Fotografia: “O limite do conhecimento fotográfico do mundo consiste em que, embora possa despertar consciências, nunca pode ser um conhecimento ético ou político. O conhecimento que as fotografias permitem adquirir é sempre uma espécie de sentimentalismo, cínico ou humanista. (...) o acto de fotografar é um simulacro de apropriação, um simulacro de violação.”

No último ano, temos visto acontecer curtas-metragens (Pele Escura de Graça Castanheira), campanhas de moda (Luís Borges para a Gant a propósito do Pride) e até sessões fotográficas de promoção de espectáculos (Aurora Negra de Isabél Zuaa, Nádia Yracema e Cléo Diára), do lado exterior do Padrão. A polémica em torno deste símbolo começa no nome, continua nos homens retratados (único género presente) e no seu papel na História, estendendo-se depois infinitamente até a todos e todas os que dela são ausentes. Do lado de dentro, o Padrão dos Descobrimentos tem realizado exposições e mostras de cinema nos últimos anos em volta do bom velho tema, no entanto devemos perguntar-nos a quem elas servem, quem as idealiza e qual o espaço curatorial efectivamente disponibilizado às pessoas racializadas, o que essas dinâmicas perpetuam, como são ilustrados e narrados esses espólios, que pessoas racializadas têm lugar participativo e a que custo? Fará sentido um monumento que institui um Prémio Amílcar Cabral e exibe mostras de cinema antirracista continuar a chamar-se Padrão dos Descobrimentos? E se Kalaf Epalanga propõe que ali seja o Museu da Kizomba, eu pergunto por que razão não se erigiu ainda uma estátua a Amílcar Cabral. Nem sempre teremos respostas, mas é sempre tempo de perguntas.

De volta à Feira da Ladra: ainda pensei em trazer comigo algumas das fotografias de Artur, mais pelas mulheres retratadas do que por outra coisa, ciente de que jamais saberia quem elas eram, mas sem intenção de lhes inventar uma história, pois elas têm as suas. Enquanto estiverem perdidas por entre as milhares de fotografias e anúncios de propaganda colonial estarão a ser manuseadas, usadas, vendidas, compradas e coleccionadas por igual número de mãos e olhares curiosos e estranhos, não terão paz, continuarão a servir alguém e algo. De que me valeria coleccionar a sua dor, perpetuar o seu silêncio, o seu não-consentimento? A tentação é grande, mas eu não vou salvar o mundo através de fotografias. Como não irei mudar a História através delas. Até porque não me cabe a mim a reparação. Ela caberá talvez a quem colecciona, ciente ou não do saudosismo e da nostalgia colonial, os momentos em que Os Outros falavam mas não eram ouvidos, olhavam mas eram oprimidos. A mim cabe-me o futuro, tirar as minhas próprias fotos, preservar as minhas memórias, contar as minhas próprias histórias. A mim cabe-me viver plenamente. É isso que eles não aguentam.

-Sobre Gisela Casimiro-

Gisela Casimiro é uma escritora, artista e activista portuguesa nascida da Guiné-Bissau. Publicou "Erosão" a título individual e fez parte de antologias como "Rio das Pérolas", "Venceremos! Discursos escolhidos de Thomas Sankara" e "As Penélopes". Nos últimos anos assinou crónicas regulares no Hoje Macau, Buala e Contemporânea. Colabora com diversos festivais, museus e teatros. Participou em exposições no Armário, Zé dos Bois, Balcony, Casa do Capitão, Mercado de Culturas e Museu Nacional de Etnologia. É membro do INMUNE - Instituto da Mulher Negra em Portugal.

Gisela Casimiro é formadora do curso "Revolução e Rua: Práticas do Artivismo Decolonial" que decorre nos dias 26, 27 e 28 de julho na Academia de Verão Gerador 2021.

Texto de Gisela Casimiro
Fotografia cortesia de Gisela Casimiro
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