Há cinco anos, Bo Burnham decidiu abandonar os palcos. Os ataques de pânico que tinha durante os seus espetáculos de stand-up tornaram-se recorrentes e demasiado violentos. Dedicou-se a alguns projetos de cinema, como o muito aclamado Promising Young Woman, onde participou como ator, e Eighth Grade, que escreveu e realizou. No início de 2020, quando se sentiu novamente capaz de regressar à vida de performer, a pandemia obrigou-o a manter-se dentro de casa por tempo indefinido. Antes que a humanidade se extinguisse de vez, Burnham fechou-se no seu quarto a criar. Para além dos habituais teclados, pedais e microfones, tinha uma câmara e umas quantas ideias mórbidas para levar a sua saúde mental a um novo declínio. Durante um ano, deixou que a desgraça do mundo o inspirasse e refletiu sobre o seu lugar na comédia enquanto homem branco, heterossexual, privilegiado, com temas épicos de reparação e redenção ideológica.

Enquanto os artistas se esforçavam por reinventar o seu trabalho no formato digital, Burnham construía o seu regresso no desconforto do lar onde já estivera praticamente isolado durante cinco anos. Inside, o resultado dessa epopeia solitária, foi lançado recentemente na Netflix. É um filme escrito, realizado, interpretado e editado pelo próprio. Tudo acontece num único lugar, o quarto/escritório onde escreveu e ensaiou muitos dos seus números musicais mais conhecidos.

Na primeira vez que se dirige ao público, Burnham e a sua câmara estão de frente para um espelho, ou seja, ele não fala diretamente para a câmara, mas sim para o reflexo da mesma. Pensei que esta encenação poderia sugerir duas coisas: primeiro, o performer cria uma espécie de separador onde se permite ser ele próprio, distanciando-se da sua obra e falando, sem qualquer filtro emocional, intelectual ou artístico, sobre as razões que o levaram a fazer o filme e sobre o processo de construção do mesmo. Segundo, se assumirmos que a câmara representa o olhar do público, vê-la refletida no espelho pode ser um convite subtil de Burnham para que olhemos também para nós próprios.

Os seus momentos de desabafo escalam em emoção à medida que o final se aproxima, e aquilo que parece um exercício hiperconsciente de autocrítica ou, se quisermos, autocensura, - com cortes brutos entre cenas e mudanças repentinas na estética e no conteúdo - pode também ser uma pista para a tendência evasiva de certos grupos da sociedade moderna quando as conversas ameaçam a sua noção de privilégio. Mesmo evitando moralismos sobre temas que, noutro tempo, teriam feito muitos espectadores desistir do seu filme a meio, Burnham não deixa de lançar algumas perguntas fundamentais: conseguimos conversar sobre o que quer que seja? Conseguimos aceitar que não temos de ter opiniões formadas acerca de tudo? E com quem estamos mesmo a conversar quando recorremos a um ecrã para expressar essas opiniões?

A Internet é um alvo incontornável para Burnham. Os temas FaceTime with my Mom (Tonight), Sexting, White Woman’s Instagram e Welcome to the Internet refletem com desconcertante precisão os clichés das relações interpessoais no mundo digital. Rimo-nos de Burnham como nos devíamos rir de nós próprios.

Entre as mesmas quatro paredes, vemo-lo tropeçar de microfone na mão, em busca do plano perfeito, da luz perfeita, da pose perfeita. Percebemos que o perfeccionismo que o define como criador é também o que o faz questionar cada vez mais a pertinência artística e política da sua arte.

Ao testemunhar a sua claustrofobia, dei por mim a pensar sobre a forma como gastámos o tempo em que estivemos confinados. Nas paredes das nossas casas, projetámos paisagens de esperança e otimismo, mas o aborrecimento e a melancolia forçaram as nossas cabeças em direção ao chão. Com o caos do lado de fora, restava-nos olhar para dentro. E dentro, no lugar da liberdade, da informação, das emoções, também encontrámos o caos. Para muitos, a criatividade deu lugar à apatia e a apatia tornou-se um crachá de inteligência emocional. Usámos emojis de risos enquanto chorávamos, aprendemos a ler a linguagem corporal das salas Zoom, desejámos ter alguém com quem conversar, um público mudo e adormecido, mas empático ao ponto de legitimar as nossas crises existenciais disfarçadas de opiniões. Abraçámos os pequenos momentos de inspiração que, insidiosamente, nos foram convencendo que o filme de que fazíamos parte caminhava para um final feliz. Mas talvez Burnham soubesse, desde sempre, que brincar com assuntos sérios, como o capitalismo, a desinformação, o privilégio branco, ou a opressão sistémica, também significa aprender e sofrer com eles.

A arte não cura, mas pode arder. E Burnham foi generoso ao ponto de se deixar arder sozinho, fechado no seu quarto e nas suas ideias, para depois nos oferecer as cinzas. Não assistimos, necessariamente, ao regresso do humorista. Assistimos, talvez, a uma representação auto-irónica do processo de reeducação pela qual muitos homens brancos privilegiados passaram ou já deviam ter passado.

-Sobre Marco Mendonça-

Marco Mendonça nasceu em Moçambique, em 1995. É licenciado em Teatro pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Estreou-se nos The Lisbon Players. Em 2014, começou a trabalhar com a companhia Os Possessos. Estagiou, entre 2015 e 2016, no Teatro Nacional D. Maria II, onde participou em espectáculos de Tiago Rodrigues, João Pedro Vaz, Miguel Fragata e Inês Barahona, entre outros. Em 2017, trabalhou numa criação de Tonan Quito e fez o seu primeiro espectáculo com a companhia Mala Voadora.  Em 2019, estreou-se como autor e co-criador em “Parlamento Elefante”, projeto vencedor da primeira edição da Bolsa Amélia Rey Colaço. Atualmente, integra o elenco de “Sopro” e “Catarina e a beleza de matar fascistas”, de Tiago Rodrigues.

Texto de Marco Mendonça
Fotografia de Joana Correia
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