O mês de Junho é dedicado um pouco por todo o mundo à celebração do orgulho de pessoas LGBTQIAP+ (lésbicas, gays, bisexuais, trans, queer ou em questionamento, intersexo, assexuais ou agénero e pansexuais, mais o mais que representa todas as identidades possíveis que são mais que muitas).

Neste mês vemos as Marchas de Orgulho saírem à rua, ou no caso de Lisboa ainda sem sair à rua porque o COVID-19 teima em não deixar. Vemos também cada vez mais marcas a assinalar este dia metendo arco-íris em tudo o que é sítio: roupa, canecas, cuecas, lápis e canetas, toalhas de praia e tudo mais que possam vender para que as pessoas possam celebrar (e comprar) em grande estilo este mês e sair à rua, orgulhosamente.

Mas (o mas tinha de vir) vemos também que, porque as pessoas estão mais visíveis, um aumento de casos de violência e assédio em espaços públicos e na rua.

No Porto, uma mulher trans foi expulsa de um restaurante depois de a chamarem de “traveco”, na Inglaterra um homem trans Português foi agredido. No metro em Lisboa uma drag queen foi assediada e vítima de discurso de ódio. Uma criança foi atropelada enquanto fugia de um grupo de colegas que estavam a fazer bullying homofóbico no caminho da escola para casa. Um casal de mulheres foi abordado por nove polícias, vou repetir, nove polícias enquanto namoravam num jardim em Lisboa depois de ter sido feita uma queixa por uma pessoa (um homem, claro) que estava no jardim e que se sentiu incomodado pela demonstração de afeto.

Muitas pessoas não sabem porque é que em Junho se celebram as nossas vidas, existências, experiências e contributos para o mundo que sem nós seria muito mais cinzento ou preto e branco. Outras pessoas há que continuam a perguntar-se porque é que é preciso celebrar e dizem coisas como:

  • As pessoas hetero também deviam ter um dia do Orgulho.
  • Mas se querem ser como as outras pessoas, porque é que têm de ter um dia/mês para celebrar?
  • Mas se somos todos iguais não temos de ter dias específicos.

Neste momento qualquer pessoa que não seja heterosexual ou cisgénero respira fundo e faz uma de três escolhas: a primeira, não dizer mais nada;  a segunda, ter um debate aceso que muitas vezes acaba com nenhuma das pessoas a concordar e de costas viradas; ou a terceira, puxa do quadro branco, da caneta e começa a explicação:

Há 52 anos atrás um grupo de pessoas LGBT - entre elas Marsha P. Johnson (1945-1992) e Stormé DeLarverie (1920-2014) - muitas delas pessoas negras, trans e trabalhadorxs do sexo, estavam num bar, o STONEWALL e um grupo de polícias entrou nesse bar, como já era costume, para prender e bater nas pessoas que lá se encontravam. No dia 28 de Junho de 1969 as pessoas para quem o bar era como uma segunda casa não deixaram que mais uma vez a polícia exercesse violência sobre os seus corpos e ripostaram. Este gesto levou a vários confrontos com a polícia ao longo de dias e consequentemente à primeira marcha de orgulho LGBT do mundo que aconteceu no dia 28 de junho de 1970[1] em Nova Iorque.

Importa por isso dizer que atrás do glitter, das plumas e do bandeirão arco íris que sai à rua em várias cidades do país e do mundo, que o Orgulho é um símbolo das nossas lutas, é um símbolo do caminho longo que ainda temos de caminhar todos os dias porque não somos heterossexuais, cisgénero ou porque não respeitamos a expetativa da sociedade heterosexista e normativa de sexualidade e género.

O Orgulho é símbolo do que ainda temos de passar para/por sermos iguais a nós mesmas, mesmos, mesmes. Sinal disso os casos de violência e assassinato que vemos acontecer todos os dias contra pessoas LGBTQIAP+ pelo mundo inteiro.

O Orgulho é um alerta para o que ainda falta fazer para que quem somos, as nossas relações e amores sejam respeitados, legitimados e incluídos nas leis, nos direitos humanos, nas políticas públicas não só a nível global, nacional mas também a nível local.

O Orgulho é uma lembrança de que os nossos corpos, os nossos afetos ainda suscitam violência por parte das autoridades, ainda são constantemente assediados, violentados e assassinados. Que as instituições ainda não nos têm em conta e que muitas vezes apenas se lembram de nós um mês do ano. Como se apenas existissemos em Junho.

O Orgulho é uma ferramenta de luta e resistência que combate governos que continuam uma guerra aberta contra nós e ameaçam a nossa sobrevivência e bem-estar, que reivindica o espaço público para nós, que ocupa espaço em todos os contextos e que se apropria e desconstrói normas e regras de género e sexualidade que não nos cabem que não são pela diversidade, pela multiplicidade, pela liberdade e pela felicidade.

O Orgulho existe porque sair de casa orgulhosamente ainda pode custar a nossa vida, a nossa integridade física, o nosso bem-estar emocional. Existe porque sentarmo-nos à mesa com pessoas da nossa família de origem abertamente quem somos muitas vezes não é possível. Existe porque os livros de história, os panfletos nos centros de saúde, as políticas sociais das nossas câmaras municipais ainda não nos refletem, muitas vezes castram-nos e tentam curar-nos reforçando a ideia de que estamos doentes, que vivemos no pecado, que os nossos amores são errados.

Sermos orgulhosamente quem somos é ainda muito difícil e por isso continuamos a sair à rua não só em Junho, mas todos os dias da nossa vida, mesmo que custe e a aula acaba muitas vezes com as pessoas a dizerem:

  • Não sabia que ainda era tão difícil e que as pessoas LGBT ainda passam por isso tudo.

Mas é! Mas passam! E ainda assim resistem, prosperam e mudam o mundo.

Para ver:


[1] https://visao.sapo.pt/atualidade/sociedade/2020-06-27-ha-50-anos-a-comunidade-lgbt-marchou-pela-primeira-vez-hoje-o-orgulho-celebra-se-em-casa/

-Sobre Alexa Santos-

Alexa Santos é formada em Serviço Social pela Universidade Católica de Lisboa, em Portugal, e Mestre em Género, Sexualidade e Teoria Queer pela Universidade de Leeds no Reino Unido. Trabalha em Serviço Social há mais de dez anos e é ativista pelos direitos de pessoas LGBTQIA+ e feminista anti-racista fazendo parte da direção do Instituto da Mulher Negra em Portugal e da associação pelos direitos das lésbicas, Clube Safo. Mais recentemente, integrou o projeto de investigação no Centro de Estudos da Universidade de Coimbra, Diversity and Childhood: transformar atitudes face à diversidade de género na infância no contexto europeu coordenado por Ana Cristina Santos e Mafalda Esteves.

Texto de Alexa Santos
Fotografia de Lisboeta Italiano
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