Os Espacialistas são um colectivo que se move num território híbrido entre a arte contemporânea e a arquitectura.

Iriamos falar sobre a casa portuguesa. Levava um guião. Mas a casa que levava, abriu-se. As paredes caíram.

Com Os Espacialistas, mover-nos-emos entre fragmentos e esses gestos-traços desenharão uma constelação. O texto seguirá o vaivém desta conversa, porque, algures, disseram-me “brincamos com a informação que vamos tendo das várias áreas e é isso que nos faz pensar, não só a partir da parte, mas do universal.” Por isso, nenhum fio será solto e todos os pontos se manterão iluminados.

Casa portuguesa: ideologia e lugar

O imaginário da casa portuguesa, cuja reflexão teve início com uma nota de rodapé, de um artigo de Henrique das Neves, datado de 1890, foi reforçado pelo Estado Novo. Apesar das influências modernistas, o retrato do país encontra-se espelhado na arquitectura de cariz tradicional e regionalista, inseparável do habitar. Apesar de muitas das casas com as quais nos relacionamos já não serem essas, é frequente recuarmos para pintar a casa portuguesa.

Nos anos 20, Le Corbusier, pseudónimo de um arquitecto, urbanista, escultor e pintor suíço, pensando a casa, no contexto das inovações tecnológicas suas contemporâneas, chama-lhe “máquina de habitar”, acreditando que a arquitectura é um reflexo do seu tempo. “A imagem da arquitetura, nessa altura, foi pensada numa relação entre o que era o habitar tradicional, mas, simultaneamente, o habitar moderno, que era dado através da era dos transportes que estava a vir. O tema do transporte transportou esses imaginários para o tema da casa. E a casa, de facto, era isso.” Porém, esta actualização da casa não se verificou em Portugal, a qual continuava com a “imagem agrícola”: “o marido que trabalhava fora de casa, que ia para a horta ou para o campo, a senhora que se dedicava ao espaço doméstico e as crianças, que brincavam ali, naquele espaço reduzido do quintal ou do jardim, sob o olhar atento da mãe. Havia todo um controle do espaço da casa. A própria casa era uma instituição controlada, não só por quem estava dentro dela, mas também do ponto de vista político, por alguém que queria que as pessoas se mantivessem dentro destas,” aponta o Espacialista Luís Baptista. O arquitecto chama, assim, a atenção para a dimensão política da casa.

Raul Lino foi o primeiro arquitecto português a pensar a casa portuguesa em relação com o contexto europeu, que conheceu a partir das suas viagens, e cujos conhecimentos, nestas adquiridos, também no que diz respeito às artes decorativas, inspirados no movimento Arts & Crafts, procurou aplicar a cada zona do país.

“Enquanto que, de 1927 a 1928, Le Corbusier andava a fazer o manifesto modernista e os cinco pontos da arquitectura moderna, nós, nos anos 30 e 40, andávamos a tentar definir o que seria uma casa tradicional portuguesa.” Apesar do modernismo já ter chegado a Portugal, “com o Estado Novo voltámos atrás”. “Numa parte da Europa, estava-se a tentar perceber as tecnologias de construção e as janelas em comprimento. Nós, ainda, andávamos a tentar perceber como é que fazíamos a janela e o alpendre, para tentar criar uma imagem da arquitectura portuguesa”, reflecte o Espacialista Diogo Castro.

Entre 1955 e 1961, vários arquitectos, numa iniciativa do Sindicato, realizaram um trabalho de pesquisa e de levantamento, designado “Inquérito à Arquitectura Popular em Portugal”. Contrariamente ao que o Estado Novo defendia, deste resultou um confronto com a diversidade do país, no que toca às construções vernaculares. É o contexto que a explica. “A casa também é um resultado, não só de vontades, que podem ser políticas ou estéticas, ou de gosto vigente. É uma resposta a determinadas condicionantes, que são geográficas, físicas, materiais. Tem que ver com a vida das pessoas, em determinadas circunstâncias. Um bom projecto de arquitetura é uma resposta a determinados contextos, pois transforma essa casa num lugar e é, no fundo, isso que procuramos quando desenhamos uma casa, que seja um lugar onde construímos uma série de relações e ligações, não só com as actividades que desenvolvemos mas, também, com as pessoas que partilham esses lugares connosco, que os constroem com o tempo de permanência neles. A casa portuguesa, antes de tudo, é um espaço de permanências que, muitas vezes, esquecemos. A dona de casa passava 24 horas em casa. Era, de facto, um espaço onde se passava muito tempo. Era onde se nascia, morria, rezava, onde se guardavam as imagens familiares. Todas as questões do humano eram passadas no espaço da casa”, refere o Espacialista Luís.

Ecrã: a casa fora do lugar

 “Hoje em dia, a casa é o telemóvel, que é a casa que transportamos connosco. Transportamos a casa. Há aqui uma imersão. Não estamos num espaço. Estamos fora do espaço. O espaço da casa é qualquer espaço, desde que tenhamos esta janela aberta para o mundo. O habitar passa por isso. Este grande paradigma da inversão das relações entre a casa como nós imaginamos, enquanto abrigo, abrigo que guardava as nossas imagens, as imagens de afecto, das nossas funções corporais… Hoje em dia, elas estão dentro de uma janela pequenina. Já não é a janela e a porta da casa tradicional que nos interessa. A nova janela está dentro desta tecnologia, que é o ecrã. E esta colisão é que me parece importante na casa. E, aqui, a casa portuguesa deixa de existir, para se ter uma casa quase mundializada, em que o mundo já é experiência. Perdemos o nosso próprio mundo. Temos o mundo em comum,” continua. Os Espacialistas pensam, então, na possibilidade de desaparecimento do público e do privado, que corresponde à perda da cidade e da casa. Trata-se de contrários que se sustentam mutuamente. “A palavra ‘político’ vem de ‘cidadão’, que era um habitante da polis, da cidade, onde havia uma série de espaços públicos, ou espaços comuns, e, hoje em dia, o facto de a casa poder, ou não, desaparecer tem, exactamente, que ver com essa questão do espaço público. A cidade pode desaparecer se ficarmos fechados em casa”, acrescenta. O mundo engole o íntimo.

Casa Portá(c)til, 2009

Corpo: desenhador da casa

“Há muitas espécies de casas. Acho que é uma metáfora, pensarmos que a casa, para cada um de nós, tem, essencialmente, que ver com o tipo de relações e ligações que estabelecemos com o espaço envolvente, que passa pelos objectos. Os objectos, em grande quantidade, que as casas tradicionais, muitas vezes, tinham, estão associados às memórias, aos afectos, àquilo que se herda. É uma memória colectiva. Podemos contar a história de uma família pelos objectos. Essa capacidade dos objectos, que passam de mão em mão…” O filósofo e urbanista francês Paul Virilio esclarecia que “o problema do arquitecto não é o mesmo problema da filosofia, o do sujeito ou objeto, é o problema do trajecto, é da forma como percorremos os espaços, como desenhamos os movimentos. E é nessa relação, entre os movimentos que criamos, que está o sujeito e o objecto”, recorda Luís.

Os movimentos transformaram-se com as tecnologias, que os condicionaram. “Os nossos movimentos são cada vez mais restringidos a estas plataformas de comunicação que todos estabelecemos. O nosso corpo tem sido amputado na sua gestualidade. Cada vez temos menos necessidade de espaços físicos muito grandes, que não conseguimos controlar fisicamente.” “O nosso inimigo é o nosso vizinho, a pessoa que está mais próxima. Os nossos amigos são o longínquo. Somos amigos de pessoas que estão longe de nós”, continua, convocando Paul Virilo. Habitar passa também pelas relações de vizinhança entre as casas, entre distintas identidades.

Esperar: cultivar e habitar

“É uma questão fundamental no habitar, a palavra ‘agricultura’. A origem da casa tem um sentido agrícola. A palavra ‘agrícola’ significa, ao mesmo tempo, cultivar e habitar. Esta relação entre a actividade e o permanecer no espaço é fundamental. Foi a actividade agrícola que nos fez ter necessidade de permanecer em casa. Tínhamos de esperar o passar do tempo e que as colheitas dessem origem a alguma coisa.”

Casa: corpo sem órgãos

Recordando Siza Vieira, o Espacialista Sérgio Estevão, apresenta a casa como um corpo, uma vez que exige um cuidado permanente, porque em transformação constante. “Uma casa é um ofício a tempo inteiro.” Esta exigência faz do “cuidador de casas” uma espécie de profissional. Luís comenta que o próprio arquitecto “foi desenhando casas ao longo da vida, mas acha que nunca desenhou nenhuma no sentido verdadeiro”, precisamente pelo facto destas serem da ordem do inacabado.

Chamando o dramaturgo, actor, escritor, poeta e filósofo Antonin Aurtaud, que lançou o “corpo sem órgãos”, os Espacialistas falam “do corpo da casa sem órgãos”, no sentido de que “uma casa deveria ser o lugar de todas as intensidades, amorosas, afectivas, religiosas, filosóficas… De facto, a casa é o grande laboratório das intensidades. Quando vais para o espaço público, são essas intensidades que levas para partilhar. A casa devia ser uma espécie de celeiro, onde armazenas aquilo que tu tens de melhor, para partilhar com os outros, no espaço público, quando sais. Essa qualidade que a casa tem, de nos fortalecer e dar energia para o dia seguinte, muitas vezes, é, exactamente, o contrário. Chegamos a casa esgotados. É só um lugar de espera.” Diogo aplica o conceito de lugar “não lugar”, de Marc Augé, etnólogo e antropólogo francês, “um lugar de espera, sem definição, como um aeroporto ou uma paragem de autocarro”, para falar das novas formas de habitar a casa. Nesta, esperamos que o tempo passe, muitas vezes recorrendo ao telemóvel para suportar esse período, não dar conta dele, para que chegue outro momento, no qual faremos algo.

A Casa quer Ser Humana, 2009

Marcas e leis: perda da casa

 “As marcas são um novo campo agrícola das nossas casas. É o tema da globalização. É o inferno do igual. Mesmo que fossem os objectos de família, que eram guardados ali, havia a diversidade. Tínhamos uma história associada a esses objectos, que eram manufacturados, não eram repetições, que todos nós consumimos de uma forma massiva.” O fim da peça única é a perda da aura e da alma. “Vivemos nessas casas reproduzidas.  Se não tivermos cuidado com a casa, esse trabalho diário com a casa, de a personalizar, de projectarmos o nosso eu, como nos construímos enquanto seres diferentes, que habitam espaços diferentes e que podemos partilhar um meio diverso? Vivemos esse totalitarismo do igual e temos de comunicar da mesma maneira, falar das coisas de uma maneira, de ter opiniões sobre tudo”, nota Luís. O exercício da liberdade passa, fundamentalmente, pelo habitar, pela criação de objectos e relações diferentes com a casa, que, na opinião de Diogo, “devia ter um espaço específico para sermos livres.”

Porém, esta uniformização da casa, produzida pela mesma força responsável pelo adormecimento das subjectividades, não é só uma questão do sistema socioeconómico, mas também legal. O Regulamento Geral das Edificações Urbanas “nivela-nos na forma de habitar. Ou seja, dá casas iguais a todos, cheias de restrições, de regras. Não faz muito sentido pensar que a casa pode ser normatizada, normalizada, por um conjunto de regras de acessibilidade, de temperatura, que fazem com que o arquitecto, no final, fique reduzido a muito poucas soluções. Não são soluções que digam respeito ao cliente, que tem uma vivência, experiência e percepção própria do mundo”, defende Luís.

Intervalo: preparação e passagem

A casa tradicional portuguesa apresentava um espaço de transição, que a preparava e estabelecia o corte e a simultânea ligação entre o exterior e interior. Esse espaço, que implica um tempo, é um aspecto, para os especialistas, fundamental para a qualidade do habitar.

“Se pensares no cinema… Costumamos dizer que o movimento está no intervalo. O movimento entre dois fotogramas está no intervalo, e é nesse intervalo que está todo o segredo de qualquer relação que se estabelece entre as coisas. Essa ligação que está presente na casa, que se faz entre o interior e exterior, e, muitas vezes, é formalizada na pala, no alpendre, numa zona coberta por vegetação, no degrau. Esse momento de transição é onde te consciencializas para entrar noutra realidade. É o momento em que te preparas para sair de uma determinada realidade e entrar noutra. Se não tivermos consciência desses nossos gestos, diariamente, a casa vai perdendo os valores, banaliza-se no sentido das transições. Isso aconteceu, por exemplo, nos materiais das casas. Antigamente, tinham as paredes muito grossas. A parede era um intervalo grande, onde até podias namorar à janela, habitar o espaço da janela. Hoje, tens um vidro que separa fisicamente. A casa perdeu peso. O Gaston Bachelard [filósofo e poeta francês] dizia que aquilo que não tem peso não é susceptível de ser imaginado. Vivemos numa geração muito leve”, constata Luís.

Casa i/material: memória e matéria

É precisamente por isso que Os Espacialistas criaram a expressão “casa i/material”, uma vez que nesta habitamos memórias, mas também materiais, que, igualmente, nos contam. “O corpo humano é o primeiro material de construção do espaço. Não é só a pedra, a telha e os materiais com que constróis o espaço físico.  É o primeiro material que constrói e que usas para construir, e a finalidade é mesmo dar abrigo ao corpo”, diz Diogo, apresentando outra ideia Espacialista.

“O próprio Bachelard dizia que a função primordial da arquitectura é o abrigo do devaneio, ou seja, o abrigo das imagens, dos sonhos. No fundo, é um bocadinho isso que nós vivemos com a quantidade de imagens que gerimos, mas de uma forma descontrolada, em que já não conseguimos, de facto, gerir essas imagens, guardá-las e pensá-las. É esse voltar ao devaneio ou ao abrigo das imagens que nos interessa. É uma das funções principais da casa. Isso é que eu acho que é o grande tema da casa contemporânea, é perceber como é que vamos regular as imagens que nos interessam. Regular, não no sentido das regras, mas no sentido daquilo que nos interessa para conseguirmos comunicar com os outros. Só comunicamos através de imagens.” Quando escolhemos e partilhamos imagens já estamos perante os outros. A casa tem uma “dimensão simbólica e social. É o símbolo do teu estatuto, do teu poder, da tua hierarquia social”.  Dentro da imaterialidade da casa, podemos encontrar outra dimensão, a criativa, que esteve sempre presente desde a caverna, cujas paredes eram decoradas. Então, a necessidade criativa faz-se presente na casa, porque esta “também é o lugar onde a actividade da liberdade, enquanto criatividade, ou criatividade enquanto a manifestação da nossa liberdade, é fundamental”, continua.

A própria história da casa é a história das imagens que guardamos dentro delas. Diogo exemplifica-o, a partir do larário, um lugar onde se encontravam os deuses que protegiam a casa, a família. É daí que deriva o termo “lar”, bem como “lareira”. Os larários dividiam-se entre os “dos seres humanos, escritores, poetas” e os “das entidades divinas, religiosas, imaginárias”. “O larário foi substituído pelo oratório, o oratório pela televisão, a televisão pela Internet.”

Casa síntese: sem saída

A casa passou a concentrar o mundo. Não é preciso sair para ir ao supermercado ou a uma loja, para assistir a um concerto, trabalhar, ou ser preso, por exemplo. Isso foi profundamente experimentado com o confinamento, quando a escola e o hospital entraram neste lugar. Diogo chama a atenção para as próprias descobertas. A descoberta do mundo já não é por navegação em barcos. “Hoje em dia, as grandes descobertas são tecnológicas e são feitas em casa ou numa garagem”, como o Facebook.

Luís estabelece uma comparação com a casa tradicional, no que diz respeito a esta questão da sobreposição das actividades humanas na casa. “O que se tentava era construir o maior número possível de ocupações do humano, para que ele não tivesse necessidade de comunicar com o vizinho, que é uma coisa importante do ponto de vista político. Pessoas juntas, a habitar juntas, pensam muito mais.” A arquitectura pode ser um “dispositivo de controlo do ser humano.”

Casa: tecnologia e acidente

O discurso que os Espacialistas foram desenvolvendo não rejeita a tecnologia, mas chama a atenção para a necessidade de a criticar. Luís cita Paul Virilo: “‘Sou um crítico das tecnologias, mas eu sei as vantagens que elas têm.’ Qualquer tecnologia traz um acidente. Inventamos um carro, temos acidentes de carro. Temos uma casa, os acidentes domésticos. Todas as invenções são, de fato, acidentes. Hoje em dia, há que pensar qual é este acidente geral e que está refletido nos espaços que partilhamos também, na forma como nós partilhamos o espaço.”

Esta reflexão pode-nos levar, uma vez mais, para o problema da casa portuguesa. A tecnologia é inseparável da globalização. Enquanto objecto da casa, a sua maior janela, impede-nos de pensar numa actual casa portuguesa, porque, na opinião de Diogo, para o ser, teria de ter materiais portugueses.

Arquitectura portuguesa: casa como objecto artístico

Porém, existe uma arquitectura portuguesa, que passa, sobretudo, pelo “respeito pelo sítio”, isto é, a “integração na paisagem”, explica Diogo.

Luís constata que o reconhecimento internacional de muitos arquitectos portugueses tem que ver com a elevação da arquitectura ao “estatuto de objecto artístico, exactamente porque o arquitecto não dá só uma resposta do ponto vista funcional e programático. Ele supera a própria função para criar um objecto artístico. Para Siza, a arquitectura tem de ser arte.” “Uma construção, para se tornar a arquitectura, teria de superar a função para a qual foi concebida”, acrescenta Sérgio.

“Siza Vieira é considerado um poeta, do ponto de vista de uma linguagem poética. Muitas vezes, olhamos para os objectos arquitectónicos do Siza e dizemos: Porque é que a sua arquitectura é considerada uma arquitectura poética e de autor? Todos reconhecemos qualidades, embora não saibamos perceber porque, de facto, tem essa dimensão poética.” É no corpo que os Espacialistas encontraram a resposta. “É uma coisa fundamental, porque a palavra poética está associada à acção. Os poetas não são aqueles que não fazem nada. São aqueles que agem através das palavras e metem as palavras em movimento, construindo e alterando as realidades, através das tais acções físicas que nós criamos. E a questão do Siza é muito interessante, porque está sempre a fazer essa relação entre o corpo e a casa. Se olharmos para os textos que escreve, de repente, a casa ganha as dimensões de corpo humano. É isso que faz da arquitetura do Siza uma arquitectura poética. De facto, só existe poesia a partir do ser humano, enquanto ser consciente da necessidade de pensar e estimular-se do ponto de vista das capacidades abstratas.” A arquitectura portuguesa procura ultrapassar-se e, deste modo, transforma-se noutra coisa. Luís recorda que Siza queria ser escultor. “Outra das qualidades dos arquitectos portugueses é querer ser sempre outra coisa, para além do que são. Têm sempre uma série de eus dentro deles, que gostariam de pôr em prática.”

“A arquitectura é uma disciplina que nos permite sintetizar uma série de conhecimentos que temos de outras áreas. Tens de ser um amador de muitas coisas.”

O Espacialista atribui outra característica aos arquitectos portugueses, a capacidade “de dar respostas a problemas concretos. A diferença da arquitectura, em relação a outras áreas, é que esta é sempre uma resposta a um determinado problema, seja político, doméstico ou pandémico. De repente, adaptamos espaços. Um estádio ou um ginásio transforma-se num hospital de campanha. Se pensarmos na arquitetura pombalina… Ainda hoje existe, porque teve a capacidade de se adaptar a várias funções ao longo do tempo.

A arquitetura deve ter, na sua génese, qualquer coisa de universal, qualquer coisa que se vai repensando e actualizando conforme os hábitos e os costumes do homem. Isso é a melhor característica da arquitetura, muitas vezes da Portuguesa.”

Por isso, Diogo comenta que é preciso ter em conta o futuro e, nos projectos presentes, deixar-lhe um espaço, um espaço de liberdade. Como exemplo, aponta o cubículo, um espaço, das antigas vilas romanas, sem definição, que servia diversas funções.

Paisagem: quadro

A “paisagem” é recente. Foi a pintura que a criou. A paisagem é uma construção onde se sobrepõem uma série de realidades ou circunstâncias. É sempre um determinado enquadramento.” O conceito de território é mais vasto, porque já não se trata da dimensão do quadro. Louis Kahn, arquitecto estónio, “dizia que a arquitectura só começava a partir do momento em que decides onde vais implantar a construção que queres fazer. E a paisagem também pode ser esse momento, quando decides onde vais construir a tua casa, com um determinado enquadramento.” Será nessa imagem que ele emergirá.

“A paisagem é lida a partir dos dispositivos de representação do homem, a partir da pintura, da fotografia, do cinema, ou seja, a paisagem só existe a partir do momento em que nós conseguimos criar dispositivos que nos permitem pensar ou fixar aquilo que vemos. Por isso, a paisagem é um termo da representação”, explica Luís. Novamente, chama Paul Viril, que estabelece uma correspondência, uma dependência, entre o tempo e a paisagem. Viril tomou o aparecimento do TGV como o desaparecimento da paisagem. “A paisagem só pode ser absorvida com uma determinada velocidade. A paisagem, com a aceleração, desapareceu. Tens a viagem, um ponto de partida e de chegada. Mas a paisagem implica o desvio.”

Projecto de arquitectura: uma conversa

Comentando a falta de reflexão, por parte do sistema educativo, em torno e dentro da casa, os Espacialistas partilham que, quando um projecto é pedido a um(a) arquitecto/a, não se fala da qualidade do habitar, mas da quantidade, pois grande parte das pessoas não estão despertas para outras dimensões que vão além das divisões.

“Um bom projecto de arquitectura, dizem os mais conhecidos, é sempre uma boa conversa entre o cliente e o arquitecto. O arquitecto tem de ser capaz de perceber que tipo de arquitectura é que aquela experiência de vida, ou aquela pessoa, consegue transmitir”, de modo a que a casa seja para ela, verdadeiramente, diz Diogo.

“Quase que era preciso uma disciplina de educação espacial para perceber a importância do espaço no prazer de estar no mundo. Não há uma disciplina de espaço nas escolas. Aprende-se os reis, as personalidades da Filosofia, da História, mas não se aprende as pessoas que constroem diariamente os espaços que habitamos”, identifica Luís. A casa ainda não está a ser pensada como “um objecto que te educa”.

Casas: quarto

É muito comum na vida académica, ou por motivos socioeconómicos, a partilha de casa com pessoas que não pertencem ao núcleo familiar e, muitas vezes, são até desconhecidas.

“Partilhar casa é também uma forma de pensar a casa portuguesa. Tens a possibilidade de ser confrontada, diariamente, com outras formas de viver. Se calhar, num quarto, hoje em dia, desde que tenhas acesso a um frigorífico, a uma casa de banho e a estas janelas virtuais, já está a cumprir as funções do habitar.”

A particularidade deste habitar também tem que ver com a concentração de diversas velocidades numa mesma divisão, uma vez que a maioria dos objectos se encontram nela. “O objecto é aquilo que te coloca em movimento. São pensamentos, antes de tudo. Uma boa casa é aquela que nos faz andar. ‘O pensamento que vale é aquele que anda’”, diz Luís, citando Nietzsche.

Nestes casos, o que se pensa é como, num único espaço, se tem “velocidades diferentes, a dos olhos, das mãos, do corpo, de forma geral, e da deslocação. Perceber como viajas e divagas no espaço do quarto… Toda a história da humanidade é feita a partir da velocidade, e a arquitectura é exactamente isso. A casa é uma máquina de habitar.”

Transobgestos: ideias do corpo

Conceito criado pelos Espacialistas, “transobgesto” é usado para pensar o objecto “para além da sua função”, a sua dimensão “transdisciplinar”. Para o colectivo, “os gestos são as ideias do corpo.” Porém, “não temos noção disso. A função primordial da casa, além de abrigar as imagens dos sonos, ou dos sonhos, é permitir o diálogo entre as pessoas. As pessoas encontram-se em casa para partilhar verbalmente coisas, oralmente coisas.” Ao fazê-lo, o seu corpo pensa com. As palavras são a materialização “de um pensamento ou ideia”, que, a partir delas, é esculpido. Com a referência de Joseph Heinrich Beuys, um artista alemão, Luís destapa a palavra como “a primeira escultura do humano, a própria forma escultórica do humano.” A palavra, enquanto construção, é possibilidade de partilha do espaço de uma casa. Por isso mesmo, esta é “quase um campo de batalha. A casa deve alterar a percepção da forma como olhas para o mundo, porque a casa, antes de tudo, é o teu próprio mundo.”

Reparar: o afecto na casa

“Tinha um colega na faculdade que falava que a função dos arquitectos, cada vez mais, era evitar construir e tentar reparar naquilo que já está construído. O reparar é que nos deixa vivos. Voltares a parar para pensar, mas, ao mesmo tempo, também fazer as reparações naquilo que existe”, atenta Luís.

Reparar é da ordem do afecto, porque é um gesto de aproximação, investimento, contrário ao abandono e desprezo. O afecto precisa de tempo.

“A casa portuguesa era uma casa feita por artesãos. Todas as pessoas que intervinham no processo de construção de uma casa, naquele tempo, tinham esse saber, tinham essas experiências, e os materiais tinham qualidade. Era uma transformação amorosa da natureza. Quando pegavas numa pedra, ias tirá-la à pedreira, sabias que aquela pedra se transformava numa lareira.”

“A geometria é uma relação de afecto que o homem estabelece com a natureza. O problema foi exatamente a perda dessa relação.” Esta depende do valor que atribuímos ao que nos rodeia, que, na verdade, é o que somos, e somos com. A perda do afecto com o outro é inseparável desta quebra. O habitar depende das relações de cuidado. “O cuidado com a tua casa é o cuidado com o teu corpo e com o corpo do outro.”

Podemos constatá-lo nos materiais, que já não são trabalhados com cuidado, com o olhar e a mão lenta. “Chegas a uma casa, que até tem uma aparência rústica, mas depois, é uma coisa cinematográfica, é cenário, é tudo falso. Os materiais são simulacros. É um cenário que induz a imagem que tens de algo que era real.” Diogo chama a atenção para a quantidade de azulejos pintados à mão, em Lisboa. “Não sei quantas mil horas foram ali dedicadas a pintar uma cidade à mão”.

Estar em casa: dentro ou fora

Adolf Loos, arquitecto checo, pensava a casa retraída, recolhida, virada para si mesma. Esta “não deixava olhar para o exterior. Os vidros eram translúcidos, opalinos.” Contrariamente, Le Corbusier “fazia casas para a dispersão”, “em movimento” e onde “passavas o tempo todo a olhar para fora. A janela era uma espécie de rolo fotográfico.”

Luís parte destas duas concepções para pensar o que é, hoje, uma casa, se esta “é aquilo que nos permite distrair com o mundo que lá esta fora, quando estamos sentados à noite, em casa, no telemóvel, no computador,” e que não é o nosso, ou que achamos que é, ou concentrar “em actividades que são nossas, como ler ou fazer alguma coisa de que gostamos.”

“Há que voltar a pensar o que é uma casa, mais do que do ponto de vista do local. Estamos todos a viver da mesma maneira, a partir do momento em que a tecnologia se transforma numa pequena ditadura.”

Com a pandemia temos assistido a este desejo de saída da cidade e retorno ao rural. Luís vê este contexto como uma “mútua sobreposição de tempos históricos, em que vais para a casa do Alentejo, mas levas as facilidades todas, e todas as questões destes tempos. Como voltamos à arquitectura local? Vamos todos para a casa dos avós, para o meio do monte, mas com as tecnologias?”, questiona Luís.

Casa de Empurrar, 2009

Estamos onde, então?

*Texto escrito ao abrigo do Antigo Acordo Ortográfico

Texto de Raquel Botelho Rodrigues
Fotografia de destaque: Planta da casa na Planta do pé, 2010
Fotografias d’Os Espacialistas