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Os festivais (e a sustentabilidade) de verão

Fotografia de David Barata

Finalmente. Santos populares. Festivais a abarrotar de pessoas. Sorrisos desmascarados já praticamente por todo o lado. A antiga normalidade parece estar de regresso, mas há coisas que podiam ter ficado no tempo pré-pandemia.

Com o regresso das festas e festivais de verão voltaram também os brindes e, claro, o clássico copo de plástico – onde bebemos aquela cerveja fresquinha e pensamos se a pandemia não passou só de um sonho, digno de um filme de ficção científica.

A passagem para o pós-novo normal era uma boa oportunidade de abraçarmos, efetivamente e com vontade, o tão necessário esforço de sustentabilidade – até devido a todo o material descartável que consumimos, durante os últimos dois anos, entre máscaras, luvas e objetos onde tivemos medo de tocar uma segunda vez! Mas parece que ainda não é desta.

Passei pelos santos populares. Copos, vi muitos. E pergunto-me: quantos dos jovens que este ano vão participar neste género de festas, e nas dezenas de festivais que vão decorrer até ao final do ano, não têm já um copo reutilizável?! (para não dizer dois, três ou quarto, lá por casa enfiados num armário qualquer)

Estes copos correm o risco de se tornar algo colecionável, uma recordação dos eventos por onde passamos, como durante tanto tempo aconteceu com as fitas de colocar ao pescoço – cada uma com a imagem gráfica do evento onde nos foi gentilmente oferecida.

No Rock in Rio – um festival que quer assumidamente ser amigo do ambiente –, a música veio, como de costume, acompanhada de muitos brindes. Porta-chaves, peluches, capas para a chuva ou os míticos sofás vermelhos foram algumas das recordações (de utilidade questionável) que o público pode receber e levar para casa.

Confesso que também sou amante de um bom brinde, mas, simultaneamente, e até de forma bastante contraditória, tenho pavor a lixo e, cada vez mais, àquilo que possamos produzir e colocar no planeta e que, após um brevíssimo usufruto, servirá apenas para o tornar um local mais poluído.

Mas, no que toca à sustentabilidade neste tipo de eventos, podíamos falar apenas dos copos de plástico, e isso é suficiente para percebermos que os nossos esforços sustentáveis coletivos deixam muito a desejar. Lembram-se de quando – de maneira mais romântica do que científica – dizíamos que a pandemia da Covid-19 era uma consequência das nossas agressões ao planeta? Acho que a maior parte de nós já nos esquecemos. Pelo menos é o que as nossas ações tendem a demonstrar.

A luta pela sustentabilidade é sobretudo uma luta contra o nosso conforto e hábitos. Sim, é chato lembrar que temos de levar um copo de casa – quantas vezes não nos esquecemos também do saco de plástico na hora de ir ao supermercado… e lá vamos nós adquirir outro. Sim, também é chato ter de andar com o copo atrelado a nós, quando só queremos estar livres para nos divertirmos e dançarmos, sem estarmos preocupados com se ele cai no chão.

Pior, só mesmo quando levamos o “maldito” copo amestrado de casa e não nos deixam usá-lo. Aconteceu-me num festival – já lá vão dois anos, mas já na altura não fazia qualquer sentido. Levava um copo da edição anterior do mesmo festival (!), mas foi-me dito que tinha de adquirir o daquele ano. O valor da compra do copo revertia para uma associação de solidariedade social, disseram-me os funcionários, como justificação. Muito argumentei que tinha todo o gosto em pagar o valor que seria doado, mas sem sucesso. Tinha e tinha, porque tinha – e sem nenhuma justificação realmente coerente –, de adquirir aquele copo (com o devido merchandising). No fundo, mais um para a coleção…

É utópica a ideia de um mundo mais sustentável em que nós não tenhamos de mudar os nossos atuais hábitos de vida (consumo, transporte, alimentação…). E esse esforço tem de partir de cada um de todos nós. Principalmente, nós, que vivemos no Norte global, em países considerados desenvolvidos e onde temos um poder de escolha incomparável ao de outros tantos milhões de habitantes, principalmente no hemisfério sul, que todos os dias lutam para sobreviver, contra a fome, a guerra, o terrorismo ou as alterações climáticas.

Adquirir escovas de bambu é um começo, mas é claramente insuficiente se nos continuamos a mover diariamente em veículos que funcionam à base de combustíveis fósseis. Usar copos reutilizáveis é fantástico. Mas, se compramos um diferente em cada festival, só para dizer que não usamos cinco copos descartáveis, não sei se faz assim tanta diferença. Igual para o mercado em expansão da roupa em segunda mão. Sentimo-nos bem a pensar que estamos a dar “uma segunda vida” às nossas peças de roupa, quando, no fundo, estamos a vendê-las – na tentativa de lucrar alguma coisa com isso – apenas para podermos libertar espaço, para enchê-lo depois com mais roupa que, naquele momento, nos aconchegue mais os olhos. Mesmo que seja doada, a ideia de criarmos espaço para comprar mais está lá. Apenas preferimos olhar para a questão de uma outra perspetiva.

A nossa luta pela sustentabilidade está cheia de contradições. Já sabemos que não há planeta B, mas ainda não estamos dispostos a aceitar que, para nos mantermos no planeta A, a vida não pode continuar como a conhecemos. E o “capitalismo” – essa entidade anónima cheia de seguidores que tanto gostamos de referir – só segue a nossa mentalidade, e vontade. Estaremos algum dia dispostos a algo diferente?

-Sobre Flávia Brito-

Portuguesa, afrodescendente, mulher e jornalista. Licenciou-se em Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social (ESCS). Empenhada em dar o seu contributo para uma sociedade global mais justa, esclarecida e tolerante.

A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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