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Os Filhos de Lumière: “O que nos interessa é que aprendam a ver”

Sensibilizar para o cinema, levando alunos e professores a debater exatamente o que este nos apresenta. Os Filhos de Lumière, associação cultural vocacionada para a sensibilização ao cinema enquanto forma de expressão artística, leva o cinema a um encontro com a educação desde 2000. Começaram no âmbito do Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura, e logo perceberam a importância de olhar o cinema com uma abordagem prática, um conhecimento decorrente da experimentação, para que este fosse entendido e ficasse na memória – “Se a teoria é rapidamente esquecida, o gesto e a experiência artística, ficam no corpo, na memória, no olhar”, pode ler-se no site da associação.

Fotografia da cortesia de Filhos de Lumière

“O Primeiro Olhar”, foi a primeira oficina, dirigida a crianças e jovens, com uma responsabilidade social vincada, uma vez que abrangiam bairros do Porto, mas também zonas do país onde a educação para o cinema ainda não existia. Em 2006, os Filhos de Lumière alargaram o seu trabalho e passaram a discutir cinema também de outros países, com o “Cinema, cem anos de juventude”. Na altura, envolveram sete escolas de três regiões de Portugal, num projeto que, atualmente, integra crianças e adolescentes de países europeus, mas também Canadá, Japão e México, entre outros. Para além deste projeto, que é um dos pilares da Associação, também o CinEd, no qual a Associação Filhos de Lumière é coordenadora e responsável pela estratégia e desenvolvimento do projeto em Portugal, desde 2015, tem trazido um novo olhar ao cinema, não só para crianças e jovens, mas também para professores.

O CinEd é nada mais do que, um portal e uma plataforma digital, multilíngue, que apresenta uma coleção de filmes europeus recentes e do Património, e recursos educativos destinada a professores, educadores, mediadores culturais e todos aqueles que estiverem interessados numa educação para o cinema, e através dele. Apoiado pela Europa Criativa e coordenado pela Cinemateca Portuguesa desde 2020, abrange 13 países – Portugal, Alemanha, Bulgária, Croácia, Espanha, Finlândia, França, Grécia, Itália, Lituânia, República Checa, Roménia e Turquia.

Ao longo dos anos, os Filhos de Lumière têm desenvolvido também outros projetos ao longo do país, como o “No país do cinema”, “Moving cinema”, Shortcut”, “Exploring the Cinema, Cens Ans de Jeunesse (Erasmus+)” e “Bordils-Moita”. Atualmente, trabalham com escolas na zona de Évora, Mértola e Sintra, com o objetivo de levar uma reflexão sobre o cinema, e consequentemente a ver mais cinema, a cada vez mais escolas e professores.

Em entrevista ao Gerador, Teresa Garcia, cineasta e membro fundador da associação, fala-nos sobre como surgiram estes projetos, a sua importância na criação de um pensamento sobre a sétima arte, e também para uma inclusão social.

Teresa Garcia | fotografia da cortesia de Filhos de Lumière

Gerador (G.) – Os Filhos de Lumière nasceram quando ainda não existia um olhar para o cinema, do ponto de vista educacional?

Teresa Garcia (T. G.) – A primeira vez que tive contacto com algo educacional foi na altura dos 100 anos de cinema, um projeto que veio apresentar um filme à Cinemateca Portuguesa, e eu gostei muito. Houve um grupo de entidades em França que se juntaram com professores e alunos de escolas e colocaram aluno a fazer um filme sobre um plano Lumière. Aquilo ficou na minha cabeça porque achei uma ideia muito interessante. Quando eu e o Pierre-Marie Goulet, estivemos no Porto 2001 a fazer uma programação de cinema, foi-nos pedido que pensássemos num trabalho de educação para o cinema, e nós iniciámos. Foi aí que nasceu. Ao mesmo tempo, como muito pouco se fazia à volta de recursos pedagógicos, começámos a contactar pessoas que já tinham feito a experiência que falei no início, e começámos a mostrar trabalhos que já tínhamos feito com aluno. Trabalhamos com escolas em Portugal a partir deste projeto que tem uma pedagogia e metodologia muito própria e interessante. A partir daí também surgiu o CinED, um projeto europeu, que tem muito a ver com as entidades que já participavam no Cinema 100 anos juventude. O CinED nasceu em 2015, e convidaram-nos a participar desde o início.

G. – Quando os Filhos de Lumière começou, começou com que filmes, que temáticas trazia?

T. G. – Aquilo tem uma programação muito própria e muitíssimo interessante porque, a ideia – e quem lançou o projeto foi Alain Bergala em conjunto com Natalie Bourgeois, a coordenadora do departamento pedagógico da Cinemateca Francesa – e o projeto envolve muitos países, não só da Europa, que se encontram, pelo menos, três vezes por ano. O que faz a força deste projeto, é o facto de todos os anos, haver uma nova porta de entrada para perceber o que é o cinema e essa porta existe em todos os filmes. A partir daí, são selecionados muitos excertos de filmes, e o que é interessante num excerto é que pode ajudar a ver e a dar-se conta do que é a matéria do cinema, através de imagem e sons, a forma de ser trabalhado, o olhar de cada realizador. São todos diferentes. É um plano diversificado que inclui muito o cinema português. Principalmente porque Alain Bergala escreveu muito sobre o nosso cinema. Todos os anos fazemos escolhas de excertos de filmes, pesquisa, investigação, ideias e depois há um programa de reflexão sobre esse tema. Acho que é muito interessante porque dá vontade de continuar sempre todos os anos, há uma nova maneira de explorar o cinema, os miúdos experimentam e filmam e é uma experiência muito rica.

Sessão em escola | Fotografia da cortesia de Filhos de Lumière

G. – Também trabalham assim no CinEd?

T. G. – O CinEd é mais um trabalho de formação de professores, muito centrado na experiência de ver um filme, de comparar filmes e trabalhar através de recursos pedagógicos. É dentro de cada filme que podemos encontrar uma série de elementos que ajudam a refletir e a pensar no que está à nossa volta. Cada país pensa em um ou dois filmes, do seu país, e depois pensamos os filmes em conjunto.

G. – Existe uma forma portuguesa de fazer cinema que, nestes projetos, as crianças, e mesmo os professores, identifiquem logo?

T. G. – É engraçado porque acho que sim, mas ao mesmo tempo também há nalguns outros países, e essa ligação é interessante. Por exemplo, com a Lituânia. Sentimos que há algo em comum, um lado de sensibilidade.

G. – Voltando ao CinEd, este é um dos projetos com maior força dentro dos Filhos de Lumière…

T. G. – É o CinEd e Mundo à nossa volta (dentro deste existe o Cinema 100 anos de Juventude, que é o projeto internacional). São muito estruturais estes dois, por razões diferentes, e estão interligados também.

CinEd IV | Fotografia de cortesia de Filhos de Lumière

G. – O que acontece nestas oficinas para além de toda a parte técnica?

T. G. – Em relação ao mundo à nossa volta, é verdade que é importante a parte de filmar e mexer na câmara, ver o som, a ideia de equipa técnica (que é muito forte para eles), mas nós começamos pelas imagens, por mostrar excertos de filmes e fazê-los falar. É uma pedagogia participativa. Nós vamos à procura do que tem a ver com a matéria cinematográfica, o que nos importa é que se habituem a ver o que lá está, porque normalmente só vêm os atores, por exemplo. Quando começam a ver para lá disso, ficam entusiasmados porque nunca tinham pensado de outra forma. Quando vão filmar (a parte seguinte), há uma coisa que se chama “As regras do jogo”, que são propostas de exercícios, extremamente simples e que se vão complexando. Eles vão descobrindo uma forma de fazer, de olhar, de experimentar. Isso é uma experiência muito interessante para eles.

G. – As escolas já têm os materiais ou são vocês que fornecem?

T. G. – As escolas não têm material. Para a formação de professores, geralmente, fazemos fora da escola onde haja projeção e condições. Porque, de facto, o nosso trabalho é projetar, analisar, falar e ir descobrindo, e precisamos de condições de projeção para isso.

G. – Vocês trabalham com projetos sociais. Como é que o cinema poder ser uma forma de inclusão social?

T. G. – Começámos por trabalhar no Porto com miúdos de etnia cigana, com miúdos que não estão habituados. Para mim, o que me importa é que eles sejam capazes de aprender a ver. Na altura, a maioria dos miúdos vinha de um contexto em que viviam com os avós ou os pais estavam presos, e nós íamos buscá-los de manhã a casa e levávamo-los de noite para casa. Ou seja, eles passavam o dia connosco. De repente, aqueles miúdos sentiam fazer parte de algo. Fizeram filmes, decidiram o que queriam… Por exemplo, viram muitas vezes o Aniki Bobó, mas a primeira vez que lhes mostrei, pensava que não iam conseguir ver o filme todo, só que criámos ali um ambiente que funcionou tão bem, que viram o filme e, no dia seguinte, pediram para ver de novo, a meio da sessão comentavam uns com os outros, “vês, eu disse que era aquele…”.

G. – E vão aprendendo uma parte técnica, como se faz um filme…

T. G. – Eu nem chamo a isto parte técnica, mas parte sensível porque, na realidade, eles são capazes de imaginar, e isso tem um lado sensível. Eles estavam atentos ao que estava a acontecer, ao que estavam a sentir, e isso é incrível. Depois a parte técnica, foram aprendendo.

G. – O resultado destas aprendizagens é apresentado em algum lado?

T. G. – Apresentamos sempre os resultados numa sala para eles e para as famílias verem. No Porto 2001, lembro-me da excitação daqueles miúdos que nunca tinham entrado numa sala de cinema e, de repente, estão a ver o seu filme. Ficaram completamente emocionados. Eles trabalham a montagem, mas ver numa sala, num escuro completo, com a presença de outras pessoas, é uma coisa marcante para eles. Há também este lado rigoroso, e ver no final é um confronto com eles próprios. Isso é inclusão. Porque, de repente, estão a ser respeitados pelas famílias, pelos adultos que os fazem falar da experiência, mais do que só chegar à escola e dizer que fizeram isto ou aquilo. Esse lado é interessante porque mexe na relação de todos, mesmo dos professores. Os próprios professores estão a descobrir algumas potencialidades nos alunos que não tinham pensado.

G. – Até agora, os Filhos de Lumière tem tentado criar pessoas mais atentas, e não propriamente futuros realizadores ou profissionais de cinema?

T. G. – Sim, o objetivo é esse. O que não quer dizer que não coloquemos lá o bichinho, mas não é esse o principal objetivo. Queremos que os professores também sejam sensíveis a isso e trabalhem o cinema de uma maneira diferente, para que não seja uma matéria escolar teórica, mas sim uma forma quase lúdica de participar na reflexão sobre um filme.

G. – A forma como consumimos conteúdo mudou. Como abordam esta nova forma de ver a imagem, o cinema?

T. G. – Isto não é uma escola de cinema, não é ensino, é educação. O que nos interessa é que aprendam a ver. E quando vêem um filme que não estão habituados a ver, descobrem imensa coisa. Não temos como objetivo que façam cinema mais tarde, mas que aprendam a ver. E seja a ver o que for. Porque vão reparando que há muita matéria que está lá e que normalmente não dão atenção. Por exemplo, a coleção de filmes do CinEd é muito vasta e diversa, e isso abre-lhes janelas.

G. – O caminho para que o cinema seja visto como algo educacional, ainda é longo?

T. G. – O cinema ainda é visto como entretenimento, e o caminho ainda é muito longo. Eu fico muito contente de ver os miúdos dizerem que, de repente, estão a dar uma importância maior, ou que o cinema é outra coisa. Mas a relação que as pessoas têm com o cinema é muito… basta olharmos para os filmes que mais se vêm. Raramente vão ao cinema e, quando vão, são aqueles filmes mainstream, americanos, que lhes chamam filmes de ação, com muitos planos, mas que não sabem o que está dentro de cada um. Consomem filmes sem pensar, não fica nada. Quando lhes pergunto por uma coisa que viram, não fica nada, não se lembram de nada. Vão juntos, um grupo, mas não fica nada, nenhuma memória. Mas quando vêem um filme e falam sobre ele, mesmo que tenham a sensação de que não perceberam quando acaba, quando começam a falar, vão percebendo, e é outra maneira de sentir, e sentir é uma coisa muito importante para os miúdos. Aqui procura-se que fique uma memória.

Texto de Patrícia Nogueira

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