Há uma nova banda desenhada que transformou os trabalhadores informais em super-heróis. Os Informais é a primeira banda desenhada moçambicana de super-heróis e conta a história de personagens como o Paíto e o Esmalte, que vivem num “contraste insuportável entre a cidade e os subúrbios”.

Em Moçambique, o mercado informal representa cerca de 70 % do comércio. Os vendedores ambulantes percorrem as ruas, e as bancas estendem-se do centro à periferia. Há sempre algo para ser vendido ao virar da esquina, como se estes trabalhadores, que vivem o seu trabalho na informalidade, soubessem que precisamos deles: fruta, legumes, snacks, comida preconfecionada, alguém que pinta as unhas, roupa, e até mesmo livros, tudo pode ser vendido nas ruas de Maputo. Muitos vêm de longe, na esperança de poder vender aquilo que plantam, ou que constroem com a força das mãos e da imaginação. No entanto, é um mercado não regulado, sem garantias, e que pouco dignifica o que trazem a Moçambique.

A ANIMA, um estúdio criativo moçambicano que trabalha em projetos relacionados com Arte, Cultura e Desenvolvimento Social, encontrou na arte de contar histórias aos quadradinhos uma forma de dar visibilidade – e uma homenagem – a estes trabalhadores que representam uma parte significativa da cultura moçambicana. Surgiu assim, Os Informais, a primeira banda desenhada moçambicana com super-heróis.

Em entrevista ao Gerador, Ana Queiroz, a argumentista de Os Informais e que faz parte da equipa da ANIMA, explica que esta história começou por olharem para estes vendedores e perceberem que podiam “fazer de um vendedor de cabos elétricos, um super-herói que tivesse poderes relacionados com o que ele fazia”. Mas quem são estes super-heróis, para além de pessoas que vendem nas ruas da capital moçambicana?

Ana Queiroz - Argumentista

“Os trabalhadores informais têm, para mim, algo de muito especial. O saírem todos os dias para uma jornada um pouco imprevisível, sem saberem o que vai acontecer, esse esforço todo que envergam todos os dias… Como as mamãs que levam as laranjas à cabeça numa bacia e passam horas a caminhar ao sol. Tem esse lado bonito de podermos comprar uma coisa em qualquer ponto da cidade, pedir para descascar uma laranja e temos um lanche. Existe uma vida de rua muito interessante, no entanto, as pessoas estão muito expostas à insegurança, não têm proteção social, não têm garantia do que vão ganhar no final do mês, não têm condições de trabalho. Não quer dizer que estas figuras tenham de deixar de existir, podem existir, mas de uma forma em que as pessoas tenham alguma garantia”, explica a argumentista.

Hélio Pene - Ilustrador

Hélio Pene, o ilustrador que dá traço e cor a estes super-heróis, descreve que o problema destes trabalhadores informais é também a existência de cada vez menos espaço para estas pessoas que não acompanham um sistema que avança – mas que também não se adequa a elas – “Acompanhamos o progresso em tempo real, temos cada vez mais shoppings, malls, spas, mas de alguma forma estes ambulantes começam a ficar esquecidos e a perder o seu ganha-pão e isso põe em perigo a própria vida. O que seria do ambulante se formos todos aos shoppings?” Esta história é por isso “inspirada nestes vendedores que procuram um sustento honesto para poderem viver uma vida digna”, explicando que esta foi a forma de “darem não necessariamente uma voz, mas uma visibilidade”, porque, atualmente, “a informalidade ainda é vista um pouco como marginal, mas não é bem assim, se aprofundarmos as coisas, é um setor que representa mais de 70 % do nosso comércio. Há respeito e dignidade a dar a estas pessoas”.

O Esmalte e o Paíto: quando a ficção se mistura com a realidade

A ficção científica vive na fantasia do que pode ser o futuro. A maior parte das dores do presente e “dessa angústia do que poderá acontecer, face ao que vemos agora”. Hélio, Ana e João Roxo – um dos artistas que também faz parte da criação deste projeto – decidiram projetar um futuro feito de vidro e um fosso gigante entre quem progrediu e quem teve de sobreviver, dignificar os trabalhadores informais que vêm nas ruas e “que são pessoas com quem nos cruzamos, mas muitas vezes nem fazemos contacto visual porque estão atarefados nas suas tarefas das vendas”.

“Foi aí que surgiu a história da cidade de vidro, a história de um presidente do município que está a recriar os edifícios existente em vidro, por um fetiche dele e, ao mesmo tempo, precisa de mais espaço para expandir a cidade, e é aí que entram os informais, que estão no caminho: os mercados, a periferia e tudo o que está à volta da cidade acaba por ser um entrave a essa ideia de progresso. O vilão acha que a questão do curandeirismo, línguas locais e tudo o que tem que ver com tradição moçambicana é um atraso, por isso não só ele, mas principalmente a população tem de começar a fazer dinheiro. Aí, surgem Os Informais, para defender os interesses do seu povo, travar essa expansão que é megalómana e não tem em conta as pessoas, as suas necessidades, onde vivem, e o que fazem no dia a dia para subsistir”, desvenda Ana que acabou por encontrar nas pessoas com quem se encontrava no dia a dia, uma personificação daquilo que queria transmitir – “estes super-heróis são a junção de muitas pessoas, de muitas vendedoras de badjias que conheci, de muitas pessoas como o Paíto a carregar o seu txova pela rua com música e a dizer que compram baterias estragadas, os sucateiros… o Esmalte e o Esticão são cada um deles. São todos a junção de muitas pessoas, de muitas experiências”.

As cores em tons de vermelho e amarelo – em alusão à bandeira moçambicana – acompanham a tradição e as expressões e palavras populares, trazendo histórias do quotidiano nacional com as quais as pessoas se têm identificado e na qual também podem participar – “o projeto está virado para a captação de histórias e contos que acontecem nos bairros e que podemos contar através de banda desenhada e fazer deles heróis. É um projeto da ANIMA, mas para todos os interessados também além-fronteiras. O serviço informal não acontece só em Moçambique, é em várias partes do mundo”, conclui Hélio.

Um marco na história da banda desenhada moçambicana

Os Informais marca um voltar à banda desenhada, mas um voltar que traz um mundo fantástico que pode ser contado episódio a episódio.

Hélio conta-nos que, numa época pós-colonial, já existiam referências de banda desenhada, como o Kurika, feita por ilustradores locais e estrangeiros, mas não com a dimensão de super-heróis e carácter de saga, como propõem fazer. Ana acrescenta ainda que, para além do Kurika, as ONG trouxeram a banda desenhada como forma de comunicar e passar mensagens, “mas numa forma não muito criativa”. Hoje em dia, existem associações como a Kulungwana, que promove encontros e criação de BD e ainda o Instituto Camões que faz eventos também relacionados com a temática, “mas tirando isso não existe mercado”.

Olhando para este cenário, o ilustrador explica que é um pouco “embrionário perceber-se o que é realmente fazer-se banda desenhada em Moçambique”, mas que, para já, tem sido um desafio, não por serem os primeiros, mas por terem de reavivar uma cultura que se havia perdido – “perdeu-se a cultura de ler banda desenhada. Não existem referências nacionais e isso de alguma forma dificulta aquela que é a nossa tarefa de rebuscar, trazer esses aficionados por banda desenhada, para voltar a ler, para além de que as gerações já não são as mesmas. O que torna também este projeto um desafio é trazer a banda desenhada para o meio e fazer as pessoas entender que podem ler de forma sequenciada, e sair do mundo digital, claro”.

Apesar de os heróis moçambicanos só terem chegado às bancas em 2021, o projeto começou a ser sonhado em 2014, e, em 2017, viu a sua “parte física” começar a ser traçada, dada a quase inexistência deste mercado e tipo de contar histórias em Moçambique – “sabíamos onde queríamos chegar, mas não sabíamos como criar então estamos a fazer esse caminho e a ser os nossos próprios professores, passo após passo”.

Questionado sobre a responsabilidade de ilustrar Os Informais, Hélio responde que a partir do momento em que se assume como ilustrador que ilustra para uma sociedade, e não só para si, a responsabilidade começa – “A partir do momento em que as pessoas querem saber mais sobre o que estamos a fazer, há uma maior pressão (no bom sentido da palavra), e temos de corresponder a essa necessidade. Há um feedback de que as pessoas estavam com sede, precisavam disto. Não sinto a responsabilidade de ser o primeiro, sinto apenas a responsabilidade de fazer bem, porque, por mais que fosse o segundo ou o terceiro, o que importa é a qualidade e tem de significar um legado, porque amanhã pode existir uma outra saga e se a minha hoje é a primeira, sem dúvida a segunda vai fazer referência à primeira. Olho para esta responsabilidade no sentido de legado, de ser uma referência para trabalhos futuros, não em ser o primeiro”.

Fotografia retirada do Facebook d'Os Informais

Os Informais vieram para tirar as pessoas das telas, mas com o objetivo de estar em todo o lado, por isso foi lançada em jeito “híbrido”, convidando artistas moçambicanos a dar o seu contributo através da música. “Tanto na equipa das artes, escrita e música, juntámos pessoas que se interessam por este tema da informalidade, que querem diminuir este fosso que existe entre as classes e criar este diálogo”, conta Ana. Desafiaram artistas como Nandele, Tishimitsu e Kachowsky, para retratar, em música, aquilo que sentiam em relação à informalidade, o que originou uma playlist que pode ser ouvida por todos os que comprarem a revista.

A banda desenhada tornou-se mais do que uma forma de contar uma história e dar visibilidade a um setor, e estendeu-se a um projeto, o BD PALOP, que reúne Moçambique, Angola, Cabo Verde e Portugal, com o objetivo de produzir banda desenhada anualmente, juntando artistas destes países, não só para que esta seja acessível a todos, mas para que “quem está em Portugal possa ler o que está a ser criado em Moçambique e vice-versa”.

A forma como a revista é vendida é outro dos pontos importantes para a equipa que, por agora, só vende na agência e em alguns pontos específicos, mas que um dia gostava de poder levar estes heróis à sua origem, como as bancas informais de vendedores de livros.

Sobre o próximo capítulo, Hélio, quis deixar a curiosidade, desvendando que, no seguimento do primeiro número em que tentam “trazer aquilo que é o clash entre uma cidade que cresce tanto na vertical como na horizontal e que empurra aqueles com menos condições”, o segundo número traz um pouco sobre “tecnologia de opressão para se conseguir demover as pessoas, os menos abastados, e afastá-los aos poucos para as bermas da cidade”.

Texto de Patrícia Nogueira
Ilustrações da cortesia de Os Informais

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