Gostava muito de ser campeão de judo. Mas sei que se me empenhar corajosamente na tarefa, com treino diário e alimentação adequada, não atingirei esse objetivo.

Queria nadar com a voracidade de quem engole o mar e o fende. Mas o meu sopro não me acompanha.

Imagino-me a levantar o corpo do sonho e a planar pela noite silenciosa da cidade adormecida, rasando o topo das casas. Ao acordar, sei que não detenho essa potência.

Depois, levanto-me e coloco a canga do quotidiano: uma cara e dentes lavados, a barba feita, duche, desodorizante no sovaco. Sei que esta higiene perfumada me afasta da sorte dos vagabundos. Dos vagamundos. Dos vagalumes. Com a pele cuidada, a camisa e as calças colocam-me no circuito do sim senhor. Mesmo sem manicura ou pedicura, este é um remédio contra tudo o que é vago. Pode vagar o bundo, o mundo e o lume, mas a cura diária do corpo e o último botão fechado sobre o pescoço, retiram a película da alma noturna, do judoca, do nadador, do alado ser. Na horizontal da noite, soletro ushiro-gochi, tomoe-nage, yoko-wakare, palavras que nem sei dizer ou o que realmente significam, movimento-me airosamente face ao adversário, venço-o por ippon,  curvo-me com elegância na saudação da vitória. Mergulho perfeitamentte na piscina olímpica e bato toda a concorrência nos duzentos metros mariposa. Elevo-me, de braços abertos, e visito, superiormente, as casas, as ruas, qual águia real com viseira de coruja. Depois ocorre a metamorfose da aurora, a noite guarda-se para amanhã, saio do casulo quente, do útero desta cama, daquela cama, de todas as camas onde o corpo se transforma em alma. Não importa se me deito em Lisboa, no Rio, em Bogotá ou Pequim. Todos os lugares, todos os leitos organizam a infração. Sou príncipe, filantropo, bobo, miserável, vil. Por vezes sou até um príncipe vilão, um filantropo criminoso ou um bobo miserável. Sou um sportsman imbatível, um milionário afável, um sedutor com garbo, um político desinteressado, um ecologista vegetariano. Sou um cineasta aclamado, um poeta memorável, um músico extraordinário. Por uma razão qualquer, de formas mais ou menos inverosímeis, as minhas noites são mais belas que os meus dias. Numa celebração da autoestima, do encontro e do desencontro, do eu pessoal e do eu social, infringem todas as leis, ocorrem no desarrumado encontro entre a química, a física e a minha história, o desalinho livre e desenfreado deste corpinho e seu revolto espírito, sem tribunal, sem testemunhas. Fosse a escuridão a luz dos meus olhos e a clareira do sol o apagar do horizonte. Onde eu ia? Ah, sim, estava a lavar os dentes. E depois do rápido pequeno-almoço, eis que sou quase e outra vez o homem em movimento, mobilado com a sua fatiota diurna, a sua jactância profissional, o seu discurso elaborado. Ainda falta um último relançar sobre o espelho. Sim, sou eu no dia de São Nunca à Tarde, não, sou eu no dia de São Todos os Dias, ò sim, jactante e deglutido pela torrada com doce de framboesa, pelos clichets e a aprovação do mundo, engolido pelo café sem açúcar. Estás bem, homem espelhado, bonito como tudo, sim. Atenção, o dia vai começar. Pôr a máscara do ramerrão, o casaco, a mala por baixo do braço, arquear o corpinho, mãos a segurar a porta. Um, dois, três…Pum!Pum! Pum! Partida!

E que partida. Lá vai o homem a correr, dá a volta ao quarteirão, abre a porta do carro, entra no carro, fecha a porta do carro, mete a chave na ignição e, vum, vum, vum, lá vai buzina! Três voltas aceleradas pelas estradas e ruas, contorna cuidadosamente a rotunda, dribla dois condutores incautos, aproxima-se do lugar vago de estacionamento à frente do escritório e… golooooo! Estaciona! Estacionaaaa! Pontua! Mais uma vez a horas! Gooooloooo! Que bom! Que alívio! Um lugar vago! Vagobundo, vagomundo,vagalume. Vaga o lume. Apaga-se a noite lúcida, sem limites.

Sobra a fazedura do dia. Subirei até às três da tarde. Até às oito da noite. Boa! Grande!

Tenho no vazio do estômago, a vaga sensação de que, não tarda nada, receberei oiro, incenso e mirra. A estrela brilhará para todos nós (só na noite sobram buracos luzidios rasgados no céu).

Acho que um dia destes, vou procurar ligar isto tudo, cobrir com um manto toda a parafernália das vinte e quatro horas, e quando passar pela rua, diurna ou noturna, hão-de notar que este homem anda a sonhar acordado. Ou talvez não. A lei autoriza o olhar, mas no limite do possível.

-Sobre Jorge Barreto Xavier-

Nasceu em Goa, Índia. Formação em Direito, Gestão das Artes, Ciência Política e Política Públicas. É professor convidado do ISCTE-IUL e diretor municipal de desenvolvimento social, educação e cultura da Câmara Municipal de Oeiras. Foi secretário de Estado da Cultura, diretor-geral das Artes, vereador da Cultura, coordenador da comissão interministerial Educação-Cultura, diretor da bienal de jovens criadores da Europa e do Mediterrâneo. Foi fundador do Clube Português de Artes e Ideias, do Lugar Comum – centro de experimentação artística, da bienal de jovens criadores dos países lusófonos, da MARE, rede de centros culturais do Mediterrâneo. Foi perito da agência europeia de Educação, Audiovisual e Cultura, consultor da Reitoria da Universidade de Lisboa, do Centro Cultural de Belém, da Fundação Calouste Gulbenkian, do ACIDI, da Casa Pia de Lisboa, do Intelligence on Culture, de Copenhaga, Capital Europeia da Cultura. Foi diretor e membro de diversas redes europeias e nacionais na área da Educação e da Cultura. Tem diversos livros e capítulos de livros publicados.

Texto e fotografia de Jorge Barreto Xavier
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