Quero avisar xs leitorxs, do conteúdo sensível deste texto - fala sobre questões duras de adolescência e sobre anorexia. Protejam-se de o ler se souberem que vos perturba e não esqueçam que há sempre pessoas com quem podem falar sobre seja o que for que vos pareça esmagador e irremediável.

2003 foi o ano da Cabra. E o ano em que morre Nina Simone. Marte aproximou-se, como nunca, do planeta Terra - 55.758,006 km. Estreia “A mulher que acreditava ser presidente dos Estados Unidos da América”, "Um filme falado”, “Os imortais”, “A passagem da noite”, “Quaresma” e “Xavier”. O mesmo ano em que cartazes colados nos corredores da escola Passos Manuel anunciavam um casting para uma curta-metragem, para a qual se procuravam seres no desastre da idade que era a minha - o pico (ou o grande vale) da adolescência. Fui porque os meus colegas todos quiseram ir. Não tinha qualquer coluna vertebral. Os outros têm a porta aberta para nos aniquilar, se quiserem - lembro-me que tinha o cabelo curto, na altura, por consequência de uma crise de identidade perante o que deveria ou não ser o aspecto de uma rapariga lésbica. Estupidez pegada…

Foi o primeiro trabalho que fiz como actriz. “Trabalho” porque recebia pelo que estava a fazer - noção nenhuma do que era a profissão, do que era fazer cinema, do que seria contar aquela história. Lembro a sala da produtora Real Ficção do Rui Simões e da Jacinta Barros (que bom saber que ainda lá está) onde montaram um cantinho para nos sentarmos a conversar. “Os meus espelhos” (título que só surgiu mais tarde) era sobre uma rapariga com a minha idade da altura que sofria de anorexia. Hoje já misturo o que partilharam comigo, o que pesquisei e o que fui sabendo por testemunho, por observação. Guardo a distorção (quase) irreversível da auto-imagem, o desejo do desaparecimento, a deliberada ausência do prazer, o colocar a comida no centro da vida embora se queira fugir dela - tocar nela, cheirá-la, cortá-la em pedaços quase invisíveis e nunca a colocar na boca. Guardo também a resistência, a coragem, a disciplina, a inteligência por detrás da contagem constante de calorias, de percentagens, de estratégias de sobrevivência, de quem põe o próprio corpo à míngua.

Descubro agora a escrever que não consigo dissociar aquele corpo que era o meu com aquele filme que vivi sempre com espanto e ignorância. Julgo que a viagem que consegui fazer foi puramente física pois eu não sabia ter grande estratégia intelectual, nem possuía técnica suficiente para me munir de ferramentas. O corpo, lembro-me bem dele. O meu. Estava magrinha e as curvas de hoje ainda por aparecer. Se sustesse a respiração e me esticasse toda, saltavam costelas e ossinhos por todo o lado. A Susana Mota (maquilhadora maravilhosa, hoje grande amiga) transformava-me e pintava com seus pincéis e dedos todas as covas, todas as sombras, pelo corpo afora. Havia também a exposição, o frio, as imagens de mim ao espelho, o silêncio da equipa que me filmava na casa de banho, na intimidade do quarto, ou dançando como quem não tem ninguém à volta. Uma equipa muito respeitadora e doce, felizmente.

Lembro-me do meu corpo ter de nadar, de fingir desmaiar, de fingir cansaço, de fingir que dormia, de torcer e contorcer a pele, de fechar os olhos e quase não mexer os lábios perante um beijo que tinha de receber de um rapaz (ainda hoje faço exactamente a mesma coisa de cada vez que isso me acontece a trabalhar), e de andar de teleférico embora morresse (e morra ainda) de medo de alturas. E lembro o corpo dos outros a ocupar espaço, a embater no espaço que dividíamos. Talvez tenha sido isso que fiz: contracenar puramente através da negociação que o meu corpo tinha de fazer com os outros corpos.

A Suzana Borges era a mãe. Foi a minha primeira mãe. Transportava nela tanto cinema português e era personagem mais do que pessoa, para mim. Estar por perto era como entrar num filme dentro de um filme e nunca vir à tona da realidade. Na primeira cena que partilhámos, eu estava deitada na cama dormindo, com ela sentada aos pés chorando por mim, porque estava em desaparecimento. A minha curiosidade sobre o que iria ela fazer era maior do que a obrigação de ter os olhos fechados. Fascínio e privilégio imenso de ver uma actriz em busca de uma resolução em resposta ao que lhe é pedido.

A minha psicóloga era a Dalila Carmo e julgo que fizemos as nossas cenas todas num dia só. Um sorriso grande, risadas cheias, uma imensa rapidez na sua capacidade de passar do disparate para a concentração. Eu, demasiado preocupada em saber como iria dizer o meu texto, não devo ter conseguido dialogar verdadeiramente com ela. Hoje saberia que bastava re-agir a si.

A querida Carolina Mayer, a quem dedico esta crónica, foi incansável, generosíssima, muito adulta e muito muita coisa que eu não sabia ainda. Sem ela não havia filme. Ela só deseja estar por perto e dizer aquelas palavras que queria tanto dizer, fazer o papel da amiga que tanta gente precisa que exista. A minha “Júlia” era dela (em frente da cama do décor do quarto sorria-me de volta um poster da Julia Roberts).

E depois, os que já cá não estão: a Adelaide João, nossa Lai-Lai, era a minha avó - pouco olhámos sequer nos olhos, mas lembro o amor que havia por ela na sala, a admiração, lembro também a sua cara de criança alegre e traquinas. E o João Ricardo… esquivo, rápido, descontraído - fez uma cena genial improvisada, na cozinha, (ele era o meu pai) em que pegou em três ovos e fez malabarismo com eles enquanto falava comigo.

Teria de falar melhor da voz tranquilizante do Rui Simões, do olhar com que adorava todo aquele elenco jovem que se juntou a nós e de como nos dirigia com humor velado e com confiança. O João Pinconé, que só quem conhece sabe como é contagiante na sua bondade, no seu riso rouco, e nas suas pequenas atrapalhações adoráveis que lhe dão charme. E a Leonor Noivo, que já lá estava, no seu silêncio calado, olhos grandes, muita sensibilidade, e que tanto gosto hoje de seguir à distância, espectadora do seu trabalho.

Vejo hoje esta curta com dificuldade e um dos olhos fechados. Ouço a minha voz sem voz, cheia de sussurro e ar. Vejo a falta de afirmação, o arrastar de tudo, as cantorias que faço enquanto falo. E sou transportada para lá de novo - não é um sítio tranquilo em mim, aquele.

Quero falar, através disto, do embate entre os estudos e a profissão de actriz. Sou as escolas onde estive, as vezes que mudei de áreas, as negativas, as reprovações, os vintes, as pessoas que se sentaram na mesma mesa que eu. Mas vivi muitos anos distraída desse espaço que é a escola, não lhe encontrava o sentido. Anos mais tarde, quando decidi ir para a faculdade, já mais velha do que a maioria dos colegas, falhei ainda (ainda estou em falha) mas aprendi a amar a escola, a faculdade, o estúdio de ensaios - a falha, a experimentação, a partilha, o tubo de ensaio do mundo.

De resto:

A actriz é sempre ela mesma, por mais personagens que lhe dêem.

A actriz não tem de provocar o choro para provar que sente emoções e que é boa actriz.

A actriz não tem de sofrer para exercer a profissão.

A actriz tem direito de dizer não, e de ser protegida de todas as vezes em que não pode ou não consegue dizê-lo.

A actriz não tem de se sentir desconfortável a fazer casting.

A actriz tem de poder escolher contar histórias que a representem.

A actriz precisa de outras actrizes, de outras artistas, em seu redor.

A actriz quer trabalhar e quer receber um salário justo por isso.

A actriz não quer ser manipulada pelos padrões de beleza que a sociedade insiste em impor.

A actriz tem coisas para dizer que ainda não estão escritas em nenhum guião.

A actriz tem coisas para dizer que ainda não estão escritas em nenhum guião.

A actriz tem coisas para dizer que ainda não estão escritas em nenhum guião.

-Sobre Sara Carinhas-

Nasceu em Lisboa, em 1987. Estuda com a Professora Polina Klimovitskaya, desde 2009, entre Lisboa, Nova Iorque e Paris. É licenciada em Estudos Artísticos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Estreando-se como actriz em 2003 trabalhou em Teatro com Adriano Luz, Ana Tamen, Beatriz Batarda, Cristina Carvalhal, Fernanda Lapa, Isabel Medina, João Mota, Luís Castro, Marco Martins, Nuno Cardoso, Nuno M. Cardoso, Nuno Carinhas, Olga Roriz, Ricardo Aibéo, e Ricardo Pais. Em 2015 é premiada pela Sociedade Portuguesa de Autores de melhor actriz de teatro, recebe a Menção Honrosa da Associação Portuguesa de Críticos de teatro e o Globo de Ouro de melhor actriz pela sua interpretação em A farsa de Luís Castro (2015). Em cinema trabalhou com os realizados Alberto Seixas Santos, Manoel de Oliveira, Pedro Marques, Rui Simões, Tiago Guedes e Frederico Serra, Valeria Sarmiento, Manuel Mozos, Patrícia Sequeira, João Mário Grilo, entre outros. Foi responsável pela dramaturgia, direcção de casting e direcção de actores do filme Snu de Patrícia Sequeira. Foi distinguida com o prémio Jovem Talento L’Oreal Paris, do Estoril Film Festival, pela sua interpretação no filme Coisa Ruim (2008). Em televisão participou em séries como Mulheres AssimMadre Paula e 3 Mulheres, tendo sido directora de actores, junto com Cristina Carvalhal, de Terapia, realizada por Patrícia Sequeira. Como encenadora destaca “As Ondas” (2013) a partir da obra homónima de Virginia Woolf, autora a que regressa em “Orlando” (2015), uma co-criação com Victor Hugo Pontes. Em 2019 estreia “Limbo” com sua encenação, espectáculo ainda em digressão pelo país, tendo sido recentemente apresentado em Londres. Assina pela segunda vez o “Ciclo de Leituras Encenadas” no Jardim de Inverno do São Luiz Teatro Municipal.

Texto de Sara Carinhas
Fotografia de João Silveira Ramos
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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