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“You’ve got big dreams, you want fame, but fame cost and right here you start to pay…. In sweat!” Debby Allen as Lydia Grant, Fame série de televisão exibida em 1982.

Se quisermos ser lapidares sobre a definição da década 80 em Portugal, com todo a simplificação que isso implica, poderemos arriscar que foi um período de expectativa entre a primeira grave crise económica da jovem democracia e a adesão à União Europeia. A globalização ainda não era um tema; a Europa, à qual deveríamos regressar, diziam-nos, cumprindo uma longa viagem de 500 anos, era o nosso inevitável destino.

Lisboa estava ainda “suspensa nos anos 50” na opinião de alguns europeus que a visitavam ou elegiam como residência, sobretudo franceses, buscando nostalgicamente após 68 a cidade cenário da última revolução da Europa Ocidental.

A televisão era totalmente pública, longe da profusão de fontes de informação e conhecimento que marcam a nossa contemporaneidade, o fenómeno televisivo tinha sociologicamente um impacto avassalador – era para muitos o referente absoluto e o grande veículo de coesão  de um país que se debatia ainda com um elevado fenómeno de iliteracia, e no qual a democratização do sistema de ensino público dava os primeiros passos, num território ainda profundamente marcado pela ruralidade e o isolamento.

Não obstante, a conquista de direitos sociais desencadeada pelo movimento revolucionário e os seus efeitos de aceleração do tempo histórico, teve como consequência, entre muitas outras, a emergência de uma nova cultura juvenil com valores próprios, muitas vezes em contradição ou oposição declarada com a geração dos pais, defendendo novos princípios e lutando pela  sua identidade, embora naturalmente caldeada pela origem social e respetiva atmosfera ideológica. Exemplo eloquente e objetivo deste fenómeno, é a eclosão do movimento do “rock português”, iniciado por Rui Veloso. O tema histórico “Chico Fininho” data de 1980, marcando uma viragem decisiva na composição e produção de música popular em Portugal e, sobretudo de um novo imaginário, profusamente partilhado pelas várias gerações do regime democrático.

Lisboa era, em certa medida uma cidade paradoxal muito ligada, por um lado, a rituais sociais ainda inculcados por um afastamento de muitas décadas do desenvolvimento europeu iniciado no pós-guerra, que conviviam com a iconografia disruptora do processo revolucionário e a da sua disputa ideológica, muito presente no espaço público.

No campo cultural, após uma primeira fase de grande dinamismo marcando a década anterior liderada pelas artes plásticas e pelo teatro, em movimentos, muitas vezes espontâneos de manifesto ou manifestação popular, a situação na década e 80 é de uma progressiva “normalização” diretamente proporcional ao reforço do poder do Estado e das suas instituições, e ao crescente esforço na conversão de uma relação de tensão numa relação de cooperação entre a máquina estatal e os agentes culturais.

Não obstante, o progressivo papel interventor dos poderes públicos marcado em Lisboa pela fundação ou refundação de organismos tão importantes como a Companhia Nacional de Bailado ou o Teatro Nacional D. Maria II, a Fundação Calouste Gulbenkian continuará, pelo menos ainda durante uma década e meia, a manter um papel cimeiro, sobretudo ao nível da formação de artistas e da construção de uma nova comunidade de públicos.

A geração dos anos 80 em Portugal, encontra-se, de certo modo, encarcerada entre o ocaso de um processo revolucionário e o advento de um horizonte europeu ainda em potência. É evidente que a desigualdade social do país que ainda hoje persiste, considerada como uma das fragilidades do sistema democrático, autoriza-nos a falar sobretudo daqueles que, conseguem beneficiar das capacidades de democratização do novo regime, o que corresponde, em boa medida, aos filhos das classes médias urbanas. Todavia, são precisamente alguns destes que, confrontados, não tanto com a escassez de condições materiais, mas sobretudo com esse desfasamento entre realidade e expectativa, que decidem demandar outros horizontes, designadamente a Europa e Nova Iorque, buscando os referentes que dificilmente conseguem alcançar em Portugal, numa fase ainda muita embrionária da revolução digital e da globalização, como sua mais direta consequência.

O movimento da nova dança portuguesa inscreve-se nesta moldura sociocultural. Os seus fundadores têm a ligá-los entre si esta profunda necessidade de cosmopolitismo, aspeto da maior importância na legitimação dos seus percursos, operada em primeira instância em palcos europeus.

Deste modo, o seu importante sentido de comunidade, consolidou-se na crença absoluta das suas capacidades artísticas e na luta pelo reconhecimento das suas propostas criativas, antes de qualquer reconhecimento político o qual viria apenas a acontecer na segunda metade da década de 90. É, contudo, justo evocar, a este respeito, o trabalho, vital para a construção das condições mínimas e assim permitindo a consolidação do movimento, realizado no terreno, por instituições como a Escola Superior de Dança, o Fórum Dança (1990), a Companhia de Dança de Lisboa (1984) e mesmo o Comissariado para Europália 91 (90/91), e por referências incontestáveis do setor cultural como António Pinto Ribeiro, Madalena Victorino, Catarina Vaz Pinto e Gil Mendo.

O objeto com que desta vez me/vos reencontro - uma fotografia - é para mim uma evocação muito pessoal de um dos movimentos artísticos mais interessantes do Portugal democrático:  na estação da Cité Universitaire, em Paris, João Fiadeiro, Ângela Guerreiro, Pedro Domingos e Thomas Kharel em plena tournée, decorria o ano de 1993! Eu sou a quinta pessoa, premonitoriamente abraçado a um dossier…

 Fame cost… definitely!

-Sobre Miguel Honrado-

Licenciado em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e pós-graduado em Curadoria e Organização de Exposições pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa/ Fundação Calouste Gulbenkian, exerce, desde 1989, a sua atividade nos domínios da produção e gestão cultural. O seu percurso profissional passou, nomeadamente, pela direção artística do Teatro Viriato (2003-2006), por ser membro do Conselho Consultivo do Programa Gulbenkian Educação para a Cultura e Ciência – Descobrir (2012), pela presidência do Conselho de Administração da EGEAC (2007-2014), ou a presidência do Conselho de Administração do Teatro Nacional D. Maria II (2014-2016). De 2016 a 2018 foi Secretário de Estado da Cultura. Posteriormente, foi nomeado vogal do Conselho de Administração do Centro Cultural de Belém. Hoje, é o diretor executivo da Associação Música, Educação e Cultura (AMEC), que tutela a Orquestra Metropolitana de Lisboa e três escolas de música.

Texto de Miguel Honrado
Fotografia de Estelle Valente
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