Programar um jardim é sempre um palimpsesto! Ambos os níveis, espaço e programação, remetem para a pulsão do desejo de criar partindo de um nada, que mesmo não sendo absoluto, adota como premissa a tabula rasa.

Ocorreu-me esta ideia quando, em 2007, após uma ausência de três anos regresso a Lisboa e recebo o convite do António Pinto Ribeiro, Programador do Fórum Estado do Mundo, evento de celebração dos 50 anos da Fundação Gulbenkian, para pensar a programação do Jardim da Fundação, convertido, nesse quadro, em Jardim do Mundo.

Porém, no caso vertente não se tratava de raspar um velho pergaminho para nele inserir um outro texto, bem pelo contrário, ambas as caligrafias deveriam entrecruzar-se de molde a materializar a expressão do economista e prémio Nobel Amartya Sen que em “Violência e Identidade”, uma das suas obras, escreveu : “não basta entendermos que somos todos diferentes mas que o somos diversamente diferentes”.

Inaugurada a 1 de Junho a programação, estendendo-se até 8 de Julho, oferecia uma variedade enorme de eventos ficando a coordenação da programação para público infantojuvenil a cargo de Susana Gomes da Silva (oficinas criativas) e a restante, entregue a mim próprio, obedecendo maioritariamente a duas linhas de abordagem: a) convites a jovens artistas cuja obra potenciava desenvolvimentos interessantes ao mote proposto; b) uma relação de proximidade com as comunidades imigrantes num primeiro plano residentes na Área Metropolitana de Lisboa e, num segundo plano, noutras regiões do território nacional.

Tratava-se de criar tempos e espaços num jardim constituído por formas labirínticas que se entrelaçam, criando a ilusão de muitas e diferentes realidades / irrealidades, recantos e intimidades. O resultado caracterizou-se por uma oferta muito profusa passando por concertos, atividades lúdicas, atividades participativas, instalações de artistas, oficinas criativas.

Por outro lado, a implementação de todo este calendário inusitado de atividades no espaço concreto do Jardim, tentando preservar o mais possível as suas características, potenciando de forma mais organizada e objetiva, por um lado,  algumas atividades que de certa forma já aconteciam de forma espontânea (leitura, jogos, artes marciais…), com outras que, por outro lado, corporizassem o postulado de Amartya Sem, fomentando uma vivência diversa dos espaços, sem nunca incorrer na sua desvirtuação; a programação deveria habitar o espaço e nunca impor-se-lhe.

Em cada evento programado há sempre um projeto de eleição no juízo do próprio programador, em “Jardim do Mundo” deu-me especial prazer o desenvolvimento de “sombrinhas”. Partindo da sombrinha tipicamente chinesa de bamboo, foram desafiados três artistas plásticos: Maria Lusitano, Nuno Valério e Celestino Mondlane, a desenvolverem desenhos originais sobre as respetivas copas. 4.200 sombrinhas foram produzidas na China com a expectativa de que, uma vez distribuídas pelo público, disseminassem ao longo do tempo manchas aleatórias de cor em todo o jardim. Deste modo os próprios visitantes converter-se-iam em autores de uma instalação inconscientemente espontânea. O repto centrava-se ainda na conversão de um produto de produção maciça e em série, num objeto que, à sua maneira, operasse uma relação identitária com o mote temático a que já aludimos.

 Nuno Valério é originalmente um street artist que consolidou a sua carreira em Barcelona; das composições plásticas criadas pelos três artistas, esta é a minha preferida.

Desde logo pelo emprego jubilatório da cor: o amarelo solar servindo de base a aplicações de vermelho, verde, branco e negro. Porém, a maior elemento de sedução, reside, quanto a mim, na emergente carga caligráfica da composição que nos remete para um verdadeiro “descentramento”.

De facto, partimos à descoberta de um conjunto de grafemas que embora não consigamos de imediato descodificar nos introduzem num universo visual, em que buscamos naturalmente referentes; essa procura vai alargando a nossa memória visual em direção a outras paragens e, sobretudo, a outras realidades geográficas e simbólicas.

O resultado é uma babel em que se imbricam o grafiti, media privilegiado de expressão do artista, mas também todo um universo plástico que remete para outros horizontes culturais como a arte africana, oriental ou sul americana.

Por fim a palavra “Fado” emerge pujante de ironia atuando como elemento conector de todo este universo. Para além do que possamos discorrer sobre os grafemas que a compõem – em minha opinião relevam de uma reinterpretação lúdica, quase mordaz, da escrita hieroglífica – é sumamente interessante o jogo de relações que o artista tece entre essa hipérbole maior do “ser português” e o universo de “estranhamento simbólico- geográfico” criado. Tal relação resulta, em meu entender, numa notável metáfora do nosso cosmopolitismo diaspório.

Projeto referência no meu percurso profissional o Estado do Mundo, realizado em 2007, levou, pela mão do seu principal curador, António Pinto Ribeiro, à emergência de um manancial de reflexão, que hoje, na atual conjuntura devemos forçosamente convocar. “É urgente reinventar o mundo” eis uma utopia hoje por muitos desejada: “precisamos de lutar para depois da catástrofe” (Bernard Stiegler); “porque apesar de vivermos num jardim feérico e devastado de um mundo de incertezas, temos o dever de ser felizes” (Peter Sloterdijk).

-Sobre Miguel Honrado-

Licenciado em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e pós-graduado em Curadoria e Organização de Exposições pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa/ Fundação Calouste Gulbenkian, exerce, desde 1989, a sua atividade nos domínios da produção e gestão cultural. O seu percurso profissional passou, nomeadamente, pela direção artística do Teatro Viriato (2003-2006), por ser membro do Conselho Consultivo do Programa Gulbenkian Educação para a Cultura e Ciência – Descobrir (2012), pela presidência do Conselho de Administração da EGEAC (2007-2014), ou a presidência do Conselho de Administração do Teatro Nacional D. Maria II (2014-2016). De 2016 a 2018 foi Secretário de Estado da Cultura. Posteriormente, foi nomeado vogal do Conselho de Administração do Centro Cultural de Belém. Hoje, é o diretor executivo da Associação Música, Educação e Cultura (AMEC), que tutela a Orquestra Metropolitana de Lisboa e três escolas de música.

Texto de Miguel Honrado
Fotografia de Estelle Valente
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