1.O meu primeiro quadro

O convite do Gerador suscitou-me, naturalmente, uma reflexão sobre qual o meu melhor contributo neste espaço “Gargantas Soltas” que agora se abre on line neste tempo novo, que nos reconduz trágica e abruptamente à nossa real dimensão!

Neste tempo de permanência em casa e em que o espaço doméstico não é apenas, e como habitual, uma forma de cuidar de mim próprio, de defesa contra uma ameaça desconhecida, mas também uma forma de cuidar do outro nele me projetando.

Ora, como materializar esta nova relação dúplice de, a um tempo, de não esquecer o outro, valorizando-o, defendendo-me a mim próprio?

Propus-me, assim, redescobrir no espaço doméstico objetos/vida. Trata-se de verdadeiros signos de um percurso pessoal/profissional que integram, digamos, um sacrário íntimo, que aqui desejo, doravante, partilhar.

Começo pelo “meu primeiro quadro” cuja fotografia (manipulada é certo!) introduz este pequeno texto.

António Palolo nasceu em Évora em 1946, autodidata, o momento alto da sua produção artística fixa-se na primeira metade da década de 70 do século passado. A obra que me pertence inscreve-se nesta fase, em que as suas experiências pictóricas se detêm no poroso limiar entre figuração e abstracionismo.

Na verdade Palolo e a sua criação eram, até à compra da obra, bastante desconhecidos para mim. Quis um conjunto de circunstâncias que um amigo de um amigo tomasse a decisão de vender, levando-me ao momento de um primeiro contacto com a pintura e consequentemente ao meu primeiro investimento em arte contemporânea; corria a década de 90 e, especificamente, os tempos “febris” da EXPO’98.

Dado que, como já referi, pouco ou praticamente nada sabia sobre a obra de Palolo, sempre me questionei sobre a razão do meu convencimento súbito nesta aposta, descartadas que estão, desde já, razões como investimento, ou valor: não sou um colecionador e tenho grande dificuldade em sê-lo, por perfil, carácter e condição.

Na realidade o que mais seduz cada vez que contemplo a obra é, e a tensão declarada entre exuberância e contenção que decorre da composição pictórica. Sobre um fundo de pleno azul perturba-me a vibração entre as formas em rosa e verde, transbordantes de energia, confinadas, todavia, pelo hieratismo dos negros, dominando e disciplinando o curso profuso, instável e informe da cor. Do conjunto resulta, em meu entender, uma complexa poética dos limites.

Como podem facilmente constatar atrevo-me a enviar-vos um registo fotográfico do meu primeiro quadro. Nele não resisti em incluir-me; a minha sombra acrescenta-se objetivando a contemplação.

Outros elementos ainda se projetam, materializando o momento do registo: o reflexo do espaço real em torno, onde se inscreve o corpo – que projeta a sua sombra espúria no campo pictórico. A intenção é simples: encenar uma “fuga” para o espaço da criação que se oferece, neste caso, como refúgio e evasão ao espaço real em tempos de clausura.

Trata-se tão só e simplesmente de sugerir um convite à entrada nessa outra dimensão que, ao suscitar porventura a descoberta, poderá constituir exercício de revelação ou, mais ainda, de libertação, possibilitando uma reflexão sobre o lugar que ocupamos, no momento em que o outro pode ser, a um tempo, ameaça e vítima.

Por simples acaso reli recentemente algumas passagens de “Tristes Tropiques” de Claude Levy Strauss, obra prima premonitória sobre a destruição da alteridade que operou o nosso modelo de desenvolvimento no seu percurso histórico: alteridade humana, alteridade cultural, alteridade ecológica.

A narrativa de Strauss é, deste modo, um manifesto desesperado que ecoa hoje como um “sentido pleno de sentidos” resultante de uma suspensão global súbita e brutal. Denúncia vigorosa de um processo, liderado pela civilização ocidental de aniquilamento de todas as diferenças, de sufocação de toda a diversidade, pelo primado do lucro e do consumo ancorado numa salvífica revolução tecnológica que, finalmente, ao invés de democratizar o acesso ao conhecimento, o fixou como emblema de clivagem social e vazio intelectual.

Os gigantescos fenómenos de mobilidade à escala planetária, simplesmente erradicaram a verdadeira possibilidade de conhecimento do outro, secundarizando-o e confundindo verdadeiro conhecimento e ocupação individual e predatória.

Agora que, visivelmente, o sistema que criámos se encontra à beira do abismo e ameaça colapso, agora que voltámos a nós confrontados com a essencialidade da sobrevivência, agora que a entropia dos corpos prenuncia a paralisia de todo o sistema, resta-nos regressar a nós mesmos, àquilo que verdadeiramente importa e que, provavelmente ainda temos e teremos, durante algum tempo, grande dificuldade em discernir.

A maneira que encontrei, e vos proponho, nestes tempos incertos, sem resposta e sem horizontes é a de um reencontro com objetos que não são mais do que tentativas de vos revelar uma viagem íntima, na esperança de que, pelo menos, os momentos de vida que neles existem, possam ser uma vez mais partilhados, porque eles são em si poderosos testemunhos da influência do outro sobre mim próprio.

Perante a busca deste novo sentido de partilha pareceu-me congruente iniciar este périplo pelo “meu primeiro quadro”, precisamente porque nesta obra de Palolo, na sua dialética entre contenção e explosão encontramos, em minha opinião, uma eloquente metáfora do tempo-limite em que vivemos.

-Sobre Miguel Honrado-

Licenciado em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e pós-graduado em Curadoria e Organização de Exposições pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa/ Fundação Calouste Gulbenkian, exerce, desde 1989, a sua atividade nos domínios da produção e gestão cultural. O seu percurso profissional passou, nomeadamente, pela direção artística do Teatro Viriato (2003-2006), por ser membro do Conselho Consultivo do Programa Gulbenkian Educação para a Cultura e Ciência – Descobrir (2012), pela presidência do Conselho de Administração da EGEAC (2007-2014), ou a presidência do Conselho de Administração do Teatro Nacional D. Maria II (2014-2016). De 2016 a 2018 foi Secretário de Estado da Cultura. Posteriormente, foi nomeado vogal do Conselho de Administração do Centro Cultural de Belém. Hoje, é o diretor executivo da Associação Música, Educação e Cultura (AMEC), que tutela a Orquestra Metropolitana de Lisboa e três escolas de música.

Texto de Miguel Honrado
Fotografia de Estelle Valente