RAPAZ IMPROVISADO |  Leonel Mendrix

Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode ou não atrapalhar? A música exige uma rendição total para as notas entrarem pele adentro?

O lado racional vai estar sempre implícito no acto da composição, algumas vezes mais, outras vezes menos. O improviso, por exemplo, no jazz, acontece dentro de uma linguagem em que existe necessidade de explorar algo mais. No meu caso, isso também acontece.  O improviso é a forma de experimentar e encontrar outras harmonias, outras formas de estar, outros lugares. Sinto, no entanto, que grande parte das vezes é a intuição que começa a composição  e, depois, é o lado racional que a organiza e a faz crescer mais além.  A música é uma linguagem universal, mas a rendição acontece se os teus valores culturais estiverem preparados para tal.

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer?

São tantas e variam muito conforme o meu estado de espírito mas, por exemplo :  “Something’s Burning”, dos 12 Rounds; o “Make it Rain”, do Tom Waits; “Red Right Hand”, do Nick Cave & The Bad Seeds e  “Sweet Little Pussy Cat”, do Andre Williams & His Orchestra.

E aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato.

“Devorzhum”, dos Dead Can Dance e “Mahshav”, do John Zorn, por exemplo. Mas lembro-me, perfeitamente, a primeira vez que ouvi “No More Affairs”, dos Tindersticks. Senti-me, realmente, arrebatado por aquela voz. Com o primeiro disco de Lhasa de Sela aconteceu-me o mesmo. Mas há tantas músicas e bandas que adoro e mexem comigo.

Achas que o facto da música ser invisível, não palpável, ajuda-a a ser mais intuitiva e transgressora?

Sem dúvida,  se a tua mente for suficientemente aberta não existem fronteiras. A música viaja contigo se tu quiseres. A música pode ser a tua arma de intervenção no mundo, é uma excelente forma de comunicares e de te relacionares com as pessoas. Para mim, a música é uma espécie de salvação e aproximação que te torna mais sociável, mais feliz, mais completo.

Já te aconteceu pensares numa imagem ou espaço específico enquanto compões?

Sim, claro. Foi assim que desenvolvi o conceito para o meu segundo álbum, “Monoceros”. A constelação Monoceros e o filme Blade Runner foram os elementos principais de inspiração para que o álbum acontecesse, ambos repletos de imagens e espaços surpreendentes.

Se pudesses desenhar e pintar a tua música, como seria e que cores teria?

Neste momento, a preto e branco. Estilo  banda-desenhada, provavelmente, com muitas sombras em movimento.

Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce?

É curiosa esta pergunta dado que tenho um projecto com o meu primo Pedro, de momento em standby, que se chama “Sinestetas Albinos”. O nome surgiu pelo interesse em experimentar e misturar sentidos no processo de composição. Com “Rapaz Improvisado” continua haver, na mesma, a faceta experimental, mas não creio que sofra de sinestesia natural. Quando acontece, é simplesmente intuitiva ou consciente e racional. Por exemplo, quando componho, sinto para onde ela deve ir, se para as montanhas, se para o mar ou a uma festa ou uma cerimónia chata. O doce, o amargo, o salgado ou o agridoce estão, automaticamente, aí implícitos.

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que  ficou na tua memória. Que música lhe associarias?

Não tenho um cheiro super importante para mim, mas recordo-me de uma semana de férias que passei no Algarve, na zona de Vilamoura, com dois amigos meus. Aquele ambiente não encaixava muito bem na minha forma de estar, mas era ali que tinha estadia de borla. Levei bicicleta, um leitor de mp3 e um álbum de Chico Buarque que muitas vezes me fez companhia.  A canção “Nina” era obrigatória diante do mar. O cheiro do mar ficou muito associado, desde então, a esse disco no geral. Escutar esse álbum e não recordar essas férias é impossível.

Achas que a música pode ser um bom veículo para fixar e guardar memórias?

Sim, claro. A  minha adolescência tem exemplos disso. Um dos mais evidentes, para mim, é um dos Verões em que costumava ir a uma piscina a 15 kms de minha casa. Habitualmente, levava o meu walkman e as minhas cassetes. “Death Of A Ladies’ Man”, do Leonard Cohen, era  um álbum que escutava nessa altura e lembro-me, perfeitamente, de ouvir vezes sem conta “I Left a Woman Waiting” e “Paper Thin Hotel”  estendido na toalha, a apreciar as raparigas tão perto e ao mesmo tempo tão longe de mim. Mas a melhor, era a piada em escutar a canção “Don’t Go With Your Hard-On” porque não tinha fama alguma com as raparigas. Nesse aspecto, posso confessar que a minha adolescência foi terrível, eheheh.  A música era, no entanto, a melhor e a minha salvação e, muita dela, ainda a ouço hoje em dia. Muito por causa do Leonard Cohen, nunca irei esquecer esse verão, essa piscina.

Como artista como é, para ti, deslindar sentimentos e emoções através de notas musicais?

Pergunta complicada, ainda bem que é a última! Eu acho que não penso nisso, deixo-me levar.  Assim, como sou mais intuitivo do que racional a criar, acabo por compor de acordo com o meu estado de espírito. É certo que existem fórmulas, harmonias, notas que são a ferramenta para deslindar esses sentimentos e emoções a que te referes. Mas a minha forma de tocar guitarra é, muitas vezes, como se estivesse a tocar, pela primeira vez, outro instrumento. Nessa medida, acho que muitas vezes sou um experimentalista pelo fruto do acaso. Não sei se respondi bem ao que me perguntaste, espero que sim.

Entrevista por Ana Isabel Fernandes

Foto por Ricardo Graça