“Osmarina Pernambuco não consegue esquecer”, de Keli Freitas, actriz, dramaturga e encenadora brasileira, está em cena no Teatro D.Maria II, de 21 de Novembro a 1 de Dezembro.

O que é digno de ser registado, de ficar na memória? O que é importante não esquecer? Quem o deve dizer? Esta peça vem abrir estas questões, fazê-las tremer. Osmarina é uma mulher anónima que, durante toda a sua vida, escreveu diários de forma indiscriminada, pois está viva “e a vida é tudo”, diz a personagem que parece não deixar nada de fora. Disciplinada e comprometida, tanto anotava as laranjas que precisava de comprar, o estado do tempo, o almoço, como reflexões acerca da existência. “Comprei peixe” e “Eu estou pensando em minha vida. Estou com 35 anos. Gostaria de amar e ser amada, que alguém se lembrasse de mim com ternura” são exemplos de aparentes desvios. No seu diário tudo tem lugar, porque o seu olhar não tem filtro. Esta escrita é uma espécie fluxo do pensamento, intersectando frases soltas como camadas fílmicas entrecortadas, que vão passando no quotidiano de qualquer um.

"Preciso comprar laranjas. Preciso comprar bananas. Preciso comprar laranjas e bananas", Osmarina Pernambuco.

Trata-se de um projecto antigo de Keli Freitas. É a primeira peça que quis escrever. “Quando era muito nova e estava numa companhia de teatro, um actor que admirava muito, Alexandre Pinheiro, era sempre aquele que passava lá atrás e fazia uma cena de três segundos. Eu dizia sempre “eu adoro aquele cara”. Anos passaram e eu disse-lhe “queria fazer uma peça só com você””, conta. Durante o processo de pesquisa, descobriu a Síndrome de Memória Autobiográfica Superior e o caso de Jill Price, uma mulher com uma memória perfeita, capaz de, por exemplo, responder detalhadamente quando interrogada sobre o que fez numa data lançada de forma aleatória. Ficou conhecida como “a mulher que não consegue esquecer”. Quando partilhou com Alexandre Ribeiro que desejava explorar o tema da memória na peça que ia escrever para ele representar sob a forma de monólogo, este revela-lhe que a sua avó, Maria Leopoldina Félix, escreveu diários durante toda a vida.

Keli teve acesso a cinco diários, estando os outros espalhados por um grande número de herdeiros. A ideia foi sendo alterada ao longo do tempo. Em 2016, surgiu a primeira versão do texto. Nesse ano, veio para Portugal e concorreu com este projecto no Laboratório de Escrita para Teatro do D. Maria II. O projecto inicial é repensado e redesenhado para ser Keli a interpretá-lo. Nesse sentido, surgiram algumas dificuldades, que residiam na ocupação de outro lugar, que não seria o do neto. “Queria descolar a peça de ser feita por mim e Alex. Queria que fosse um texto. Só consegui com quando a botei em primeira pessoa, a Keli, alguém decidido a não esquecer a Osmarina Pernambuco. Quando entendi que esse era um lugar que eu podia fazer com Alex ou qualquer actor ou actriz, a coisa começou a sair. Não era eu, mas também não estava escrevendo na boca do Alex. São tentativas muito antigas que se cruzaram, eliminaram e sobreviveram”, explica. O que nos é apresentado não se resume ao texto dos diários, mas com ele dialoga, introduzindo detalhes da biografia de Keli, que passa pela sua profissão de actriz, que vive, também, da memória, bem como explorando algumas técnicas mnemónicas, como o Palácio da Memória, que parte das relações espaciais.

No título colocou Osmarina, “uma mulher completamente esquecível”, com a descrição de Jill Price, “uma mulher muito fácil de não esquecer”. Keli quis inverter a lógica, trazendo para cena quem está fora dela, o esquecimento para a memória. “Essas pessoas desperecem em silêncio e essa mulher registou o silencio”, reflecte. Descreve o seu trabalho como “uma espécie de arqueologia das memórias alheias, que nos conta muito sobre o mundo que vivemos e sobre as coisas que nos andamos esquecendo”.

"2 de abril, de 1955 – 22 horas: As crianças estão dormindo. Eu estou fazendo costura de mão nas roupas das crianças. Numa noite muito silenciosa como esta, eu me ponho a pensar. Mas eu estou viva. E a vida é tudo.", Osmarina Pernambuco.

Dentro do inútil, do banal, a peça sinaliza um brilho, expresso na interrogação: “Como é que uma mulher, há 70 anos atrás, se sentou para escrever? Eu acho mesmo algo extraordinário. Muitos dos meus amigos, ao longos desses anos, me foram dizendo “não sei o que tanto vê nesses diários”. Mas vocês não acham fascinante que uma mulher se sentasse no meio daquela vida para dizer “hoje preparei arroz”?”.

“Acho que é uma beleza que ela nos deixa, que não havia se ela não se sentasse anos numa cadeira para nos dizer se era feliz”, conclui.

 

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Este artigo não segue o Novo Acordo Ortográfico.

 

Texto de Raquel Botelho Rodrigues
Fotografia  de Filipe Ferreira

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