“Ao longo da muralha que habitamos/ há palavras de vida há palavras de morte/ há palavras imensas, que esperam por nós/ e outras, frágeis, que deixaram de esperar/ há palavras acesas como barcos/ e há palavras homens, palavras que guardam/ o seu segredo e a sua posição […] Entre nós e as palavras, os emparedados/ e entre nós e as palavras, o nosso dever falar”.

Reside nos versos de Mário Cesariny, poeta, pintor, surrealista acima da vida, a noção de um verdadeiro colete de forças que persiste entre o que queremos dizer e o facto de as palavras nem sempre chegarem para tal.

Por essa razão, a poesia, que como escreve Sophia de Mello Breyner Andresen pode significar “perseguição do real”, pode também servir como elo de ligação entre universos, entre pessoas, entre formas de ver e dar a ver mundo. É esse caráter de partilha que o citar de palavras, versos ou poemas pode ditar, traduzindo-se em momentos de comunhão por vezes inesperados e reveladores. Porque afinal tudo se resume à fala, que como escrevera o poeta Eduardo Guerra Carneiro traduz o verdadeiro sentido do poema: “Saber o sabor/ das palavras. Usar sem receio o poder maior./ Soltar o novelo. A língua.”

Tendo em conta a situação atual, que impede os momentos de leitura (pública) de poesia e literatura, o Gerador decidiu desafiar um conjunto de leitores e escritores para dar a conhecer, neste Dia Mundial da Poesia, a sua relação com o texto poético e de que forma é que a leitura pode servir cada um de nós. Propusemos ainda que cada um enviasse um poema que lhe fosse marcante, gravado em áudio. O resultado é o que se segue:

Nuno Miguel Guedes, jornalista
Sobre quando ou como comecei a ler poesia o tempo terá devorado essa memória. Mas não esta: a de um dia distante ter chegado à associação de estudantes a que pertencia um livrinho chamado Uma Exposição. Tratava-se de poemas de João Miguel Fernandes Jorge e Joaquim Manuel Magalhães e com fotografias de Jorge Molder a partir de quadros de Edward Hopper. Fiquei tão fascinado com os poemas de João Miguel que comecei a ler a obra toda. Pouco depois, através do meu querido e saudoso amigo Hermínio Monteiro fui apresentado – pessoal e literariamente – a muitos poetas. O entusiasmo foi crescendo. Até hoje e para durar.

Durante muito tempo achei que a poesia deveria ser lida exclusivamente em silêncio porque acredito que é do que fica por dizer sugerido pelo que é dito que vive essa depuração linda. Um dia, o meu amigo Alexandre Cortez criou os Poetas do Povo e a Lisbon Poetry Orchestra. Comecei a ler alto, contra mim próprio. Mas lentamente achei algum sentido e, milagrosamente, também quem me ouvia.

A poesia não irá salvar o mundo. Não nos torna melhores pessoas. Mas pode libertar, dizer, zangar, ser espelho. Funciona em qualquer circunstância ou sociedade porque a sua definição é a liberdade. E é na liberdade em que acredito. O poema que envio é dos meus favoritos e dos que mais leio. Considero-o um dos grandes poemas de amor portugueses do século XX. Chama-se “Com A Tua Letra” e é de Fernando Assis Pacheco. Cuidemo-nos.

Nuno Miguel Guedes lê Com A Tua Letra, de Fernando Assis Pacheco

Margarida Mestre, artista e performer
A Poesia entrou em mim, e eu entrei na Poesia, mas não sei quem é que começou primeiro… acho que desde sempre fui sensível à poesia das coisas e do mundo porque sou encantada pela vida e por aquilo de belo que ela possa ter. Mas a poesia escrita entrou em mim para ficar quando comecei a trabalhar com a voz. A poesia entrou-me pela boca.

Tinha uma bolsa e estava pela segunda vez em Nova Iorque para estudar técnicas vocais no LOOP de Lynn Book e tinha no meu caderno um texto daqueles que ia escrevendo. Tornou-se o primeiro texto que interpretei na performance “a Blues”. A partir daí a escrita tornou-se um desafio, a tradução outro, a escrita a pensar no som. A certa altura o João Gesta convidou-me para as 5ªs de Leitura e, pronto, a partir daí iniciei um percurso de invenção de quatro Objetos Poéticos que integraram a reescrita de poesia de vários autores, a interpretação vocal, o tornar audível e musical as palavras, sempre acompanhada por músicos maravilhosos, entre eles um pássaro. A esta altura, a poesia já estava entranhada e era centro do meu trabalho.

Em 2006 fui desafiada para fazer um recital de poesia para a infância, o “Tudo Gira” com poemas de Jorge Sousa Braga, e assim foi uma experiência magnífica e transformadora que se tem mantido até hoje. Fiz os “Poemas para Bocas Pequenas” com o António-Pedro, recital que ainda se mantém vivo em Áudio Livro e a circular de mão em mão pelas crianças e pelas escolas… e eles cantam os poemas e eu fico feliz de andar a espalhar poesia por aí. Continuo a ler poesia e a ter vontade de a falar e de a cantar, para que saia do mundo dos livros e se torne som, palavra, sensação.

Margarida Mestre lê Febre, de Al Berto

José Anjos, poeta
“Todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas.” Federico García Lorca

Tal como da matemática, somos servos da poesia e não mestres dela. E o que serve a poesia? É esse o mistério. E a resposta? O próprio mistério das coisas, o espelho para todas as intenções, desconhecendo nós os desígnios de um fluxo piroclástico. Talvez a poesia seja apenas uma forma de nos dar a chance de entender (enquanto hipótese) alguns dos mistérios das coisas (assim espero, que de matemática não percebo nada). Então, escreves para veres a voz das coisas: propões uma teoria, não para a conseguires provar, mas apenas para conseguir descortinar algumas figuras no escuro. A poesia é fantasma: para o poema nascer algo tem de morrer primeiro, por vezes o próprio autor.  A poesia nasce da impossibilidade de expressão, de aceder a certas coisas sem as deixar ganhar. Ela permite essa aproximação não para as explicar mas para as entender, ou melhor, denunciar. Mas cuidado, a voz das coisas é um trovão: pode até matar-nos.

Por isso, como bem escreveu o poeta Gastão Cruz, na poesia procuro uma casa onde o eco existe sem o grito que todavia o gera. A poesia é incontornável na minha vida, aliás incontrolável. Escrever foi – e é sempre – um acidente: a única oficina que me interessa é aquela que é impossível prever ou exercer. Apenas podemos resumir-nos ao gesto, sem saber o resultado. Num certo sentido, a poesia é como o futebol: ganha-se e perde-se (muito), nem sempre há golos. Muitas lesões e golpes sujos. No fim, não pode haver certezas que ganhem, no fundo, todos temos a necessidade de recomeçar e de nos repetir: é por isso que aqui estamos. Em boa verdade, nunca sei o que tenho para dizer. Talvez um poema seja um tratado de semântica quântica, uma narrativa consistente no caos que flui. A poesia está no sangue: cortem-se as veias.

José Anjos lê e musica Elegia para os meus funerais, de Tao Yuanming

Tatiana Faia, poeta
A propósito da poesia: em Itália, nos anos 20 e 30, uma geração de poetas, uma ou duas décadas mais jovens do que d’Annunzio ou Marinetti, cuja poesia é em tantos aspectos precursora do fascismo, de repente começaram a escrever poemas sobre limões, girassóis, árvores, montanhas, paisagens. Fizeram-no de um modo que parecia hermético e virado para dentro, aparentemente tão desligado de qualquer agenda social que certos poemas parecem quase um retorno ao silêncio. Há, às vezes, um minimalismo e um depuramento nesses poemas que encontram um eco, por exemplo, nas naturezas mortas de Giorgio Morandi ou na aguda precisão de linguagem de certos poetas portugueses que chegaram um pouco mais tarde, como Sophia ou Cesariny.

Escreveram os poetas italianos estes poemas num tempo em que a ética e a solidariedade tinham sido duramente postas à prova nas duas ou três décadas precedentes e fortemente deterioradas. Numa altura sem grande tolerância e gentileza, em que os discursos cívicos precisavam de ser recordados, refeitos, reinventados. Quero crer que o meu interesse por poesia deve ter qualquer coisa que ver com isso.

Tatiana Faia lê A Word for Summer, de Giórgos Seféris

Neste Dia Mundial da Poesia, o Gerador publica, além deste artigo, mais dois em torno da arte poética e dos seus ecos no tempo em que vivemos: O que dirias a um(a) jovem poeta e De que servem os poetas em tempo de indigência?. Descobre mais aqui.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de João Silas via Unsplash

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